Blog do Galeno Observatório do Livro e da Leitura

21 de janeiro de 2018

O presidente e os sem-livro

Daniel González

A existência de um grande contingente de cidadãos que não têm acesso ao livro e, tampouco, as habilidades necessárias para o ato de ler é um dado preocupante. Apenas um em cada quatro brasileiros está apto para tal, enquanto os 75% restantes são analfabetos absolutos ou funcionais, que mal desenham o próprio nome e têm dificuldades para compreender textos mais complexos que um simples bilhete.

Essas pessoas até conseguem decodificar palavras ou pequenas frases, mas não interpretam o que está escrito. Some-se a isso a dificuldade de leitura e compreensão de milhões de crianças em idade escolar, conforme mostram diversos estudos internacionais. O resultado é um índice nacional de leitura baixo (menos de dois livros lidos por habitante ano, contra 2,4 na Colômbia ou 7 na França).

Outra forte razão é a falta de acesso aos livros, o que gerou o surgimento de uma categoria de brasileiros batizada, apropriadamente, de sem-livro – mais numerosa que a dos sem-teto ou a dos sem-terra. A massa de leitores em potencial é pequena – 26 milhões de pessoas, o que equivale a um terço da população letrada do país – e ainda tem toda sorte de dificuldades para ter um livro em suas mãos.

Cada brasileiro compra, em média, apenas 0,82 exemplar/ano e o resultado é que menos da metade da população leitora do país possui acima de 10 livros em suas casas. Assim, faz-se necessário que o Estado crie políticas para tornar o livro mais acessível, seja estimulando o mercado a baratear os preços ou a lançar novos produtos – como os livros de bolso –, seja abrindo mais bibliotecas públicas e revitalizando as atuais, que constituem um formidável capital social da nação.

O dado positivo é a crescente conscientização da sociedade, neste início de milênio, em torno dessa questão. Há uma forte percepção sobre a importância da leitura para o desenvolvimento pessoal e profissional do cidadão e seu papel cada vez mais estratégico dentro do projeto de desenvolvimento nacional. Nos últimos anos, avanços significativos têm sido registrados na esfera federal – que instituiu o Vivaleitura, no Ano Ibero-americano da Leitura, com 100 mil ações de parceiros do Estado, empresas e terceiro setor; ampliou os programas de aquisição do livro; implanta novas bibliotecas e instituiu o Plano Nacional do Livro de Leitura – e também na estadual e na municipal.

O desafio, agora, é assegurar a manutenção dos esforços feitos até este momento, ampliar essas ações nas futuras gestões e fazer com que sejam convertidas em políticas de Estado – que estão acima dos programas de governo e das questões partidárias ou pessoais. Os organismos internacionais, as entidades da cadeira produtiva do livro, os jornais, as revistas, as associações que trabalham com leitura e as lideranças responsáveis da sociedade também têm um relevante papel neste sentido.

Na campanha eleitoral, a OEI deu sua contribuição ao processo com a publicação do caderno Políticas Públicas do Livro e Leitura, em que os autores, representando as diversas correntes do pensamento político nacional, fizeram reflexões sobre o tema, assumiram compromissos e os incorporaram aos seus programas de governo. Com entidades do mundo do livro e outras organizações não-governamentais, a OEI também ajudou a elaborar o Manifesto do Povo do Livro, assinado até o momento por 3.500 personalidades e entregue aos candidatos a presidente que, assim, incluíram o tema na agenda nacional.

O presidente reeleito Luiz Inácio Lula da Silva, que abriu as portas do Palácio do Planalto para receber os escritores, educadores, editores, livreiros para conversar sobre o documento, assumiu com entusiasmo vários compromissos para fazer do Brasil um país de cidadãos leitores. Dessa forma, o Brasil que sai das urnas de 29 de outubro – por coincidência o Dia Nacional do Livro – tem tudo para ser um país ainda melhor ao fazer essa aposta em educação, leitura, livros e bibliotecas.

Daniel González é antropólogo e diretor da Organização Ibero-americana para a Educação, a Ciência e a Cultura (OEI) no Brasil

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