Blog do Galeno Observatório do Livro e da Leitura

25 de setembro de 2017

Bibliotecas em tempo de guerra

Affonso Romano de SantAnna

Correio Braziliense - Caderno C - 1/7/2007

Como escritor, como ex-presidente da Biblioteca Nacional do Brasil ou como um simples cidadão, não poderia ficar indiferente diante das notícias do que ocorre com a Biblioteca Nacional do Iraque e das agruras de seu diretor, Saad Estkander.

Durante a estúpida invasão americana naquele país, em 2003, eu havia escrito uma crônica assinalando que se estava arrasando um dos patrimônios mais valiosos da história da humanidade, ao despejarem toneladas de bombas e passarem tanques em cima de ruínas históricas onde estão os míticos rios Tigre e Eufrates, naquelas bandas onde estava a Nínive do profeta Jonas, na paisagem onde se construiu a Torre de Babel e onde reinou Nabucodonosor, na terra onde se escreveu o código de Hamurabi e no cenário das aventuras de Gilgamesh.

Agora vejo uma fotografia onde um funcionário da Biblioteca Nacional do Iraque, entre os destroços da seção de obras raras, recolhe livros queimados, arruinados. E descubro que o diretor Saad Estkander, impotente diante do descalabro, resolveu fazer um diário na internet narrando as coisas terríveis e estapafúrdias que ocorrem.

Eu já estava, de alguma forma, familiarizado com a lastimável situação de algumas bibliotecas, a começar da nossa, quando a assumi e via livros empilhados pelos corredores ou expostos à chuva e à incúria. Na guerra que também travava, lembro-me que uma bala perdida caiu, certa manhã, a dois metros de minha mesa de trabalho. Mandei recolhê-la à seção de obras raras. Mas lembro-me também, no plano internacional, de quando recebi um espantoso comunicado expedido pelo diretor da Biblioteca Nacional da Rússia pedindo socorro, exatamente, socorro!, pois aquela instituição estava sendo espoliada e à deriva, logo que o comunismo desintegrou-se e não se sabia em que direção aquele país ia. Assim, um dos maiores acervos do mundo parecia ir a pique, num naufrágio titânico. Já tinha, na mesma linha, ouvido, em Moçambique, o ministro da Cultura me narrar que todas as bibliotecas do país haviam sido destruídas nos muitos anos de guerrilha.

Mas essa outra notícia, agora, sobre o que está ocorrendo no Iraque é por demais perturbadora.

Ali foram destruídos, com a guerra, 60% do material arquivado e 95% dos livros raros. Ou seja, a guerra arrasa tanto os monumentos de cal e pedra quanto as obras monumentais do passado. E o diário do acuado diretor da BN iraquiana vai narrando, por exemplo, que “o dia 3 de fevereiro foi um dos mais sangrentos. Um caminhão explodiu na área de Al Sadriya. Mais de 150 pessoas inocentes morreram e 250 ficaram feridas”. Nos dias seguintes, mais explosões, cortes de luz e água; noutro dia, desaparecimento de funcionário seqüestrado ou, até mesmo, o assalto ao ministro da Cultura, ao sair do banco, quando levaram todo o seu salário. E assim por diante. Fora isso, segue descrevendo uma outra guerra, a guerra da burocracia, menos barulhenta, mas mesquinha e danosa.

Muitos de nós já vimos uma espantosa e ao mesmo tempo encorajadora foto tirada durante os bombardeios nazistas de 1940, em Londres. O cenário é uma biblioteca bombardeada, destelhada, mas, entre os destroços, três senhores, britanicamente vestidos, com capote e de chapéu, contemplam e examinam livros que restaram nas estantes. Como diz Alberto Manguel em Uma história da leitura, “eles não estão dando as costas para a guerra nem ignorando a destruição. Não estão escolhendo os livros em vez da vida lá fora. Estão tentando persistir contra as adversidades óbvias; estão afirmando um direito comum de perguntar; estão tentando encontrar uma vez mais – entre as ruínas, no reconhecimento surpreendente que a leitura às vezes concede – uma compreensão”.

É isso que também cada um de nós procura entre as ruínas desta e de outras guerras.

Mais Colunistas

Todas as notícias sobre "Colunistas"

Receba por e-mail


Cadastre-se!

Livrômetro

Relógio da leitura no Brasil

576.720.000

Livros lidos em 267 dias de 2017 no país