Blog do Galeno Observatório do Livro e da Leitura

22 de setembro de 2017

A feira do livro e as surpresas da vida

Galeno Amorim

A vida é mesmo cheia de surpresas. Nos anos 1990, já andava eu metido com os livros quando me foi encomendado um relatório para apontar se Ribeirão Preto comportaria uma boa feira deles. Seria quase uma reportagem, algo que, nas duas décadas anteriores, fiz várias vezes por dia. Um empresário de eventos sonhava criar no meio da praça, sob uma imensa tenda na Esplanada do Pedro II, uma feira de livros.

Pura loucura! Pelo menos foi o que disseram quando ele apresentou o projeto. A idéia não vingou. Talvez ainda não fosse a hora. Eu recebi regiamente pelo trabalho e fui cuidar da vida, cada vez mais ligada a esse mundo. Por anos a fio, não me lembraria mais do episódio. Mas boas idéias não morrem: são como sementes que permanecem intactas à espera do jardineiro e do tempo certo para germinar.

Anos depois, ao me convidar para assumir a Secretaria da Cultura em seu segundo mandato, o então prefeito Antônio Palocci faria uma única recomendação:

– O que você acha de fazer uma feira do livro? – provocou, mais apontando caminhos do que propriamente perguntando.

A primeira feira levou exatos quatro meses para ficar pronta. A prudência mandava que só viesse a ocorrer no ano seguinte, mas Palocci decidiu pagar pra ver. E já engatilhou outra pergunta:

– Por que não presentear a cidade com uma nova biblioteca a cada dia da Feira?

Tinha início, assim, o programa que implantaria, nos três anos seguintes, 80 novas bibliotecas na cidade. Poucos apostavam que pudesse dar certo em tão pouco tempo. Foi só numa manhã fria de agosto de 2001, quando o Palácio Rio Branco amanheceu repleto de livros espalhados por suas escadarias e gabinetes – uma bonita instalação do artista Cleido Vasconcellos –, que a cidade teve, enfim, a certeza. O escritor Luiz Puntel levou um susto ao abrir o jornal de manhã e contar 12 páginas sobre a Feira na Folha de S.Paulo.

– Caramba! E não é que deu certo?!! – constatou, mineiramente.

Deu certo porque, no fundo, muita gente acreditou. Primeiro, articulou-se a união entre a prefeitura o PT e os governos estadual e federal do PSDB. Entidades de editoras, livrarias e escritores do país foram convencidas a apoiar. Logo, autores, artistas e o povo estavam na praça para a grande festa da cultura. E o que parecia loucura é, hoje, uma realidade inconteste no coração de Ribeirão.

Charmosa, a Feira ganhou fama nacional: o público saltou para 300 mil visitantes e, seis anos depois, mais de mil escritores já passaram por lá.

Estive à frente dela nos primeiros três anos. Saí pouco antes da 4ª edição, em 2004 – a melhor de todas, junto com a de 2002, que homenageou os 100 anos de Drummond –, para criar a política nacional do livro e leitura. O secretário da Cultura Eduardo Mendes teve, naquele ano, papel fundamental. O mesmo se deu, em seguida, com Joaquim Rezende que, eleito presidente da Fundação Feira do Livro – criada para garantir a continuidade da Feira –, conduziu com maestria o difícil período da transição.

Ao fazer de Ribeirão uma das cidades onde mais se lê no país – 9,7 livros por habitante/ano, seis vezes a média nacional e o dobro dos EUA – a Feira já entrou para a história. Passou por três prefeitos (Palocci, Maggioni e Gasparini) e dá sinais que será cada vez melhor. O bastão, agora, está com a presidente da Fundação, Isabel Farias, que, com o apoio da prefeitura, governo federal e empresas privadas, tem tudo para realizar, em 2007, a melhor de todas elas.

Vida longa, pois, à Feira do Livro!

Galeno Amorim foi o criador do Plano Nacional do Livro e Leitura

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