Blog do Galeno Observatório do Livro e da Leitura

22 de setembro de 2017

Leitura e cidadania

Galeno Amorim

Gazeta Mercantil - Caderno Fim de Semana - 26/10/2007

Houve um tempo em que o livro era um objeto quase sacralizado, acessível apenas a uns poucos eleitos e a um punhado de eruditos. Houve também um tempo em que os livros eram meros objetos do prazer, do entretenimento e de puro diletantismo, acessível, então, a um grupo ainda seleto de pessoas, em especial aquelas que circulam mais facilmente pela dita alta cultura. E há um tempo, o presente, em que a leitura já é vista e encarada como algo capaz de mudar a vida das pessoas e da sociedade.

Felizmente, não foi preciso que o livro deixasse de ser uma e outra coisa. Ele continua, e permanecerá para todo o sempre, a ser um instrumento sagrado, que contém as informações produzidas pela sociedade e para a transmissão do conhecimento entre os homens. Jamais perderá essa sua sedutora condição de propiciador do prazer de qualidade e sua capacidade de levar os leitores ao deleite enquanto folheiam e mergulham fundo numa boa história.

Mas, cada vez mais, a leitura ocupa um lugar de destaque na sociedade moderna que está profundamente vinculado à necessidade permanente de transformação e crescimento do indivíduo. Como uma atividade de educação continuada que acompanha e persegue o homem moderno e globalizado durante toda sua existência, dos oito aos 80 anos – com variações deliciosas abaixo e acima dessa faixa, dado às novas expectativas de vida e à antecipação do período de alfabetização das crianças.

Sendo assim, além de contribuir decisivamente para a formação do ser humano – sedimentando valores e desenvolvendo sua inteligência e capacidade ininterrupta de aprender –, tem a leitura fundamental importância nos dias atuais. Porque é ela a via de acesso ao mundo moderno e ao exercício pleno dos direitos elementares da cidadania.

Ao perceber como se dá o funcionamento da sociedade, ao descobrir o que é capaz de gerar em termos de conhecimento próprio e de apreender a partir de elaborações feitas por outras pessoas, o ser humano-leitor também se dá conta de que tem suas próprias possibilidades. E que é preciso colocá-las e vivenciá-las com seus iguais na comunidade em que vive e no mundo ao seu redor. É o livro, é a leitura essa chave de acesso a esse admirável mundo novo.

No Brasil dos dias atuais, cada vez mais a leitura é essa espécie de senha para que os que têm acesso a ela consigam galgar outras posições na vida. Seja na forma de trabalhos e salários que possibilitem seu acesso às maravilhas da nova sociedade, seja para seu crescimento pessoal. De qualquer maneira, o conhecimento e a expansão da sua capacidade de gerar idéias e novos conhecimentos para fazer girar, sob sua perspectiva, a roda da vida em sociedade, têm e terão, cada vez, importância estratégica para se construir um outro país. Mais justo, mais soberano, mais desenvolvido.

Isto tem acontecido com incrível velocidade nos últimos anos. Nada comparável às necessidades de um país que ainda lê menos de dois livros por habitante a cada ano – menos da metade do que deveria e precisaria para dar o salto de qualidade que todos almejamos. Mas, sem dúvida, além do que se imaginava possível até bem pouco tempo atrás, quando ter um livro às mãos era coisa de poucos e raros letrados, tendo em conta o tamanho de sua população de milhões e milhões de almas que, no fundo, estiveram e estão em busca de alguma luz e da razão que os livros esbanjam.

Atualmente, já se vê bibliotecas públicas em quase todas as cidades brasileiras. Até o final deste ano, faltarão apenas 350 cidades sem esse equipamento público essencial. É um avanço, não se pode negar, ainda que as mais de 5 mil unidades existentes pelo país afora estejam em situação precária e aguardando um grande programa nacional para sua revitalização, tal qual acontece na área da educação com o acesso aos livros, sobretudo os didáticos.

Da mesma forma, a sociedade vibra com as boas histórias de personagens anônimos que estão, por toda parte, como ensinou o poeta Castro Alves, semelhando livros à mão cheia e mandando, como se dizia lá atrás, o povo pensar. São figuras que, sem qualquer egoísmo, compartilham os livros que já leram com seus iguais, para que todos, enfim, possam ter direito ao – agora, sim! – sagrado acesso à leitura e ao mundo mágico das palavras que fazem algum sentido para quem lê.

Os governos, de sua parte, têm se empenhado mais e mais, independente das cores partidárias e de suas convicções ideológicas. Ninguém, afinal, é contra o livro e sua capacidade extraordinariamente transformadora. Não há, nos dias de hoje, quem duvide de sua efetividade na melhoria da educação e contribuição verdadeira para alavancar as ciências. Ou de fazer a sociedade, de forma permanente, evoluir e construir os alicerces para transformar, daqui a algumas décadas, o planeta num lugar melhor para viver e para sonhar, onde as pessoas se tratem de fato como irmãos, se percebam e deixem fluir valores que realmente importem e façam a diferença entre ser ou não ser feliz.

Por tudo isso, mais do que nunca, há razões de sobra para comemorar o Dia Nacional do Livro, festejado neste 29 de outubro com um calendário que vai de feiras de livro de norte a sul a prêmios para os escritores e para quem faz projetos de leitura nas comunidades, nas escolas e nas bibliotecas.

O Brasil, assim, dá um exemplo de como é possível, mesmo num país gigantesco como o nosso, dar passos firmes para resolver este que é, certamente, um dos maiores desafios de agora. Temos, sim, que andar mais, é verdade. Mas os passos dados já indicam que estamos no caminho e na direção certa. Salve o livro, salve a leitura e seu poder insuperável de nos fazer seres humanos cada vez melhores e mais dignos.

Mais Artigos

Todas as notícias sobre "Artigos"

Receba por e-mail


Cadastre-se!

Livrômetro

Relógio da leitura no Brasil

570.240.000

Livros lidos em 264 dias de 2017 no país