Blog do Galeno Observatório do Livro e da Leitura

21 de janeiro de 2018

Pesquisas de opinião e a leitura no Brasil

Daniel González

Os moradores do Rio Grande do Sul lêem, em média, 5,5 livros por ano, exatamente o triplo da média brasileira de 1,8 livros lidos por habitante/ano. Metade das crianças e adoles-centes com idade entre 5 e 15 anos – faixa etária tipicamente escolar – afirma que lê livros pelo menos uma vez por dia. Outra boa notícia é que nada menos do que metade dos gaúchos diz que lê por prazer ou gosto, enquanto que uma minoria absoluta – nunca maior do que 12% dos entrevistados – relatou ter lido por exigência escolar, atualização profissional ou por motivos religiosos.

Os dados fazem parte da Pesquisa Comportamento Leitor no Rio Grande do Sul, reali-zada pela Câmara Rio-Grandense do Livro e Organização dos Estados Ibero-americanos (OEI) no último trimestre de 2006. A metodologia foi desenvolvida pelo Cerlalc (Centro Regional de Fomento ao Livro na América Latina e no Caribe)/Unesco e OEI por ocasião das comemora-ções do Ano Ibero-americano da Leitura, em 2005, e está sendo aplicada no Brasil, México, Colômbia e Venezuela. Em seguida, É o primeiro passo para a realização de estudos mais aprofundados sobre a realidade da leitura na América Latina com parâmetros definidos pelos próprios países participantes e que possibilitem análises comparativas entre eles.

Por isso, deve ser o ponto de partida para outras medições em âmbito nacional. Os úl-timos dados sobre leitura existentes no país são de 2001, quando foi realizada a pesquisa Retratos da Leitura no Brasil, da Câmara Brasileira do Livro (CBL) e Sindicato Nacional de Editores de Livros (SNEL). A idéia é que esses dados – inicialmente sobre o Rio Grande do Sul e no futuro, quem sabe, sobre todo o país – sejam disponibilizados para autoridades das áreas de Educação e Cultura, bibliotecas, escolas, organizações não-governamentais, pesquisadores, editores, livreiros e demais profissionais da área. Os diagnósticos e os indicadores podem dar uma importante contribuição para as políticas públicas do livro e leitura no Brasil.

O Instituto Ibope ouviu 1008 pessoas com mais de 5 anos de idade em 60 municípios do Estado. Entre as constatações, descobriu que a leitura ocupa o quarto lugar entre as ativi-dades que os gaúchos mais realizam em seu tempo livre, ficando atrás somente de assistir televisão e ouvir música ou rádio – está, porém, acima da prática de esportes ou da ida a competições esportivas.

Outro dado positivo é que metade dos entrevistados reconhece não somente que lê, mas também que é leitor habitual de jornais, revistas e livros. Esta preferência pela leitura co-meça na infância, aumenta em relação proporcional ao aumento do nível de instrução e alcan-ça seu ponto mais alto entre os 25 e os 39 anos, mas começa a diminuir depois dos 40 anos. Os jornais e as revistas são as publicações mais lidas (70 e 65% respectivamente), seguidos de perto pelos livros (62%). Ainda que a percentagem dos leitores de internet permaneça com-parativamente baixa (21%), representa um indicador importante para o advento de um novo tipo de leitor.

Os livros preferidos são os religiosos, os romances, contos, poesia e infantis. Os ho-mens lideram a leitura de livros técnicos, de história, política e ciências sociais, enquanto as mulheres são as que mais lêem romance, conto, poesia e os livros religiosos, de auto-ajuda e sobre culinária e artesanato. Dois terços das crianças entre 5 e 10 anos lêem livros infantis.

A religião é o tema que, isoladamente, tem a maior preferência (24%), seguido por ro-mance e conto, poesia e literatura infantil (todos com 20%). Uma descoberta interessante foi a constatação de que a poesia possui um alto percentual de leitores com idade entre 5 e 24 anos no Estado. Já 16% preferem a história em quadrinhos, percentagem idêntica de leitores de livros didáticos e universitários. No segmento em que se concentra o número mais significativo de leitores (entre os 25 e os 39 anos), os temas preferidos são: religião, romance e conto, história, política e ciências sociais, cozinha/artesanato/assuntos práticos.

Freqüência da Leitura
A pesquisa também apurou que, enquanto apenas um entre cada quatro moradores do estado lê algum tipo de livro todos os dias, esse índice sobe para metade da população com relação aos jornais (e um terço no caso das revistas). Na leitura de todo dia, as mulheres lêem mais livros e revistas que os homens, enquanto estes lêem jornal com mais freqüência. Do ponto de vista da freqüência de leitura, há três tipos de leitores:
• 27% de leitores assíduos, que lêem todos os dias
• 39% de leitores esporádicos, que lêem mensal ou semanalmente
• 27% de não leitores
O estudo confirma algumas tendências recorrentes nas pesquisas sobre o comportamento leitor realizadas em outros países da América Latina. O primeiro é que o número de leitores aumenta em função da idade, nível de renda e grau de instrução, dando salto significativo entre as pessoas com instrução superior. Mas começa a baixar a partir dos 40 anos (já na internet, isso se dá de forma drástica a partir dos 25 anos). Outra constatação é que as mulheres lêem mais que os homens, e o fazem com maior freqüência.

Motivação para ler
Confirmando uma tendência verificada em paises como Espanha, Colômbia e Peru, o prazer e o gosto pela leitura ainda é motivo principal tanto de quem lê quanto de quem compra livros. Embora muito mais acentuada entre mulheres, esta motivação é constante, independen-temente de idade, renda ou instrução. Apesar do pouco tempo que dedica à leitura, a metade dos entrevistados em idade escolar afirma que lê mais por gosto. Só um terço atribui à obriga-toriedade. Já a atualização profissional é o terceiro motivo para leitura (11%), com predomi-nância dessas respostas entre aqueles com instrução superior. Só depois aparece a religião.

É preocupante, no entanto, o fato de um terço se considerar simplesmente não-leitor. As duas razões principais para isso são a falta de tempo (32%) e o desinteresse ou falta de gosto pela leitura (19%), número surpreendente elevado inclusive entre aqueles com maior grau de instrução. Apesar das tradicionais queixas contra os preços dos livros, somente 6% dá como motivo para não ler a falta de dinheiro. Um número importante de pessoas (39%) declara que não lê porque prefere dedicar seu tempo a outras atividades.

Leitura na escola
A pesquisa no Rio Grande do Sul também descartou qualquer possibilidade dos elevados índices de leitura registrados no Estado terem sido alavancados pela leitura obrigatória nas escolas ou pela leitura dos didáticos. Uma análise comparativa da leitura da população com idade entre cinco e 25 anos, que representa 38% da amostra, mostrou que 68% dos estudantes costumam ler obras gerais diariamente ou na maior parte da semana, numero apenas 6% maior no caso dos didáticos.

Outra revelação foi com relação às representações sociais sobre leitura, o que normal-mente permite que se tenha uma compreensão mais profunda sobre o sentido atribuído pelas pessoas ao ato de ler e que ajudam a entender melhor as maneiras como elas se relacionam com a cultura escrita e as práticas leitoras, com forte incidência sobre o comportamento leitor. Um terço dos entrevistados valoriza a leitura como uma fonte de conhecimento para a vida, enquanto um entre cada quatro deles acredita que seja esta uma fonte de conhecimentos para a escola, a faculdade e a atualização profissional. Esta representação mais utilitária da leitura predomina principalmente na população masculina.

No entanto, há uma diferença importante entre as motivações e as representações: en-quanto 50% afirmam que o prazer é o motivo principal pelo qual lê, só 15% consideram a leitu-ra como fonte de prazer e entretenimento. Isto se dá especialmente entre as crianças e diminui de acordo com a idade.

Leitura na Infância
A leitura, a disponibilidade e o acesso aos livros e às historias durante a infância são dois fatores altamente associados ao hábito de leitura e com a formação da personalidade leitora. Um terço dos entrevistados lembra do pai lendo para eles quando eram crianças, enquanto que metade dos entrevistados tem essas recordações com a mãe. Os professores continuam a ter um papel importante na iniciação à leitura das crianças: 86% disseram que os professores liam para eles na sala de aula. Esta é outra descoberta muito reveladora e não deixa dúvida sobre o papel da escola e dos educadores no desenvolvimento da competência leitora. Significa, também, um desafio grande porque quer dizer que, quando os professores ensinam as crianças a ler, não só estão iniciando-os no código alfabético ou nas normas gramaticais, mas também despertando neles o amor pela leitura e pelos livros.

Um terço dos entrevistados afirmou ter comprado e os outros dois terços terem emprestado de bibliotecas, escolas ou outras pessoas. A metade dos livros comprados foi adquirida em livrarias e feiras de livro, uma quantidade que aumenta em função da renda e grau de instrução. O total de livros copiados é baixo (6%), exceto entre as pessoas com educação superior, segmento em que chega aos 20%. Um terço dos que responderam à pesquisa tem entre um e dez livros em casa; a metade, entre 11 e 100; poucos, mais de cem.

Espaços
Para dois terço, e mais para as mulheres do que para os homens, a casa é o lugar prefe-rido pelos gaúchos para a leitura de livros, jornais, revistas ou internet. Só 10% afirmam ler nas bibliotecas, com uma percentagem muito mais alta entre a população em idade escolar.

Dois terço da população não utilizam as bibliotecas. Esta cifra sofre um incremento de 20% a partir dos 25 anos, até alcançar um preocupante 91% nas pessoas com mais de 50 anos. A pesquisa e o estudo constituem o motivo principal de consulta para quase a metade dos usuá-rios das bibliotecas. As bibliotecas escolares e universitárias são as mais freqüentadas; segui-das pelas bibliotecas públicas, que recebem 16% das visitas, e tão somente 1% utiliza as bibliotecas comunitárias, sem que se encontre diferença entre regiões ou níveis de renda.

Leitura em silêncio
As principais dificuldades para a leitura, segundo apurou o estudo, são a distração e a falta de concentração na hora de ler. Também as limitações físicas, causadas pela baixa visão, representam problemas a partir dos 40 anos. Os homens e uma percentagem significativa de jovens entre os 16 e os 24 anos (25%) dizem não ter paciência. Outro problema é a dificuldade para compreender o que está lendo.

O silêncio continua a ser o contexto ideal para a leitura, de acordo com três entre cada quatro entrevistados, incluindo os jovens. Somente 8% dos adolescentes preferem ler enquan-to ouvem música; e 4% com a televisão ligada (especialmente crianças entre 5 e 10 anos). Os pais, principalmente os de faixas etárias onde mais se lê (25-39 anos), mantém o hábito de ler para os filhos. Um dado curioso é que um número surpreendente de crianças também tem o costume de ler para a família e os amigos.

O estudo permitiu, assim, traçar um amplo e aprofundado mapa dos leitores e suas práticas de leitura quanto a número, segmentação, preferências, motivação para ler ou deixar de ler e, ainda qualidade das bibliotecas familiares, quantidade e tipo de textos lidos e como as pessoas acessam a cultura escrita. Mas também para perceber que, ao contrário do que muitos pensam, a leitura ocupa lugar de destaque quando comparada com outras práticas culturais, freqüência ou intensidade.

Além de indicadores tradicionalmente levantados nesse tipo de investigação, o estudo incluiu questões que pudessem ir alem além da mera descrição estatística. Indagou sobre as práticas leitoras e as múltiplas formas de relação entre leitores e os livros, contextos e lugares prediletos, além das dificuldades e formas de compartilhamento da experiência. Essa radiografia permite afirmar, por exemplo, que se trata de uma sociedade que reconhece e aprecia o valor da leitura e que esse hábito já se enraizou na cultura local. Ela poderá ser utilizada, agora, como insumo indispensável para que governantes e gestores escolham suas prioridades e estabeleçam as metas para seus planos e políticas para o livro e a leitura.

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