Blog do Galeno Observatório do Livro e da Leitura

25 de novembro de 2017

A história se repete

Affonso Romano de SantAnna

Correio Braziliense - 25/12/2007

Comecei a prestar mais atenção no nome de Rubens Borba de Moraes quando fui dirigir a Biblioteca Nacional, no final de 1990. Afinal, ele havia sido um dos diretores daquela casa, era um sofisticado bibliófilo (autor do clássico O bibliófilo aprendiz) e vinha de uma geração modernista que deu uma sacudidela na cultura brasileira. Só não participou da Semana de Arte Moderna de 1922 porque foi acometido de febre tifóide, mas era amigo de Mário de Andrade e daquele bando de insensatos rapazes que fizeram história.

Mas agora o conhecimento de sua figura e a compreensão de certo momento da cultura brasileira tornaram-se mais nítidos, graças a Suelena Pinto Bandeira, que vem de publicar O mestre dos livros: Rubens Borba de Moraes. A edição, aliás, tem selo de Briquet de Lemos/Livros, de Brasília, e esse notável Antônio Angenor Briquet é outra preciosidade de nossa cultura, que ao lado de José Mindlin, Plínio Doyle, Janice Montemór e Edson Nery constituem aquilo que antigamente se chamava de “plêiade”, constelação de figuras tutelares de livros e bibliotecas.

Para quem, como eu, já esteve na administração pública, a leitura dessa obra ilustra a heróica e desgastante luta do idealismo contra a mediocridade, o embate dos que têm um projeto a realizar contra a inércia da burocracia e as rasteiras e insídias da política. Formado na Europa, Rubens Borba começa, na década de 1930, a desenvolver, primeiramente, ao lado de Mário de Andrade, um revolucionário projeto para a paulicéia que incluía a construção do prédio novo para os livros, um sistema municipal de bibliotecas, bibliotecas móveis em parques e subúrbios, cursos de biblioteconomia etc. E lá ia tudo às mil maravilhas, quando, voltando com mais planos dos Estados Unidos, em 1939, é surpreendido com a nomeação de Ademar de Barros para o governo de São Paulo, o qual nomeia Prestes Maia para prefeito – e aí começa o desastroso desmonte de um dos mais sólidos projetos culturais que o país já teve. Borba de Moraes ainda resiste, escreve cartas duras aos superiores denunciando a situação. Mas não tem mais jeito. Ele acabaria sendo removido.

A história se repetiria, agora no plano federal, quando Rubens Borba de Moraes foi nomeado para uma das chefias da Biblioteca Nacional, em 1944. O relatório que envia a Carlos Drummond, assessor do ministro Gustavo Capanema, narrando o descalabro em que estava a instituição, é aterrador. Além de descrever o estado do prédio, das coleções e os roubos, dizia: “Ninguém manda, ninguém obedece. Ninguém se considera responsável por coisa alguma”. Ele começou a trabalhar e chegou a declarar que se sentia ali não como um diretor, mas como uma dona de casa fazendo faxina.

Com a queda de Getúlio e a aposentadoria do diretor Rodolfo Garcia, Borba de Moraes começa a trabalhar mais livre e arduamente, sem se dar conta de que estava mexendo com vaidades e invejas. Surgiu uma polêmica com o antigo diretor da BN, Rodolfo Garcia, e Borba de Moraes foi derrubado em 1947, colocando-se em seu lugar Josué Montelo, que surgia de uma numa articulação política feita com o senador Vitorino Freire.

Personalidades do país protestaram, gente do exterior se manifestou em favor de Borba de Moraes. Tudo em vão. Ele acabou indo trabalhar na ONU e mais tarde na Universidade de Brasília etc.

Por essas coincidências da vida, leio o livro de Suelena sobre Borba de Moraes, na mesma semana em que sai Vivências de leitura, organizado por Jason Prado e Júlio Diniz (Leia Brasil/Sesc). É uma obra na qual pessoas que tiveram decisiva influência na questão dos livros, leituras e bibliotecas, nas últimas décadas, narram suas experiências. Pois ali está uma sintética narração do que foi o meu período na Biblioteca Nacional, entre 1990-1996.

Meu Deus! Como a história se repete!...

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