Blog do Galeno Observatório do Livro e da Leitura

22 de setembro de 2017

Lula: Leitura ajuda a formar da consciência crítica de uma nação

Portal PNLL - 21/9/2006

Na cerimônia em que recebeu o Manifesto do Povo do Livro, durante a campanha à Presidência, em 21/9/2006, na capital federal, o presidente ressaltou a importância do tema: "Sabemos que o desenvolvimento só existe quando há soberania e que a soberania demanda uma cultura ativa".

Leia a entrevista na íntegra:


Eu poderia deixar você falar, Paim, mas o microfone é alto e você não vai alcançar aqui.

Meus queridos companheiros Tarso Genro, Luiz Dulci e Henrique Paim,

Meu caro Daniel Raúl Gonzalez, diretor do escritório regional da Organização dos Estados Ibero-Americanos para a Educação, Ciência e Cultura,

Meu caro Oswaldo Siciliano, presidente da Câmara Brasileira do Livro,

Meu caro Daniel Munduruku, 

Meus amigos e amigas escritores, editores e representantes do setor livreiro,

É com grande satisfação que recebo, outra vez, uma delegação expressiva de representantes do mundo do livro. Temos sido parceiros no esforço de dar ao livro e à cultura, de um modo geral, a justa participação no processo de emancipação social e humana do nosso País.

Sabemos que o desenvolvimento só existe quando há soberania e que a soberania demanda uma cultura ativa, capaz de libertar as energias e a criatividade que torna o povo protagonista da própria história. Isso se faz com incentivo à reflexão e à capacidade de discernimento que a leitura e a arte agregam à formação da consciência crítica de uma nação.

O livro e a leitura devem se transformar, de fato, em pólos disseminadores de humanismo para o desenvolvimento e o aperfeiçoamento da sociedade.

Hoje, mais do que nunca, talvez seja este o desafio primordial da civilização, pois os direitos trabalhistas e os direitos políticos civilizaram o século XX. Caberá à democracia e à cultura preencher o vazio do humanismo da globalização.

Foi a compreensão da importância do livro neste processo que nos levou a sancionar a Lei do Livro, de autoria do ex-presidente, hoje senador José Sarney, em outubro de 2003. 

O mesmo compromisso nos levou a determinar medidas de desoneração fiscal para o setor, a partir de dezembro de 2004. Trata-se da uma reivindicação justa, antiga e, sobretudo, indispensável para que a população tenha mais acesso às publicações.

Quero lembrar também que, em nosso governo, assistimos a uma união de esforços crescente entre o Ministério da Educação e da Cultura. Juntos eles alcançaram um elenco de ações e projetos destinados a fomentar o livro, a biblioteca e a leitura no nosso País.

Desse mutirão nasceu a Câmara Interministerial de Educação e Cultura. Nasceu também a Câmara Setorial do Livro e da Leitura, que vai acelerar ações estratégicas em toda a cadeia da indústria editorial. Inclui-se aí, desde o apoio à produção e distribuição de livros, até a abertura de novas bibliotecas. 

O Brasil conseguirá levar esse indispensável equipamento a todos os seus municípios. E o que fizemos nos últimos três anos mostra que a tarefa pode ser concretizada. Em janeiro de 2003, de 1.300 municípios brasileiros que não dispunham de bibliotecas, conseguimos, com muito empenho, reduzir esse déficit à metade, Paim. Poderia ter reduzido mais. 

Meus amigos e minhas amigas,

Todos sabemos que a democratização do acesso ao livro e à leitura requer consistentes programas estatais. Para vencermos esse grande desafio, porém, é necessário mais, precisamos da parceria entre o setor público e a iniciativa privada, de um verdadeiro pacto pelo futuro do livro.

É no Plano Nacional do Livro e da Leitura, publicado em março deste ano, após uma produtiva interlocução entre o governo e os mais diversos setores da sociedade, que este compromisso está expresso. O ponto de partida do Plano é acelerar a democratização do acesso ao livro, fomentando a leitura e fortalecendo o parque livreiro do Brasil. Até 2008, a nossa previsão é de elevar em 50% o índice nacional de leitura, hoje inferior, como disse o nosso Munduruku, inferior a dois livros per capita ao ano. Até 2010, o objetivo é dobrar o número de leitores em todo o nosso País. Temos pavimentado esse caminho com iniciativas em diversas frentes.

Aperfeiçoamos vários programas do Ministério da Educação, de modo a qualificar gestores e dar maior transparência ao critério de aquisição de livros pelo Estado. Responsável por 38% da demanda nacional, o governo brasileiro é o maior comprador de livros do mundo. Vai entrar no guiness book logo, logo.

Já para estimular a leitura de crianças e adolescentes, mais de 1.500 ações foram deflagradas nos últimos anos, em um esforço conjunto do Estado, dos movimentos sociais e da sociedade em geral. Quero lembrar, ainda, que tornamos obrigatório o ensino de Filosofia e Sociologia no ensino médio em todo o País. Trata-se de uma medida republicana para incentivar a formação plena de cidadãos e cidadãs, para que tenham autonomia para pensar, fome de ler e discernimento para julgar o que se imprime numa folha de papel.

Melhorar a escola pública e a qualidade da educação é, afinal, uma das alavancas para vencer a batalha a favor do livro, da leitura e da educação, que assegura, de fato, um ponto de partida igual para todos. É por este motivo que estamos dedicando o nosso maior empenho para a breve aprovação do Fundeb pelo Congresso Nacional.

Hoje o Brasil destina 4,2% do PIB ao ensino. Com o Fundeb poderíamos saltar rapidamente para 4,5% do PIB, agregando mais 4 bilhões e meio de reais ao orçamento da Educação. A entrada em vigor do Fundeb, após sua aprovação, representará um enorme salto de qualidade em nosso ensino e uma oportunidade ímpar para a popularização do livro e da leitura.

Meus companheiros e minhas companheiras,

Eu acredito que talvez não tenhamos feito tudo que nós gostaríamos de fazer. Há, certamente, quem sabe a desoneração não foi ainda aquilo que poderia baratear ainda mais os livros. A obrigação de vocês é produzir cada vez mais e melhores livros, torná-los mais baratos e, para que isso aconteça, o governo precisa dar a sua contribuição. A contribuição do governo é tentar criar as condições para que vocês possam, efetivamente, pagar apenas aquilo que é extremamente necessário, mas que a maioria dos impostos, se nós quisermos incentivar uma política de leitura verdadeira no Brasil, nós sabemos que uma das condições é baratear o livro no Brasil.

Esses dias tive a oportunidade de fazer uma viagem e, no avião, eu tinha ganho uma coleção de filmes de uma revista, e tinha um filme de uma indiazinha que eu não lembro o nome, não sei se era Iná... Tainá. E eu fiquei pensando: quem tem criança em casa, e vê a gente ligar a televisão de manhã, de tarde ou de noite para uma criança, o que tem de coisas de aço brigando com coisas de aço, monstros de pedra brigando com monstros de pedra, e quanto pior, mais a molecada gosta.

Eu fico imaginando se não é da nossa responsabilidade, de vocês e do governo, envolvendo o Ministério da Educação e da Cultura, a gente fazer com que esse material chegue às nossas crianças. Porque a leitura, no fundo, no fundo, como qualquer outra coisa que a gente faz na vida, as pessoas têm que aprender a gostar desde pequeno. Eu vejo, por exemplo, na época do Natal, na época de Ano Novo, época do Dia dos Pais, Dia das Crianças, Dia das Mães, Dia dos Avós, Carnaval, eu vejo propaganda de tudo, mas a gente não vê uma propaganda massiva para se dar um livro de presente. A gente presenteia todos com qualquer coisa, só na área mais ou menos intelectual é que, de vez em quando, ocorre um livro de presente. Por exemplo, o Márcio de Souza nunca me mandou nenhum. Quando eu, há muito tempo atrás, quis ler “Galvez, o Imperador do Acre”, eu tive que comprar. E ele era militante do partido e não me deu na época. Vocês vejam como ele era pão-duro. 

Então, eu acho que nós precisamos discutir essa Câmara Setorial do Livro, porque o que nós fizemos nós já sabemos, temos séculos pela frente do que nós já aprendemos e fizemos, é tentar pensar qual a novidade que nós poderemos fazer para o século XXI. Nós estamos começando um século, nós podemos mudar tudo que nós quisermos, nós podemos reinventar um monte de coisas. Não vamos reinventar a roda, mas vamos aprimorá-la pelo menos. Eu acho que é preciso, definitivamente, a gente disseminar a leitura no meio das nossas crianças e dos nossos adolescentes. É preciso. E nós sabemos que uma das dificuldades é o preço, e sabemos que a outra dificuldade é, às vezes, a falta de hábito da leitura, que é preciso criar as condições de, juntos, encontrarmos um mecanismo de como fazer com que essas coisas cheguem à mão de quem nós queremos atender.

O governo, na verdade, é um grande comprador de livros. E cada vez vai ter que comprar mais, e cada vez vai ter que distribuir mais, porque é da nossa responsabilidade não permitir que uma criança, por não ter poder aquisitivo, não possa ler os livros necessários ao seu aprendizado.

Neste mandato eu tive duas lições importantes com as crianças deste País. Uma delas foi a questão das Olimpíadas da Matemática, ou seja, nós tínhamos as Olimpíadas da Matemática nas escolas privadas, em algumas por volta de 270 mil crianças participavam. Era até surpreendente, porque em escolas do Ceará, do Piauí, as crianças tinham notas melhores do que crianças do Sul e do Sudeste, crianças que ganharam prêmio internacional. Eu me lembro que aqui, nesta sala, nós recebemos cinco crianças que tinham ganho prêmio nos concursos internacionais. E aí nós resolvemos fazer a Olimpíada da Matemática na escola pública. Como no Brasil sempre tem um grupo de pessoas que acha que as coisas não vão dar certo e que não podem dar certo ou que não acreditam nas coisas, ou seja, eu o Tarso – o Tarso era o ministro na época, o Fernando Haddad era o secretário-executivo do Tarso – nós ouvimos muita gente dizer para nós: “em escola pública? As crianças não vão se interessar, isso não vai dar certo.” Sabe, aquele negócio que dá vontade de você desistir. Mas nós teimamos e fizemos o Instituto Brasileiro de Matemática. O que aconteceu? Aconteceu uma coisa surpreendente: 11 milhões de crianças se inscreveram. E dos 11 milhões de crianças que se inscreveram, 10 milhões e meio participaram das Olimpíadas. Desses 10 milhões e meio de crianças, nós detectamos a possibilidade de 30 mil gênios. Bem, aí resolvemos fazer outra vez e, este ano, por conta do processo eleitoral, ano eleitoral, a Justiça Eleitoral não permitiu que nós fizéssemos nenhuma divulgação, nem os cartazes para colocar na escola, para motivar as crianças, nós não pudemos fazer.

O que aconteceu, de fato? Catorze milhões de crianças se inscreveram, em mais de 90% das escolas brasileiras e dos municípios brasileiros, ou seja, 3 milhões a mais do que no ano passado, sem propaganda. E essa idéia, nós agora fizemos a primeira fase, esses dias eu estava até fazendo um ato público aqui numa cidade e um menininho subiu no palanque e falou: “Lula” – porque uma coisa que eu gosto é que as pessoas me chamem de Lula, não há uma distância para me tratar de presidente – “eu passei na primeira fase das Olimpíadas da Matemática”. O que isso nos faz enxergar? É que as pessoas são tocadas a motivações. Nós temos que encontrar uma forma de motivar as pessoas a acreditarem que podem fazer um pouco mais do que habitualmente fazem, porque também nós poderemos correr o risco de nos habituarmos à mesmice de levantar todo dia, fazer as mesmas coisas e, no fim da noite, chegar com os mesmos resultados, sem tentar reinventar um pouco. Eu acho que nós poderíamos, nesse momento em que vocês entregam um plano sobre a questão da leitura no Brasil, sobre a questão do livro, sobre a questão das nossas editoras, eu acho que estava na hora de a gente trabalhar um pouco mais e forçar um pouco mais a nossa criatividade para ver, concretamente, o que nós poderemos fazer. 

Eu acho que poderia ter uma olimpíada, alguma coisa. eu estava pensando em fazer uma Olimpíada do Português, que é uma coisa que me fascina. É importante as pessoas fazerem, eu acho que é possível criar, porque essas coisas, parece que custa muito mas termina não custando, é apenas a decisão de fazer, e vai custar alguns milhões que terminam não sendo caro devido o resultado.

Eu vou terminar dizendo uma coisa para vocês. O que me fascina... eu sempre tive vontade de ser economista, nunca pude estudar economia, mas eu não sei se era a Brasiliense, que publicava uns livrinhos pequenos de bolso, “Primeiros Passos”, e eu me lembro que ali tinha uma coleção enorme de economistas que escreviam. Eu me lembro de um que hoje está comigo aqui, que é o Paul Singer, e como era fácil. Na época eu era dirigente sindical, como era fácil a gente aprender economia, porque a gente vê muitas vezes eles falarem na televisão e a gente não entende. Mas a gente ia lendo os livros e ia entendendo, depois quando a gente os ouvia falar na televisão, a gente ia compreendendo.

Eu não sei se vocês perceberam que, de uns 20 anos para cá, você tem uma liderança de políticos que, bem ou mal, discutem economia, sendo que a nossa chamada classe política anterior não gostava do debate econômico. Você ouvia eles dizerem que economia não é da nossa responsabilidade, isso não é coisa nossa, isso é coisa de economista.

Hoje, eu duvido que alguém, seja em alguma coisa de debate ou seja candidato a alguma coisa, se a pessoa não tiver um mínimo de noção de economia. E a minha foi naquele livrinho, que não incomodava, você colocava dentro do bolso e levava. Eu ia para o Senai, eu ia para o sindicato, então, eu acho que a gente precisa voltar a imaginar coisas que sejam mais criativas.

Uma é o preço, uma é a desoneração, outra é a produção, mas tem uma coisa que nós precisamos inventar juntos, que é a motivação. O governo tem a sua responsabilidade, vocês têm a de vocês. Como é que nós juntamos essas duas vontades criando um único corpo para fazermos uma única política, onde todos ganhem, mas o grande ganhador sejam os livros, a leitura e o povo brasileiro.

Muito obrigado e parabéns a vocês.

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