Blog do Galeno Observatório do Livro e da Leitura

26 de setembro de 2017

Vendedores de livros: procuram-se

Silas Correa Leite

Antigamente, o tipo todo pimpão, terno e gravata, claro, chegava com garbo, proseador e oferecia o precioso livro capa de brochura, a coleção completinha, a enciclopédia de A a Z, tudo de Jorge Amado ou Érico Veríssimo; a família esperava o simpático vendedor regularmente para pagar-se a devida parcela do crediário da enorme quantidade de livros adquirida (a preços módicos), o vendedor era gentil e da casa como o entregador de lenhas, o vendedor de dolé de groselha preta, o vendedor de sapatos, o vendedor de bilhetes da loteria federal, o diácono visitador da diocese. Já pensou? Antigamente, quando os pais eram importantes referenciais, as famílias unidas tinham estrutura, a sociedade tinha um núcleo ético-comunitário, ler era saber, escrever era um prazer, ter às mãos um livro de porte era sinal de sabedoria, conhecimento, ser gentil, educado e correto era da natureza humana e peculiar à urbanidade do tempo. Antigamente, éramos felizes e sabíamos que éramos. Como diz o Chico Buarque, “O que era doce acabou-se” (quem comeu arregalou-se, dizia o Palhaço Cordeirinho do Circo Itararé). De lá pra cá os núcleos familiares dispararam horizontes, a cultura desandou a polenta, a arte aqui e ali virou agressão sincopada, o livro virou aqui e ali virtual tipo e-book mas, falando sério, um livro na mão, a tez da capa, a apresentação da orelha, o prefácio acalentador, a leitura era um prazer, e, que saudade do Vendedor de Livros! Será o impossível?

-Vendedor de Livros...ah, o moço era bom de bico, o próprio cidadão visitador bem comportado. -Bom Dia, Dona Maria, cadê seu Nicanor...e a Érica sarou do crupe? E o cachorro Sabonete ainda está maleixo?

Pois é, uma limonada de limão-rosa vai bem, como é, adorou aquele clássico russo? Pois, sabe de uma coisa, acho que tenho uma outra edição em capa dura do mesmo autor. Guerra e Paz?. E também tenho uma edição de bolso do livro "Carta a um Jovem Poeta" do Jean Marie Rilke... Como assim? Um bolinho de chuva? Ah que supimpa! Que música é essa? É a nova baladinha do Roberto Carlos, o Rei? Pois não, se o sr não quiser pagar agora, pode deixar a prestação acumulada para o mês seguinte. Ah, pode deixar que eu acho um livro de poemas do Vinicius de Morais pra sua filha caçula que está de namorico novo.

Trago quando voltar. Era esse o papo. Família reunida, cada um lendo sua cota, escola cobrando leitura de Machado de Assis pra cima e o Vendedor de Livros como se fosse da família. E tínhamos ainda coleções sobre ciência, sobre a viagem do homem à lua, sobre a Bossa Nova, sobre saúde, sobre Brasília e JK, sobre agricultura, primeiros socorros. E ia por aí o bolero-blues do Vendedor de Livros difundindo cultura Brasil a fora, brasis gerais a dentro. O acesso da população ao livro era assim, o porta-a-porta do comercializador, tudo um sucesso, lia-se muito, o livro ia de encontro ao cidadão onde quer que ele estivesse, as editoras corriam pelo Brasil e as famílias recebiam bem aquele vendedor porque era de confiança, e, havia sim, na família, uma noção popularizada de que ler era saber; ler era ver, ler era ser, quem lia muito saberia muito e, certamente iria ser muito na vida, ser um vencedor. A escola era uma escada para o alto, o livro dava sustentação para a habilidade da aprendência e da evolução nos estudos, no trabalho, na carreira e na sociedade. Anos 50, Anos 60, começo dos anos 70.

-De lá pra cá, a coisa mudou, tivemos perdas e evoluções em todos os sentidos, em tantas áreas. Mudaram os costumes, aqui e ali até para pior mesmo. No entanto, falando sério, um livro à mão ainda é um deleite único. As editoras poderiam fazer um trabalho midiático, uma bela campanha no rádio e na tevê – “Receba bem o seu Vendedor de Livros, quem sabe alguém da sua família não vai fazer sucesso e ficar rico com tanta leitura?” - treinar vendedores, de podermos assim voltarmos aos bons tempos do Vendedor de Livros, personagem de tantas doces memórias revisitadas. Com essa nova ordem econômica brasileira, em que o peso moeda está alto, em que o poder aquisitivo da maioria da população evoluiu muito, que tal trazer os de volta a figura impoluta do Vendedor de Livros, pequeno laptop à mão, fazendo pedidos online, apresentando coleções ilustradas no computador de naveganças a mão; vender livros que sejam de auto-ajuda, coleções modernas, obras que foram Prêmio Nobel, autores novos da literatura brasileira contemporânea, livros sobre medicina e saúde, de alguma maneira resgatando essa difusão de livro e com isso facultando as compras, facilitando assim um verdadeiro e popularesco que seja incentivo abrangente à leitura, à cultura, refletindo depois na Educação?
Sonhar é preciso.

-Os Vendedores de Livro hoje, claro, com tanta tecnologia, teriam um enorme cabedal de obras de quilate para repassar à população, teriam o material de como muito propagandear as obras. Dia desses, aliás, por acaso, numa biblioteca, um rapaz “vendedor de sapatos”, e eu comentei dos Vendedores de Livros. Ele disse que, sim, também tinha vendido livros, era representante do Circulo do Livros, ou Clube do Livro, coisa assim, e que adorava lidar com a clientela defino trato, gente interessada em ter um trabalho de autor de renome; tinham um catálogo para o possível curioso futuro cliente, era regularmente visitador para receber e entregar, chegara a trabalhar com cartões.

-Imagine sim, um Vendedor de Livros de lar em lar, hoje em dia, tempos modernos, com a listagem dos livros mais vendidos no mundo nessa época, com o nome dos dez melhores livros do Brasil e os cem melhores livraços do mundo, além de livros curiosos, sobre sustentabilidade ambiental, ficção-científica, frutas e saúde, alguns de altas ajudas, romances que marcaram época, e, sim, entre livros também, o novo vendedor poderia vender – ou intermediar nesse sentido - cedês, dvds, assinaturas de jornais e revistas, ou de pontos de tevês a cabo ou tevês pagas; de acessórios de computadores, produtos de escritório, o que seria uma loucura, brasis gerais a fora, o tipo falastrão, treinado com esmero e conhecimento de causa, fazendo listagem por área ou estilo, consultando o spc ou o serasa via laptop, todo conectado, fazendo pedidos, consultando raridades, dando dicas, sondando oportunidades, plantando idéias. Sim, sonhar pode.

Depois da pós-globalização (que faliu a ética plural-comunitária), um humanismo de resultados?

-Com o investimento social do governo federal atual projetando retornos a partir dos necessários e históricos pagamentos de dividas sociais, o poder aquisitivo do povão melhorando como nunca; como nunca crescemos tanto e nunca tivemos tanta sustentação sócio-comunitária de peso, trazer de volta o bendito Vendedor de Livros seria quase uma benção. Uma benção cultural. Lítero-cultural ainda. As editoras se juntam, criam grupos organizacionais, núcleos editoriais de alto gabarito, pois poderiam ter cursos específicos, treinarem bem, além do telemarketing, claro, e, sim, lá por Itararé a fora, periferia cor-de-rosa, eis que, além do entregador de água, de remédio e de gás; além do entregador de pizza ou mesmo do marcador de luz com planilha, bate palmas no porão de tabuinha de pinho pintada de verde-preguiça, o Vendedor de Livros, especialista em lidar com gente brasileirinha e brasileiríssima, com famílias amorosas e bem relacionadas, tão respeitoso, todo trancham (ainda se diz trancham?) e nos sentiríamos voltando aos bons tempos, cobrando se ele teria uma obra (que lemos faz muito tempo) sobre Shangri-lá, o último sucesso literal do Saramago, Solo de Clarineta, Gabriela, Cravo e Canela, quem sabe mesmo uma releitura do próprio Paulo Coelho, ou, o livro sobre a mulher que escreveu a Bíblia, do Moacir Scliar. E iria por aí a fora o papo sadio, o proseio letral, entre uma limonada de limão-cravo, um bolinho de chuva, um pão de ló, uma broinha de fubá mimosa, um xarope de groselha preta como gasosa de improviso, quem sabe se nessa hora a rádio fm da cidade tocasse no radinho roufenho do vizinho um sucesso do passado, My Way, com Frank Sinatra?  Aí, meus camaradas, já seria um milagre.

-O Brasil do amanhã, para o Brasil que merece o Brasil, não é com zê mas com S de sucesso, de investimento social, e onde se investe no social, se investe no senso crítico do social, aí implicando então leituras, pesquisas, sustentabilidades sociais, estudos generalizados, pois o Brasil que se quer está despertado e viça como nunca. Que país é esse? O país dos Vendedores de Livros, livros a mão cheia. Já não disse isso o visionário Rui Barbosa? E quem for ledor voraz que siga o enlivramento do país inteirinho. Leitores, graças a Deus. 
Jornais, livros, revistas, enciclopédias, dicionários, momentos e interpretações políticas, verdadeiros ensaios contra a cegueira. Olhai os Livros no campo. O futuro está lá, está nos livros. Ler para ser. Livros são óculos contra a sensibilidade teflon que não quer aderência, mas que periga ler para ganhar grude e enxergar no claro. Precisamos mudar esse estado de coisas. Brasil? Leitura nele! Vendedores de livros que entregam páginas abertas, almas, espíritos, idéias, emoções, enredos, romances, finais felizes, espelhos, retratos, gerações, sextantes, companhias das letras; mudando recordes para muito melhor, gerando discussão, mudanças contra a impunidade, livros-filhos, livros orquidários, fios terra que são relês de aberturas, luzes sobre a pátria amada, livros que também são filhos deste solo a ser lavrado.

Silas Correa Leite, Itararé-SP (Santa Itararé das Letras). Teórico da Educação, Jornalista Comunitário, Conselheiro em Direitos Humanos (SP), Escritor, poeta, ensaísta e ficcionista, membro da UBE-União Brasileira de Escritores. Autor de Porta-Lapsos, Poemas, Editora All-Print, e Campo de Trigo Com Corvos, Contos, Editora Design, a venda no site www.livrariacultura.com.br Pós-graduado em Literatura na Comunicação (USP) e Relações Raciais. Prêmio Lígia Fagundes Telles Para Professor Escritor. Prêmio Valdeck Almeida de Jesus, Salvador Bahia, 2009, Ex-Coordenador de Pesquisas pela FAPESP/USP em Culturas Juvenis. E-mail: poesilas@terra.com.br – Site: www.itarare.com.br/silas.htm - Blogues: www.campodetrigocomcorvos.zip.net e www.portas-lapsos.zip.net blogue premiado do UOL (Texto da Série “O Brasil Que Merece o Brasil”, livro inédito do autor)

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