Blog do Galeno Observatório do Livro e da Leitura

25 de setembro de 2017

Movendo a roda quadrada

Affonso Romano de SantAnna

Correio Braziliense - 20/9/2009

Quando estava na engrenagem do governo, presidindo a Biblioteca Nacional (1990-1996), disse a um jornalista: ” na administração pública a roda é quadrada, mas mesmo assim temos que fazer a carruagem andar”.

Lembrei-me disto ao ler a notícia de que só agora, uns 20 anos depois, o governo está conseguindo (com muita dificuldade) estabelecer uma alíquota de 1% no preço final do livro para constituir um fundo que impulsione programas de leitura no país.

Pois eu vou lhes contar algo perturbador. Isto que se está conseguindo, apesar da resistência do setor, foi uma idéia que surgiu há uns 20 anos: editores, papeleiros e livreiros constituiriam esse fundo para transformar o Brasil num país leitor. Como presidente da FBN consegui que esses setores assinassem numa cerimônia pública com o Presidente da República um documento a respeito.

Pois, sabem o que aconteceu? Nada. A idéia foi sabotada de todos os modos. Numa reunião com representantes da Câmara Brasileira do Livro, cheguei a lhes dizer que não entendia o que estava acontecendo, pois o que trazia para eles era um presente, pois transformar o Brasil num país de leitores ia também tornar os editores, livreiros e papeleiros mais ricos, já que a indústria editorial daria um pulo gigantesco. E mais, era tudo de graça, porque oferecíamos a mão de obra e a estrutura do governo e eles não iriam ter qualquer ônus, pois evidentemente repassariam o 1% ao consumidor.

Enquanto aqui não se conseguia isto, a Colômbia, pegou o nosso projeto e criou o “Fundalectura”. Exatamente. Saiu na frente.

Com esse fundo abasteceram suas 600 bibliotecas públicas e fizeram exemplares programas de leitura no país. A recuperação da Colômbia em relação ao narcotráfico e à guerrilha passa pela leitura. Hoje o Brasil está indo lá copiar os que nos copiaram.

Nos anos 80 e 90 fui muito à Colômbia para contrabandear duas drogas- ” poesia” e ” leitura”. Até ganhei do governo de lá o título de Cidadão de Medellin. Pois esta semana, foi Marina Colasanti quem voltou de lá e conta que Bogotá e Medellin estão irreconhecíveis.

Segurança absoluta e programas de leitura em todas as partes. Para nossa humilhação (e estímulo) entrem no Google e vejam o que é a “Biblioteca Parque Espanha em Santo Domingo”. Uma obra prima arquitetônica, fabulosa, equipadíssima no topo de uma favela.Pois nesses dias, surgiram na imprensa alguns textos com vários equívocos sobre a questão do que ironicamente chamam de ” imposto do Juca”(alusão ao atual Ministro da Cultura). Uns dizem: o governo é que tem que cuidar e financiar a cultura. É uma afirmativa obtusa.

Governo e sociedade devem trabalhar juntos. Esse governo ( ao qual não pertenço) já desonerou, em 2004, 9% a 11% do faturamento das editoras, livrarias e distribuidoras. É muito dinheiro em cinco anos!

Agora, entre os mal entendidos alegam que os “mediadores de leitura” que vão potencializar os programas seriam frutos do ” dirigismo”. Perdoai-lhe Senhor, porque não sabem o que dizem! Isto é um insulto às milhares de pessoas que atuam na área da leitura. Há 20 anos que estou entre os que falam da urgência de se criar os ” agentes de cultura” acoplados aos ” agentes de saúde”, pois a leitura, no meu entender é uma questão de ” segurança nacional”.

No Acre, repercutindo os projetos da antiga FBN, Gregório Filho criou mais de 120 Casas da Leitura. E no Ceará, Fabiano dos Santos treinou centenas de “agentes” ou “mediadores de leitura” com suas bicicletas transportando uma biblioteca básica, percorrendo centenas de municípios; e cada ” agente” visita umas 20 famílias periodicamente dando-lhes vários tipos de assistência. O projeto teve um reflexo tão grande na economia, na saúde e na educação, que esse Fabiano foi levado para o Minc para fazer isto nacionalmente. E é isto que está em curso com o edital para três mil “mediadores” em todo o país.

Pois a hora é essa. Redescobrir a roda. Fazer a roda quadrada andar, com 20 anos… ou talvez 500 anos de atraso.

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