Blog do Galeno Observatório do Livro e da Leitura

22 de setembro de 2017

No profundo mar azul

Galeno Amorim

Desde pequena, Ângela sonhava ser professora. Gostava de aprender coisas novas para, um dia, poder ensinar outras pessoas. Não queria para si uma vida igual à das moças da ilha, que mal saíam da puberdade logo se tornavam esposas e mães, reproduzindo ciclo idêntico ao de suas mães e avós. Algumas envelheciam cedo demais, sem sequer terem pisado no continente. Esta, enfim, parecia ser também a sua sina. Desejava, sim, constituir família. Mas só quando fosse a hora. Não gostava era da idéia de ter que fazer algo por não ter outro jeito. Ângela sabia que ali as chances eram poucas, mas mesmo assim estava decidida a ir atrás dos seus sonhos. A praia da Longa – um dos vilarejos que formam a Ilha Grande, no litoral do Rio de Janeiro – não tinha sequer luz elétrica, que viria a conhecer só anos depois. Os obstáculos para ascender ao mundo do conhecimento eram de toda ordem. Biblioteca, livraria ou banca de jornal, nem pensar. Pra piorar, consumiam boa parte do seu dia nas viagens de barco até Araçatiba, a única com escola para adolescentes. Do cais de Santa Luzia, na Baía de Angra dos Reis, até Proveta, a última delas, já no mar aberto, o barco Três Irmãos Unidos II levava seis horas entre ida e volta. Um dia, incomodados com tamanho desperdício de tempo, alguns professores tiveram a idéia: pegaram uns livros na escola e improvisaram uma pequena biblioteca no convés. A idéia pegou. Logo a estante de madeira – que era pra agüentar a maresia – ficou pequena. Por anos a fio, foi lá que Ângela mergulhou em romances, aventuras e poesias – aliás, suas preferidas. A bordo do sofá de leitura, ouviu pela primeira vez os versos de Castro Alves. “Oh, bendito o que semeia livros.../Livros à mão-cheia.../E manda o povo pensar!/O livro caindo na palma/É gérmen – que faz a alma,/É chuva – que faz o mar.” Em homenagem ao poeta baiano, a biblioteca foi batizada com o título de um de seus livros: Espumas Flutuantes. Não demorou e o barco-biblioteca virou a sensação do lugar. Era lá que começavam ou terminavam paqueras e namoros ou se iniciavam duradouras amizades. Onde tiravam dúvidas escolares. E emprestavam livros para, mais tarde, serem lidos em casa – e iniciar, assim, outras incríveis viagens. Aquilo mudou para sempre a vida de muitos daqueles jovens caiçaras. Ângela de Oliveira, agora com 23 anos, virou professora, como sempre sonhou. Ela dá aulas na mesma escola onde estudou e tenta despertar nas crianças o mesmo gosto que lhe abriu os horizontes e trouxe uma perspectiva de futuro. Felizmente, essa história não acaba aqui. No ano passado, Ana Carla – outra que leva seis horas por dia para chegar à mesma Araçatiba – leu, no mesmo barco-biblioteca, mais de 20 livros. E o que ela quer ser na vida? Ainda não sabe. Mas uma coisa é certa: nunca vai deixar de ler. Diz que quer ser uma cidadã e o que mais escolher para si. Nem sempre é fácil, como se sabe. Mas, pelo balançar da velha traineira, a menina, 15 anos, está no meio do caminho para chegar lá.

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