Blog do Galeno Observatório do Livro e da Leitura

19 de setembro de 2017

Do outro lado do muro

Galeno Amorim

A pequena Raíssa, de 3 anos, nunca saiu de lá. E nem dá. As janelas estão chumbadas com grades grossas de ferro e a porta que dá acesso ao galpão no andar de baixo é trancada. Há mais crianças como ela no meio da noite, e sempre alguma chora. Se de fome, frio ou medo, não se sabe. Para esses pequenos, lá fora é  um lugar que talvez nem existisse. Afinal, jamais atravessaram os  portões. Nunca viram pessoas andando nas ruas ou na cidade, nem ao menos sabem se há parques, praças e zoológicos para crianças como elas.
Raíssa, contudo, sem sair dali, já esteve em muitos lugares. Conheceu príncipes, dragões e fadas. Já perambulou por castelos e reinos encantados e se viu perdida no meio de florestas escuras e  mágicas. A menina adora ouvir essas histórias. Mas, às vezes, pede outras, mais reais, sobre crianças de carne e osso como ela e com um cotidiano que, paradoxalmente, também soa como fantasia. Só assim consegue ver do outro lado do muro e sonhar com o dia em que viverá aquilo tudo.

O nome é inventado, mas a personagem é bem real. Ela vive com a mãe numa das celas do Presídio Feminino Madre Pelletier, em Porto Alegre (RS). Nasceu e cresceu entre as grades. Deu ali os primeiros passinhos e palavras. A história é parecida com a dos outros filhos das presas que, em sua maioria, engravidaram lá mesmo, durante as visitas conjugais. O vínculo maior dessas crianças com a vida se dá pelos livros. Enquanto ouvem histórias narradas pelas mães, imaginam esse mundão tão perto e, ao mesmo tempo, tão distante da sua realidade. E pior: quando chegar o momento de, finalmente, ganhar a liberdade, isso significará que chegou a hora de se separarem de suas mães.

Quem leva os livros são os estudantes de Letras e Pedagogia da UniRitter, centro universitário responsável pelo projeto Liberdade pela Escrita. São crônicas e poemas, além de notícias de jornal. Enquanto leem, os pequenos também aprendem a contar histórias e a colocar no papel o que passa pela cabeça e pelo coração. Tudo sobre angústias, dores e sonhos. Uma delas resolve escrever para Deus. Kelly promete mudar de vida quando sair. As noites de insônia e as inquietudes da madrugada dão lugar a versos e prosas. Algumas presas alegam inocência, outras clamam por justiça. Mas todas, endurecidas pela vida, buscam nos livros uma nova razão para viver.

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