Blog do Galeno Observatório do Livro e da Leitura

22 de setembro de 2017

Histórias de acolher

Galeno Amorim

Publicado na Revista 7 Dias

Nos corredores do Hospital das Clínicas, no campus da Universidade de São Paulo (USP), a cena já não causa estranheza. De repente, entra alguém de supetão em um dos quartos da ala infantil. Saca, sem cerimônia, um dos tantos livros que traz debaixo dos braços e... lá vem a história. Às vezes, pode ser um conto de fadas. Outras, uma aventura dessas de tirar o fôlego, que tanto pode ser uma da coleção do bruxinho Harry Potter como simplesmente sair na hora, de dentro da imaginação.

Alguns se entusiasmam tanto que resolvem pegar um livro para ler (são mais de 1.000 disponíveis na pequena biblioteca local). Os menores adoram os livros de dobradura, pelo puro prazer de pode brincar com eles. E é assim, como num passe de mágica, que o ambiente hospitalar então se transforma. Nem os acompanhantes escapam.

Nos quartos maiores, a chegada da trupe de contadores de histórias transforma o ambiente insípido em uma divertida roda de contos deliciosos. E todo mundo entra nessa dança: familiares, funcionários e quem aparecer por lá. O sucesso é tamanho que os pequenos pacientes e os grandes visitantes não se cansam de pedir que os contadores repitam várias vezes as mesmas sagas. O fato é que a história, enfim, não pode parar. “Ler é realmente contagiante”, diagnostica Claudineia Kamei, a assistente social que teve a brilhante ideia de levar os livros à instituição.

Entre alunos da USP em Ribeirão Preto, interior paulista, e voluntários de diferentes profissões, são cerca de 20 os mediadores de leitura que integram o Projeto Biblioteca Viva em Hospitais, uma proposta fantástica que teve início em 2002 e não parou mais. Dos bebês aos adolescentes internados, cada um é tratado como alguém especial. Um leitor que ri, chora e se emociona com histórias de todos os tipos. Às vezes, porque se identifica com um personagem, outras, simplesmente, porque cria um espaço próprio para brincar e imaginar coisas, tornando aquele ambiente mais humano.

Algo, enfim, essencial, sobretudo quando se passa longas temporadas por lá. Quem está há tempos no hospital e tem olhos para ver é que atesta: a magia da literatura tem operado verdadeiros milagres.

*Galeno Amorim é jornalista, escritor e diretor do Observatório do Livro e Leitura. Criou o Plano Nacional do Livro e Leitura, no Governo Lula, e é considerado um dos maiores especialistas do tema Livro e Leitura na América Latina.
www.blogdogaleno.com.br
@galenoamorim
@blogdogaleno

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