Blog do Galeno Observatório do Livro e da Leitura

25 de novembro de 2017

No caminho da floresta

Affonso Romano de Sant'anna

No avião para o Acre, ao meu lado, um rapaz moreno lia um livro de sonetos de Pablo Neruda. Mas havia também um grupo de franceses e francesas. Quando os vi sonolentos no aeroporto de Brasília, pensei: - De onde estão vindo e para onde vão esses gringos? Pareciam equipados para viagens estranhas, estavam apinhados de mochilas e com um ar de hippies de meia idade.

Embarcamos para Rio Branco. No avião o rapaz do livro com sonetos de Neruda dormia. Só ao chegar perto da capital do Acre pegou o livro do poeta. E lia. Enquanto isto os franceses estavam agitados como colegiais em férias.

Desci em Rio Branco onde me esperava o pintor Fernando França, que nasceu aqui, mas vive no Ceará. Os cearenses vieram para cá no final do século XIX fugindo da seca e participaram do ciclo da borracha. Fernando veio assistir a conferência minha e me mostrar a boneca do livro que fará a partir dos poemas e “ O Homem e sua sombra”.

Enquanto almoçávamos lhe falei do bando de franceses que vi no avião. Falou-me então que nesta época ocorre o popular festival do índios yawanawa, onde se bebe ayahuasca. Vocês se lembram: nos anos 70 e 80 do século passado aquela bebida era tomada por artistas e hippies brasileiros em busca da revelação, de suas fraquezas e fortalezas.

Hospedam-me no hotel. que tem o nome de Galvez, aquela figura que virou romance e novela. Revejo a história do tipo: Luiz Galvez Rodrigues de Arias(1864-1935) que proclamou a Republica do Acre entre 1899 e 1900 e misturou interesses pessoais, sexuais e nacionais. Figura rocambolesca.

O Brasil com essa mania de ser grande não tem bem consciência de si mesmo. Os franceses estão indo ao encontro dos yawanawa. E levei dez horas para chegar aqui. O Brasil é longe do Brasil. E aquele desconhecido, talvez apaixonado, lê sonetos de Neruda no avião.

O que sabemos desta parte do país conquistada à Bolívia? O sabemos dos yawanawa e dos kaxinawa? Depois da conferência na esplêndida e espaçosa biblioteca publica a jornalista Andréa Zílio (que fez reportagens sobre “A nova historia do povo yawanawa” ) me conta coisas dessa gente. Essa gente que os franceses foram ver. Esse gringos terão que enfrentar ainda oito horas de viagem de navio. Enfim chegarão lá na mata onde participarão dos festivais sagrados daquela tribo.

Aqui também sou meio gringo. Enquanto autografava meus livros no imponente shopping da cidade, na Livraria Nobel, achava estranho que leitores comprassem “Barroco do quadrado à elipse”. Dizia a eles: o barroco parece tão distante de vocês, parece coisa de Minas e da Bahia, outro mundo. O mundo aqui é a floresta, as seringueiras e Xapuri. Chico Mendes é um símbolo. E no restaurante onde estamos, Gregório Filho que criou aqui tantas Casas da Leitura na floresta me diz apontado umas arvores:- Eu plantei aquelas seringueiras aqui há quase trinta anos. Levanta-se e vai abraçar uma delas como se abraçasse uma amiga visceral. Fernando França registrou e eu digo, bota isto no “facebook”.

O livro e a floresta. Alguns índios dessa região foram até fazer cursos nos Estados Unidos. Algumas tribos têm internet. Querem salvar suas tradições registrando-as nas nuvens. A civilização avança sobre a floresta. Outro dia acharam uma tribo que se recusa a ser assimilada. Não deixam os indigenistas atravessar o rio.

Nós os olhamos como índios. Em compensação os americanos e europeus nos olham, a nós que escrevemos livros, como índios. Vi isto há dias na Feira de Frankfurt, na Alemanha. Lembram que andaram dizendo, profeticamente, nos anos 60 que o mundo era uma aldeia global?

Os franceses que vi no avião devem a essas horas estar tomando da bebida sagrada dos yawanawa. Terão alucinações assustadoras, libertando suas anjos e demônios.
O seminário sobre a America no imaginário europeu não termina nunca.

* Escritor

Publicado originalmente no Estado de Minas

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