Blog do Galeno Observatório do Livro e da Leitura

24 de novembro de 2017

Babel do futebol

Diário de Copa 1

Galeno Amorim

Foi decretado. De hoje a quatro semanas, Copacabana é território livre da Terra. Livre de preconceitos, raivosidades ou xingamentos. Da xenofobia e mesmo das amarras de pátrias que mais separam do que unem. Do primeiro sabadão de Copa até a final dela, nossa Copa é o próprio planeta de chuteiras.

Por se anda, vê-se o desfile das Nações do esporte mais popular do mundo. Por aqui, uma camiseta amarela não é, necessariamente, sinal de reverência respeitosa ao escrete canarinho. Pode muito bem ser um colombiano, um australiano ou um torcedor de qualquer parte do mundo, proporcionando um espetáculo colorido, composto por um moisaico alegre de cores em vários tons de azul, vermelho e verde.

Mas são os sotaques – tão deliciosamente distintos entre si – que dão o tom intrigante desta Babel do futebol. Algo bonito de se ver e de se ouvir. Os vizinhos argentinos vieram em massa e estão por toda parte. Como nossos filhos adolescentes, só andam em bandos e são, invariavelmente, ruidosos. Mexicanos, ingleses, italianos, croatas, franceses, americanos... A ONU é aqui!

Também foi decretado – por diploma universal e irrevogável – que qualquer bar da orla mais famosa do mundo tem alvará para sediar, por esses dias, o consulado informal dos visitantes dos 31 países que lá desembarcarem com suas bandeiras, flâmulas e a alegria incontida dos amantes da bola.

O idioma universal da turba organizada podia ser percebido na cena insólita produzida hoje, no exato momento em que dois carrinhos de bebê, empurrados pelos respectivos pais torcedores, se cruzaram, sob o sol do meio dia de um inverno malandro com sua brisa meio morna soprada do Atlântico. Num deles, seguia dormindo o pirralho argentino, orgulhosamente vestido com a camisa do Messe. Em sentido contrário, num igualmente sono danado, seguia o outro rebento, com o 10 do Neymar às costas.

Um não viu o outro. Tampouco se estranharam ou embirraram. Só seguiram, assim, serenos, confiantes e aconchegados. Cada qual foi para o seu lado, repartindo, fraternalmente, o mesmo espaço cívico.

Mas a cena do dia foi outra. Perto dali, um casal de rapazes passeava, tranquilamente, de dedos dados. Um vestia uniforme vermelho; o outro, azul. Para que seleção torciam?

Pouco importa.

PS: Indiferente a isso tudo e aos milhares de turistas ávidos por uma selfie com ele, Carlos Drumond de Andrade, o poeta do Brasil, contemplava, de costas para o oceano e de frente para as maravilhas da cidade, sua justa e merecida eternidade.

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