Blog do Galeno Observatório do Livro e da Leitura

24 de novembro de 2017

O dia em que Copa capitulou

Diário de Copa 2

Galeno Amorim

Menos de 24 horas após ter dito aqui neste Diário de Copa que a praia mais famosa da Terra fora convertida em território livre do Planeta, eis que me vejo de volta ao tema. Pra dizer, com todas as letras, exatamente o contrário. Na-na-ni-na-não!

Não que a Princesinha do Mar tenha perdido, da noite pro dia, a ginga, o charme e o recém epíteto de ONU das chuteiras. Ou de ser palco privilegiado da alegria inconfundível de torcidas do mundo todo que por aqui desfilam nestes dias de Copa. Menos ainda sua tolerância típica, a hospitalidade e o calor fraterno a quem aqui chega.

Copacabana capitulou mesmo foi diante da fabulosa invasão argentina – algo que nem as naus francesas do século XVIII lograram fazer. Quem andasse pelo Calçadão de Copacabana no primeiro domingão da Copa não conseguiria dar mais do que dois ou três passos sem trombar com uma guarnição de los hermanos. Do Forte de Copa ao do Leme, a orla estave peremptoriamente tomada.

Nem Drummond escapou. Em vez de se deixarem fotografar ao lado da estátua de bronze do poeta das Minas Gerais, passantes e ficantes queriam mesmo era uma lembrança pousada ao lado dos bonecos gigantes do Messi e do Maradona, os dois poetas da bola de lá. Até as bicicletas laranjinhas do Itaú se bandearam neste dia em que céu e praia se tingiram de azul celeste. Hoje, inadvertidamente, tornaram-se garotas-propagandas do Banco La Nación.

Duas pobres brasileirinhas tentavam, desesperadamente, coitadas, ensaiar uma resistência. Inútil. Do alto do seu triciclo, berravam que eram brasileiras com muito orgulho e com muito amor. Pura perda de tempo. O que estava feito, estava feito: aqui é Porto Madeira, Mar Del Plata, Cuzco... E o majestoso prédio antes conhecido como Copacabana Palace, tornara-se uma curiosa Casa Rosada. E fim de papo.

Um dos raros sons brazucas – eles existiram, é bom que se diga – que ainda se podia ouvir vinha da voz solitária e do violão verde amarelo que se arranhava em um quiosque perdido do Posto 5. Mas que anunciava nada além do que a rendição:

– Só, somente só... Assim vou lhe chamar, assim você vai ser. Só. Somente só...

Ao som da outrora alegre Preta, Pretinha – que soava, nesta manhã, compreensivelmente lúgubre – o jeito era cair fora da avenida Atlântica e entrar, atrás de socorro, no primeiro café aberto na Nossa Senhora de Copacabana.

Lá, entretanto, viria o golpe fatal.

Uma senhorinha conversava só, numa das mesas, quase gritando para se fazer ouvida por alguém. Ela insistia em puxar conversa, e mostrar-se simpática, com o grupo de jovens falastrões da mesa ao lado. Foi quando jogou a pá de cal definitiva em qualquer esperança:

- Vou torcer pra Argentina. É por causa do Papa Francisco...

Ai de ti, Copacabana.

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