Blog do Galeno Observatório do Livro e da Leitura

22 de setembro de 2017

Um dia deferentão

Diário de Copa 3

Galeno Amorim

Decerto que algo de estranho está acontecendo e só esqueceram de me avisar. É que a segunda braba chegou e, o sol forte a pino, nadinha de menor sinal que seja de algum argentino – unzinho só – a festejar seja lá o que for pelas ruas de Copacabana.

¿Qué pasa, Dios mio?

Entre um bocejo e outro, o transeunte se pergunta, atônito, se seria o caso de se considerar a hipótese de alguma espécie de epidemia de vergonha alheia por causa da atuação insossa da véspera. Mas não, isso não.

Afinal, não seria nada natural em se tratando justamente de torcida tão aguerrida e leal. E, convenhamos, isso seria gol a la Marcelo (coisa de brasileiros e bósnios) contra o próprio patrimônio. Definitivamente, também não podia ser isso.
Por que, então, ora bolas, abririam, eles, los hermanos, mão de posição tão estratégica e arrasadora quanto àquela que conquistaram no domingão de Copacabana, sem qualquer resistência visível, com direito a bandeirolas, bonecos gigantes, tangos e muito pano azul?!
Mistério.
É provável que estivessem repousando o sono dos justos. Ou dos ímpios, já que a esbornia do pós vitória contra a Bósnia, em pleno Maraca repleto, correu solta, atravessando o samba e a madrugada carioca.
Sei não...
O certo é que nas primeiras horas de uma segundona nunca vista antes na história deste País – aqui no Rio terça e quarta são meio feriados; quinta é feriado inteiro; e a sexta, coitada, ninguém é de ferro... – não havia viva alma na orla e nas vias internas do que restou da Copacabana caída da véspera para contar vantagem.
O que fora feito, enfim, daquela Babel de cores, vozes e alegrias de fim de mundo na semana sem fim? Por onde andariam os torcedores barulhentos e divertidos desembarcados de todos os continentes?? E os camaroneses? Os ingleses? Colombianos? Os mexicanos, meu Deus? Mas nem os chilenos?!?

Houve quem apostasse que a turba organizada fora vista de malas prontas rumando no rastro das pegadas de Messi e sua turma, a fim de ver de perto os outros dois jogos das Eliminatórias.
No Frescão (o ônibus executivo que, em São Paulo, certamente ganharia o apelido de algo como Azulzinho, em referência direta, reta e pragmática a sua cor, em garantida economia de futuras explicações a turistas desavisados) rumo ao Centro da cidade, o cenário sonolento era o mesmo. Só bem mais tarde se soube que essa palidez urbana custou a sumir, assim mesmo muito lentamente, do rosto das ruas, dando lugar, aos poucos, à vida de todo dia desta cidade que nunca para de encantar as pessoas.
O caso é que o jeito esquisitão da primeira segunda-feira da Copa no Brasil custou a desaparecer.
No fim da tarde, novo susto. Agora era o trecho sempre tão nervoso da Rua Almerino, que despeja o trânsito contido no cais do Valongo, na zona portuária, na Avenida Presidente Vargas, epicentro do Rio, que se mostrava absolutamente deserto. Um vazio de dar dó. No metrô, mesmo o carro rosa das moças estava mais para um liberou geral, tal o descaso dos passageiros de todo dia para com as catracas queridas.
A garota que entrou às pressas em dos vagões mal prestou atenção no Caetano esgoelando sem parar em seu Iphone:
- Alguma coisa está fora da oooordem... Fora da oooordem...
Talvez tudo não passe só de uma crise de identidade da cidade prestes a assoprar, ano que vem, suas 450 velinhas. Nada disso. Acabei por concordar com o gaiato  que viu no dia madorrento nada mais que um elástico esticado entre a ressaca cívica argentina do domingo e a ansiedade natural da população em véspera de jogo – agora, contra o México.
O caso é que a segundona de Copa não desceu redonda.
Mas essa certeza só viria a ter mais tarde, já à noitinha, ao decidir, gloriosamente, voltar pra casa e dar por encerrado esse dia definitivamente deferentão.
Olhei e custei a crer no que via. Lá estava meu camelô, alegremente envergando com indisfarçável e superior orgulho portenho, seu uniforme azul e branco, com as temidas listras verticais e o 10 do inimigo às costas. O desavergonhado não se fazia de rogado:
- !Mira la fruta! Mira La fruta! – berrava o danado, todo sorridente, diante da freguesia incomum que agora se juntava.
Tem nada, não. Amanhã há de ser outro dia.

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