Blog do Galeno Observatório do Livro e da Leitura

22 de setembro de 2017

O do contra

Diário de Copa 5

Galeno Amorim

O que fazer num feriadão de Copa com uma chuva que Deus manda se você resolveu estar nesse dia justo em Copacabana, no centro nervoso da capital do planeta Bola? Não se desespere: aqui há um jeito pra tudo. Como os museus estão em greve e quase ninguém percebeu, o torcedor cabeça tem opções. Pode, por exemplo, se enfurnar numa livraria da Zona Sul (em dias de jogos do Brasil, elas fecham uma hora antes e reabrem em seguida).
Ainda não é isso? Que tal, então, tirar seu dia de Macondo - a cidade imaginária de Cem Anos de Solidão, onde a chuva parecia não acabar nunca - e se dedicar a estudos antropológicos?
Uma boa dica é conhecer casos dos espécimes raros da cidade. Eles estão por aí, ainda que não se note. Há um tipo que reaparece de quatro em quatro anos, e assombra como boa aparição que se preze. Ele é o torcedor do contra. Em geral, tem a fisionomia grave e entonação empostada.
Para descobrir esse espécime é preciso perseverar. Procurar no lugar certo. Às vezes, pode ser preciso sair da zona de conforto de Copacabana. Mas é tiro certo. Não que o bairro, naturalmente tão pródigo em gerar figuraças tipo exportação, não seja merecedor de tão respeitável presença. Mesmo porque há de um tudo por aqui.
Mas, para se alcançar rigor científico, faz-se necessário o distanciamento. Para melhor observá-lo, com apuro, isenção.
Eu, por exemplo, fui encontrar um no Largo do Machado, a uma boa pernada daqui, cortando por entre as ruas estreitas de Botafogo e do Catete. É lá que ele se esconde em dias sem jogos do Brasil, quando aproveita para treinar as habilidades e o modus operandi, invariavelmente infalível.
Ele faz sua aparição do nada justo naqueles instantes de maior tensão - tipo assim qualquer jogo da seleção ultimamente. Tem o dom de farejar o torcedor de baixa resiliência emocional e se aboletar ao seu lado. A tática refinada inclui puxar conversa à toa com o vizinho e preparar terreno. Dá certo, você vai ver.
Bons tempos aqueles em que o torcedor do contra era só um tipo ingênuo, puro mesmo. Se torcia contra, era porque tinha lá seus motivos. Podia ter sido um trauma de infância, uma dificuldade em lidar com frustrações ou só o pavor de um novo Maracanazo, o que não conseguiria suportar. Nada, porém, que uma boa terapia não resolvesse.
Já o de agora, não. O torcedor do contra moderno é um sagaz. Esperto. Tem ginga e malandragem. Sua fala fácil envolve a vítima sem que ela perceba. E não só mulheres. Ao contrário do seu predecessor jurássico, em geral um exímio conhecedor do esporte bretão, o do contra atual jamais faz uso de argumentos futebolísticos fundamentados. Demonstrar raiva porque o ídolo do clube do coração não foi convocado está vetado em seu manual. Nada de chororô.
Também não guarda semelhança com aquele tipo que, dois meses atrás, jurava de pés juntos torcer até a morte contra a seleção, na esperança de que um fracasso nacional pudesse tirar votos da Dilma. Esses não resistiram à bola rolar e desviraram a casaca.
O novo torcedor do contra não tem nadica de ideológico. Em dias de jogos, veste roupa comum e mostra desapego. Faz suas aparições, como uma alma d’outro mundo, em locais movimentados. A Praça São Salvador, no ajuntamento urbano entre o Catete, Flamengo e Laranjeiras, perto do Largo do Machado, é um palco para suas abordagens.
Nem gosta muito de futebol. Só quer mesmo um pouco de atenção. A questão é que, enquanto a bola rola, ninguém dá pelota a ele. Em vez disso, roem unhas, socam o ar e chutam uma boa imaginária a cada chute errado do nosso ataque. Ele irrita o vizinho e por pouco não leva uns sopapos quando atinge seu objetivo de levar o outro à loucura. Mas não corre riscos desnecessários, e está sempre mudando de lugar e de freguês.
No fundo, o torcedor do contra não é má pessoa. Tem família, amigos e, dizem, um coração. Pior: ele também sofre. É que, às vezes, o tiro sai pela culatra: se o time vai mal, o que não é tão difícil assim, a concorrência logo aparece e dá trabalho. O infeliz fica sem discurso e embocadura. Já não tem mais o que fazer ali.
Sozinho em seu labirinto, é só mais um na multidão.

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