Blog do Galeno Observatório do Livro e da Leitura

22 de setembro de 2017

Nem dou bola

Diário de Copa 7

Galeno Amorim

Justo na tarde em que Bélgica e Rússia foram levadas a travar seu duelo particular e chocho no Maracanã, no segundo domingão de Copa, Copacabana resolveu, veja só, viver a experiência de ter um dia comum. Como se fosse possível. Como se fosse dado à praia mais cosmopolita do mundo, capital do mundo do futebol, esse direito. Sem bandeiras, guerras de torcidas, mas também sem o sex appeal das manhãs, a azaração dos finais de tarde e a doce beligerância de hinos e cantos trazidos das arquibacandas.
Hoje, moças e rapazes preferiram se exercitar jogando futevôlei. E frescobol e altinha, mas sem deixar molhar os pés pela água gelada do Atlântico. Camelôs tupiniquins e colegas bolivianos e equatorianos ofereciam, como deve ser, suas quinquilharias aos turistas. Esses, por sua vez, respondiam com a admiração igualmente esperada, e se enrolavam com a língua e o sotaque, na ânsia desejosa de se fazerem compreendidos pelos locais. Em vão. Eram os dólares que brandiam nas mãos a festa dos ambulantes. Em outras palavras, um dia terrivelmente comum.
No lado oposto da beira-mar, senhorinhas posicionadas em suas cadeiras de rodas observam e comentam, amparadas por mulheres de branco, os transeuntes que passeiam, seus costumes e excessos. O de sempre.
O pastor capricha na pregação:
- Olha só: Jesus Cristo não está aí para quebrar o galho de ninguém...
Bom saber...
Professores em greve berram no alto-falante que você aí parado também é explorado. Disputam assinaturas e a atenção de quem passeia, indiferente, pelo Calçadão. A gringa toma a decisão difícil: o pacote de biscoito O Globo ou o sacolé, a genial invenção verde-amarela que mistura picolé com a brasileiríssima caipirinha?!
Não longe dali, enquanto o dançarino de skate ensaia sua dancinha sensual no Posto 4, o contorcionista vizinho estica, no Posto 3, os dois pés até depois da nuca, até que consegue se equilibrar, só com as nádegas, sobre ameia dúzia de latas de leito Ninho, empilhada uma em cima da outra.
Enfim, a velha e boa Copacabana de sempre, com suas crianças, ciclistas, corredores, caminhantes e desocupados da hora, todos disputando cada centímetro do espaço público e sobrevivendo à confusão do dia.
No quiosque com tevê, o locutor solitário fala às moscas. Quando o juiz apita, a uma da tarde, o início de mais uma peleja da Copa, o termômetro de Copacabana já indica 28 graus. Turistas de pele mais branca - ou seja, quase todos! - sentem o baque e é hora dos locais pendurarem o agasalho na cintura. Não dá pra acreditar que é o primeiro de inverno, é a voz corrente das ruas e da praia.
Cem metros antes da passarela da Fifa em frente ao Forte de Copacabana, que agora abriga estúdios de tevê pra lá de bacanas, a feira-livre da Rainha Elizabeth da Bélgica resolve dar adeus, mais cedo que de costume, à freguesia retardatária. O café na quadra seguinte, meio Arpoador meio Ipanema, aproveita e manda os últimos clientes pra casa.
Copa acordou mais tarde no seu dia comum. Só, aos poucos, vai despertando de sua letargia, como também é de praxe em fins de semana e feriados.
Para onde foi todo aquele entusiasmo e sofreguidão dos dias passados?!
No boteco da esquina da Júlio de Castilhos, uma transversal da orla, a moça que ostenta uma borboletona tatuada nas costas nuas tem a resposta. Que ela dá, entre uma bebericada e outra, olhando de soslaio para a tevê enquanto o jogador belga ajeita, a quilômetros dali, a pelota para bater o escanteio:
- Nem dou bola pra você... - se limita ela a balbuciar.
Foi, definitivamente, um domingo comum em Copacabana.

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