Blog do Galeno Observatório do Livro e da Leitura

22 de setembro de 2017

Os lulus de Copacabana

Diário de Copa 9

Galeno Amorim

Copa que é Copa não vive só das glórias e conquistas nas quatro linhas. Tá certo que a magia do jogo e os feitos incríveis que saem da cabeça e dos pés – e, vez ou outra, dos dentes... – dos gênios da bola contam muito. Só que não é tudo. Principalmente quando se vê que, para cada peleja jogada em qualquer uma das nossas arenas, o velho e bom País do futebol protagoniza poucas e boas do lado de fora delas.
Copacabana mesmo já teve de tudo nesses dias de Mundial. Guerras de torcidas, bacanais da bola e bárbaras invasões de hermanos de quatro costados de Norte a Sul da latina América. Por terra, mar e ar. Já se falou e se escreveu muito sobre artistas, banhistas e até as noivas de Copacabana. Mas em tempos de reinado absoluto da bola, não se disse meia linha que fosse a respeito da gloriosa República dos Lulus de Copacabana.
Quem são eles? Trata-se de espécime tão onipresente quanto imprescindível no dia a dia do bairro. Como o são os vendedores da areia, os atletas de plantão, os pregadores das calçadas e os manifestantes das ruas, entre tantos outros tipos que habitam e batem ponto diário na orla mais falada do mundo. Nesses dias de jogões, Copacabana consolida sua fama e a adorável condição de maior canil a céu aberto do planeta.
Buldogues, Labradores, Pastores-alemão, Beagles, Chihuahuas, Pugs, Cokers Inglês, Pit bulls, Rottweillers, Dobermanns, Poodles. Pequinês, Shih-tzu, Maltês, São Bernardo, Lulu da Pomerânia, Toys... Eles estão todos aqui! O paraíso das cães na Terra é aqui!
Quem caminhasse nesta tarde pela orla de Copa, do Leme à Confeitaria Colombo, veria, enquanto argentinos e nigerianos se esfolavam no Sul, que os lulus estão mesmo na crista da onda, e roubam a cena. Eles estavam por todo o Calçadão e quase tão produzidos quanto Cristiano Ronaldo e a turma de estrelas fashion dos gramados. Uns de cachecol, outros de gravata borboleta e os grandalhões envergando jaquetões de crochê, naturalmente que nas cores verde e amarelo.
Ted, um Cocker americano, desfilava com as madeixas descoloridas à la Dani Alves. Nico, um Maltês desencanado, andava com sua dona a tiracolo com um look louro platinado inspirado em Neymar. O estilo moicano do nigeriano Emenike estava presente em mais de uma raça, para delírio dos estilistas dos pet shops do bairro.
Cachorrinhos e cachorrões – mas atenção: nunca pergunte em Copa quem são uns e quem são os outros – tricotam pra lá e pra cá, uns fazendo companhia pros outros. Entre o Posto 6 e o Lido, um só deles, Fredy – não confundir com o atacante bigodudo e, em tempos idos, artilheiro da seleção –, se deixou flagrar ladrando a plenos pulmões, enquanto uma ruidosa caravana de torcedores perdidos passava.
Lili, uma cadelinha pinscher, seguia, bela e fofa, protegida do sol de 29 graus, num carrinho de bebê empurrado pela dona. Coisa meiga. Não deu a menor bola quando cruzou, defronte ao canteiro de obras do Museu da Imagem e do Som, com Memel, pequinês de juba podada com um desenho em ziguezague, provavelmente feito pelo mesmo cabelereiro do CR7.
Assim como seus donos torcedores, cada um deles tem estilo e personalidade. Na Hora H, cada qual torce da sua maneira. Nério, por exemplo, um vira-lata estiloso que, em dias comuns, pode ser visto, nas primeiras horas de sol, circulando pelas ruas transversais da Avenida Nossa Senhora de Copacabana, costuma rosnar toda vez que a Argentina faz gol. Nesta tarde, voltou quase rouco do passeio diário.
Se chilenos, argentinos e colombianos ficaram com o lado chique da orla, aquela voltada pro mar, os lulus, mais modestos, se contentam com a calçada oposta, onde bate sombra. Era lá que estava Félix, um Dogue alemão,seguia, disciplinadamente, as instruções do seu treinador:
- Senta! Levanta! Deita!
Notando a pequena plateia que se formava ao redor, o coach sentiu firmeza. Ele abusou da sorte:
- Neymar! – comandou, voz empostada, para que não restasse dúvida sobre suas habilidades de instrutor, e o lulu, paciente, se ergueu, num pulo só.
- Messi! – tripudiou ele, e o lulu, obediente, dessa vez se esparramou pelo chão.
A senhorinha que viu a cena não achou muita graça. Mas quis saber se ele não usa focinheira no seu cão. O humor do técnico pareceu mudar um pouco. Ele deu de ombros:
- Se a Fifa que é a Fifa não põe focinheira nos seus jogadores, eu é que não vou por nos meus...
Mais não foi dito. Mais não precisou ser perguntado.

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