Blog do Galeno Observatório do Livro e da Leitura

24 de novembro de 2017

Amarelou geral

Diário de Copa 11

Galeno Amorim

No dia seguinte aos milagres de São Júlios Tadeos, que acabariam por guindar o selecionado nacional do Mineirão direto às Quartas-de-Final, a orla de Copacabana não deixou por menos. Amanheceu, como era de se esperar, todinha de amarelo. Panos, adereços, lenços, bandeiras no pescoço, camisas e tudo o mais que uma boa torcida faz jus. Como manda o figurino. Copa amarelou geral!

Quem olhasse em linha reta para a Avenida Atlântica - até 12 de julho, data da grande final, o quartel general da Fan Fest e do Estado Maior das torcidas todas do planeta de chuteiras - certamente notaria a diferença. Menos de 48 horas antes, a principal artéria do bairro era território livre internacional, com seus tons e nuances que, misturadas, deram origem ao que se chamou de aurora bureau do mundo da bola.

Neste terceiro domingão de Copa, porém, não havia o menor sinal disso. Por onde se pisava ou a vista alcançava, era um amarelão só. Amarelo ouro, amarelo canário, amarelo oliva, amarelo lima, amarelo titânio, amarelo limão, amarelo tangerina, amarelo aureolin. Todos os matizes da cor, do amarelo nápoles ao amarelo seletivo. Estavam todos lá.

Logo se via que não eram aqueles torcedores da véspera, que ocuparam o Calçadão de Copacabana com seus tamborins, pandeiros e agogôs. Beberam, festejaram, fizeram xixi nas vias e desopilaram o fígado, encralacrado que estava de agonia e aflição. Não eram também os retardatários de sempre, aqueles que costumam varar madrugadas e amanhecem o dia em algum quiosque da orla.

Os amarelinhos de hoje eram de outra tribo.

Talvez pudessem ser australianos, equatorianos, costa-marfinenses, camaroneses, belgas ou japoneses, com o fardamento número 2 do seu poderoso esquadrão. Mas não eram. Eram os colombianos, nossos elegantes e festeiros vizinhos do Norte, de nós separados – ou unidos, quem sabe – por uma floresta inteira no meio.

Eles estavam pra lá de animados com seu feito heroico. Afinal, nunca antes na história deste continente da bola uma seleção colombiana tinha ido tão longe. Só atrás dos americanos na quantidade de ingressos comprados legalmente, portanto fora das mãos dos cambistas, os torcedores colombianos colocavam, enfim, suas manguinhas amarelas de fora. A princípio, com alguma timidez. Cantarolavam em tom comedido pelo Calçadão afora e pousavam para fotos, tendo a Baía de Guanabara e as praias de Copa por testemunha.

Para o pai bigodudo que pousava abraçado às duas filhas adolescentes tendo o Atlântico por cenário, a lembrancinha levada de Copacabana tinha mesmo era gosto de troféu de guerra. A seleção da sua pátria nas Quartas-de-Final e justo contra o Brasil?! O feito heroico de James Rodríguez e sua turma merecia, claro, registro para a posteridade.

Os patrícios de Gabo, o adorável Gabriel Garcia Márquez meu, seu e nosso, não conseguiram conter o entusiasmo por muito tempo. Com razão. Mas até nisso com superioridade ibérica difícil de bater: o máximo de gozação que perdedores de plantão ouviam dos hermanos colombianos era um “tchau, tchau, Chile...”. Zoeira de categoria, quase padrão Fifa.

Agora é encarar o time e a torcida da casa. Afinal, guerra é guerra. E nisso os colombianos, danados, andam bem afiados. Na manhã de hoje, muitos deles já tinham um olho no gato e o outro peixe. Eram todos amores e simpatias pra cima de chilenos, uruguaios, hondurenhos, equatorianos e outros sem-seleção, que, embora eliminados, seguiam vagando como almas penadas nos umbrais de Copacabana e arredores.

Olho neles! Não são fracos, não...

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