Blog do Galeno Observatório do Livro e da Leitura

22 de setembro de 2017

Pro dia nascer feliz

Diário de Copa 13

Galeno Amorim

Não foi preciso esperar que o juiz espanhol apitasse o início do jogo. E nem aguardar a zaga brasileira estufar duas vezes as redes colombianas. Os torcedores brasileiros concentrados desde as primeiras horas do dia em Copacabana já sabiam que hoje era o dia. Já chegaram ali com a confiança no time e nos onze jogadores restabelecida, prontos para o que desse e viesse.
Horas antes de Neymar e os meninos do Brasil adentrarem o gramado do Castelão, a fé nos pés e na genialidade dos garotos canarinhos já havia sido devidamente religada. Ela podia ser notada em cada olhar dos torcedores que passeavam despreocupadamente enquanto a preliminar, entre alemães e franceses, rolava solta no Maraca, não distante dali. E na avalanche de camisas amarelas e golas verdes, com Neymar Jr carimbado às costas, que homens, mulheres e crianças vestiam com orgulho e os camelôs ofereciam sem parcimônia aos transeuntes que passavam.
A turma da dança de rua dava seu espetáculo à parte na Atlântica interditada e traduzia essa confiança. Tendo a pista de rolagem como palco e as tendas gigantes da Fan Fest às costas, dois dançarinos atiravam a moça magrinha da trupe a três ou quatro metros de altura, a ponto dela ter que encarar o Pão de Açúcar, atrás do morro do Leme, de igual pra igual. O trajeto de volta ao solo ela cumpria sorrindo e de olhos fechados, serena, até ser recolhida nos braços musculosos e negros da dupla.
Era o mesmo estado de espírito dos torcedores brasileiros que tomaram a orla de Copa, nos instantes que precederam o jogo, em relação aos meninos do Felipão, prestes a entrarem em campo. O vovô de terno completo, meticulosamente bordado com palitos de fósforo tingidos de verde-amarelo, dava o tom do novo estado de ânimo. A colombina tirou a fantasia do armário e se enfeitou para a festa que, ela já sabia, não tardaria a explodir.
O dia seria mesmo dos que jogariam de amarelo, dizia, a quem quisesse ouvir, a tiazinha enrolada na bandeira e pronta pra matar. Hoje não tem pra ninguém, repetiam, alcoolicamente alegres, dois rapazes que pendiam abraçados ao Dorival Caymmi feito de bronze e pura preguiça, na última quadra da Atlântica, já na divisa com o Arpoador.
Esse sorriso só sumiria dos rostos ao cair da noite, quando o breu que veio do mar tingiu de um negrume pesado o céu azul de Copacabana, e espalhou como um rastro de pólvora a notícia dando conta de que a Copa chegara ao fim, precoce e terrivelmente, para o menino Neymar.
Que venham os alemães.

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