Blog do Galeno Observatório do Livro e da Leitura

22 de setembro de 2017

Guerra é guerra!

Diário de Copa 14

Galeno Amorim

A festa das torcidas a caminho da Fan Fest, o campo de batalha dos sem-ingresso da Copa, é um espetáculo à parte. Bonito de se ver. Homens e mulheres, crianças e velhos, todo mundo canta, grita, muitos bebem, em demonstração de alegria e exaltação aos heróis da bola. E uma certa pureza, há que se dizer, já que nunca se sabe das agruras que os esperam no caminho de volta.
Mas isso não parecia incomodar os hermanos entrincheirados no Calçadão de Copacabana no penúltimo sabadão da Copa. Chegaram cedo, tomaram posições estratégicas na orla e foram à sua guerra particular. Confiante, como ensina todo manual de torcedor celeste, o gorducho pintado pra guerra cuidava de inflar o ânimo de retardatários não tão resolutos.
Não passava viva alma pelo Posto 4 sem que tivesse os ouvidos favorecidos pela cantoria portenha:
- Brasil, decime qué se siente tener en casa tu papá... - cantavam, a plenos pulmões, cinco rapazes de Porto Madero.
Garrafa pet cortada ao meio e ferné vazando pelas bordas e pelas bocas, não perdoavam a indiferença:
- Te juro que, aunque pasen los años, nunca nos vamos a olvidar que el Diego te gambeteó...
E, naturalmente, argentino que se preze não pode deixar de ter na ponta da língua versos ferinos a tripudiar o Rei:
- Estás llorando desde Italia hasta hoy... Maradona es más grande que Pelé...
Mas os belgas, quem diria, não fizeram feio. E não deixaram por menos.
Vieram em peso. Diferente do que se ensina por aí, via-se logo, ali, que a Bélgica não é nenhum país pequeno que cabe em um de nossos estados. E que, pelo visto, sua população deve ser muuuito maior do que aquela apregoada pelo IBGE de lá.
A julgar pela tropa numerosa saída de ruas, becos, ônibus e estações do metrô de Copacabana, houve, por certo, depois das Oitavas, algum desembarque em massa, às escondidas, dos tais diabos rubros em terras brasileiras. Provavelmente, entraram disfarçados, como aquele Barra Brava portenho que se pintou de suíço, fintou a polícia e foi torcer no Itaquerão.
Errou também quem achou que belgas, por natureza, e sendo vizinhos de quem são por tanto tempo, são um povo frio. Quem os visse, festeiros, alegres e, por vezes, até provocadores, especialmente contra argentinos, diria exatamente o contrário. Um povo em festa! Praticamente brasileiros da gema. E, tal como nós, apaixonados pela pelota.
Quem se deparasse com a surpreendente e curiosa torcida belga a caminho da Fan Fest, não teria dúvidas. Que povo plural e diverso! Estavam ali belgas pretos, belgas amarelos, belgas ruivos, belgas pardos e belgas, naturalmente, branquelos. Belgas baixinhos e belgas grandalhões. Belgas de olhos rasgados e belgas cabelo carapinha. A Bélgica é aqui, entre o Posto 2 e o Posto 6!
Se argentinos prezam a farda alviceleste mais que a própria vida, torcedores belgas são liberais por natureza. Sua eclética coleção de ritmos convive, harmoniosamente, com bordões e gritos distintos, pronunciados, pelo que se ouviu, em variados sotaques e dialetos.
Pelo jeito, belgas também não se apegam muito a um fardamento só. Todas as opções à disposição da comissão técnica da seleção de três cores podiam ser contempladas, tranquilamente, na passarela do Calçadão de Copa. Além do manjado uniforme vermelho, estava lá, por exemplo, seu tradicionalíssimo uniforme amarelo canário, que talvez usem com calções azuais e meias brancas, que é pra combinar. E, ainda, o branco, o verde, o azul e mesmo o laranja, o que prova, de uma vez por todas, que ser roupeiro de uma seleção assim deve ser coisa de Cristiano Ronaldo para cima.
Belgas que chegaram meio em cima da hora do jogo, porém com entusiasmo redobrado, provavelmente estivessem usando o uniforme reserva número 18 da seleção da Bélgica. Por acaso, lembravam muito a camisa de um esquadrão local de listras rubro-negras. Mas mera coincidência.
Criativos por excelência, também podiam ser flagrados belgas com o uniforme 22 da sua seleção, aquele que traz, de fora a fora, uma cruz de malta atravessada no peito. Outros, ainda, usavam peças do uniforme 35, com listras verticais tricolores, em tons de verde, vermelho e branco. Entre saudosistas da Rua Sá Ferreira, houve quem jurasse ter enxergado ali semelhanças com jaquetões um dia já envergados por craques do Bangu, do Ameriquinha carioca e do Juventus da Mooca paulistana. Mas isso ainda carece de confirmação oficial.
Esses e outras belgas foram, viram, gritaram, cruzaram os dedos, entalaram o grito na garganta. Torceram e sofreram feito loucos. No fim, deu mesmo Argentina, que, duas décadas e meia depois, quebra um jejum danado e volta, toda prosa, ao grupo de elite dos quatro maiorais do futebol mundial.
Fazer o que, dizia, conformado, o belga de mãos dadas com a mulher e três crianças pequenas na volta pra casa, no Chapéu Mangueira, morro do Leme de frente pra Urca.
Enquanto alargava os próprios passos no rumo do Forte, ele confabulava, de rabo de olho para o compadre, tão belga quanto ele:
- Sendo o Papa um deles, será que é pecado secar argentino?!
Agora que a Bélgica caiu fora da Copa, quando o Brasil entrar em campo, semana que vem, contra os alemães, esses belgas todos vão engrossar a torcida brasileira por Neymar e sua turma. Dirão, certamente, que são brasileiros desde criancinhas e é até provável que cantem o refrão:
- Com muito orgulho, com muito amoooor...

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