Blog do Galeno Observatório do Livro e da Leitura

24 de novembro de 2017

Quero ser gringo

Diário de Copa 18

Galeno Amorim

Copacabana amanheceu desolada. A ressaca não veio do mar bravio, mas de suas areias alvas. Era uma ressaca diferente, que não fora ocasionada pelas garrafinhas de cerveja que, mal raiou o dia, garis trataram de empilhar. Nem pelo ferné entornado em excesso. Era uma espécie de ressaca cívico-moral pelo brio esfolado e a pátria caída, difícil de se explicar.
Do Leme ao Arpoador, a praia de Copa acordou apinhada de hermanos. Legiões inteiras que se espalhavam pela areia, de fora a fora. Não porque não tivessem encontrado o rumo de casa na noite escura que se seguiu à derrota do seu selecionado para os alemães. Mesmo porque ali é sua casa e seu endereço nestes dias de Brasil.
O espetáculo tristonho do acampamento ao léu na beira-mar, com roupas esquecidas ou simplesmente atiradas ao vazio, e que agora se esfarelavam em meio à areia pútrida, não era, nem de longe, o que mais desolava. Desolador mesmo era a dor do caneco fugidio entre os dedos e os pés de Messi e seus companheiros. Era o desalento de ter que esperar sabe-se lá quanto tempo por nova oportunidade de jogar uma Copa, e quase ganha-la, no quintal de casa.
Por isso, os dois amigos que faziam de quarto de dormir o velho Lada russo dos tempos da guerra fria tentavam, a seu modo, dormir o sono dos justos. Sem saber que tinham às costas o prédio simplório que ainda conserva as pranchetas de Niemayer, nosso craque do traço, buscavam esticar o mais que podiam a hora de acordar do pesadelo para entrar na vida.
Só muito lentamente, no meio da manhã, quando o sol já ardia a pele de quem, a nem tantas horas atrás assim, se refrescava no inverno rigoroso dos pampas, os dois mais centenas de outros deles se animaram a se erguer de seu mundo caído. Sacos de dormir foram se abrindo, cobertas foram postas de lado na areia feita dormitório coletivo e, então, o sol brilhou, para justos e para ímpios, como faz todo santo dia sob as bênçãos de Nossa Senhora de Copacabana.
O desayuno podia ser servido no banco de pedra do outro lado da Atlântica ou nas cercanias das ondas que prometiam avançar na direção do asfalto. Muitos vieram só com a roupa do corpo. Faltava banho, roupa limpa e o conforto de um quarto de hotel. Havia uma dor sentida e sincera. Só não havia vergonha.
Estavam todos ali – muitos tendo chegado menos de 24 horas antes – com a certeza do dever cumprido. Juntaram os últimos trocados, mas vieram, como fora possível. De carro velho, de moto, de ônibus, de carona. E chegaram, a tempo de mandar boa vibração e torcer na cidade da Copa. Jogaram com as esperanças, aprenderam a cantar, decoraram versos inteiros. Cantaram. Brigaram.
À noitinha, quando a primeira segundona do pós Copa chegava ao fim, não eram todos que haviam encontrado seu longo e tortuoso caminho de volta. O moço de barba rala e camisa azul e branca amarrotada pra fora da calça, ainda queria saber como chegar ao Maracanã de seus sonhos. Duas hermanitas aproveitavam para se fotografar, tendo as luzes e as esculturas da praia de Copa por testemunha.
Certamente não era a eles que se referia, dias atrás, o brasileirinho que, fascinado com a vida boa dos turistas que vieram curtir a Copa, disparou, candidamente, diante da mãe favelada e estupefata:
- Quando eu crescer, eu quero ser gringo...

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