Blog do Galeno Observatório do Livro e da Leitura

24 de novembro de 2017

Uma vez Flamengo

Diário de Copa 16

Galeno Amorim

Depois da tempestade, a bonança. A ideia surgiu casualmente na mesa do quiosque do Posto 3, num ponto cego exatamente na linha imaginária entre o Leme e o Arpoador. Logo ganhou corpo e apoio quase unânime de mesas vizinhas, já que numa delas havia também vascaínos, tricolores e um botafoguense.
Era, de fato, genial, deu razão o garçom. Simples, como são as boas ideias. E, além do mais, a saída honrosa que Dona Fifa tanto procura desde o imbróglio danado em que se meteu quando alemães desalmados descumpriram o trato de não deixar, de modo algum, os anfitriões verde-amarelos chupando o dedo e de fora da final da Copa.
A solução, pontificou o homem de jaqueta do seu clube do coração, esteve o tempo todo aí, para quem quisesse ver. Só não viu mesmo quem não quis, é cego, ruim da cabeça ou doente do pé, ou tudo isso junto.
Enquanto o domingo não vem, a prometida invasão argentina não se estabelece e mais um dia com chuva e sem bola se esvai, o papo rolou solto:
- Tá resolvido! Em vez daqueles alemõeszões demolidores, a Fifa vai por o Flamengo pra jogar com os argentinos.
O anúncio, com pompa, ao fim da oitava rodada de chope, nem causou espécie. Ao contrário, granjeou simpatia entre os demais torcedores e correu de boca em boca como fato relevante do dia.
Argumentos a favor não faltaram:
- Ninguém vai perceber... Até as camisas dos dois times são iguais...
- Assim a Dilma não vai precisar sustar aquele cheque usado pra comprar o caneco...
Um torcedor ainda chateado, pote até aqui de mágoa com o selecionado do Felipão, quase põe tudo a perder:
- Uma ideia assim vai ter apoio até do papa titular...
Foi quando alguém se lembrou que seria mesmo dar muito mole aos argentinos, já que o próprio Fla, por aqui, não anda tão bem das pernas.
Mas já não importava.
A notícia caiu como bomba entre os desavisados de Copacabana. A nova versão, enriquecida, dizia até que a turma do Blatter adotou a proposta, mas com uma condição:
- Será uma exceção, dadas as circunstâncias. Mas não vão querer se acostumar, hein...
Segundo essa versão, os alemães seriam, no caso, mandados a Brasília, podendo ir à forra com os holandeses, e resolverem de vez por todas quem é que manda, afinal, naquele pedaço europeu da bola. Com isso, até a seleção do Felipão vai acabar se dando bem. Vai poder, por exemplo, sair de fininho e livrar a cara de novo vexame. Além do mais, ainda vai servir de castigo, pros alemães aprenderem que não se dá sova nos da casa e sair impune.
Até o fechamento destas linhas, não se sabia se o alarido originado nas areias de Copa chegou a ser levado a sério nas altas rodas da Fifa e se houve reação internacional. O que se sabe é que, desde então, o Calçadão de Copacabana virou QG da turma rubro-negra. Camisetas, bandeiras e adereços do querido Clube de Regatas Flamengo, em tons e nuances variados do vermelho e do preto, podem ser vistos nos bangalôs e nas ruas e vielas da Princesinha do Mar.
O alemão que passou pedalando sua laranjinha no rumo do Arpoador parecia indiferente à conspiração. Tanto é que, entre um assobio e outro, cantalorava o hino de Benjor:
- Moro num um país tropical...
Mas os hits do dia em Copa eram, definitivamente, outros:
- Uma vez Flamengo, sempre Flamengo... - batia no peito o vendedor de camisas, que foi encontrar as peças em vermelho e preto no fundo do armário.
Pelo sim, pelo não, domingão estarão todos eles nas arquibancadas do Maraca e em lares de Norte a Sul torcendo, roendo unhas e empurrando seu glorioso rubro-negro pra frente e a Brazuca (ao que se sabe, por ora o único representante verde-amarelo no jogo), na direção de redes portenhas.
Serão todos Flamengo, desde criancinha.

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