Blog do Galeno Observatório do Livro e da Leitura

16 de outubro de 2018

Vítima de AVC escreve livro com movimentos oculares

Estado de Minas - 12/10/2014

No quintal, a jabuticabeira plantada por Renato Mariz Gonçalves, de 48 anos, e pela mulher, Sandra Issida Gonçalves, de 52, está pronta para a primeira floração. O filho Danilo, de 23 anos, cursa a faculdade de jogos digitais. Faltava ao analista de sistemas escrever um livro. Mas o feito que completaria a trilogia clássica só veio após um renascimento: Renato se tornou escritor depois de sofrer um acidente vascular cerebral (AVC) que o deixou sem movimentos nos braços e pernas, em março de 2011. A leveza que a vida tem e o AVC será lançado no próximo dia 27, em cerimônia na Biblioteca Pública Estadual Luiz de Bessa, na Praça da Liberdade, em Belo Horizonte. A atividade é parte da programação do dia mundial de combate à primeira causa de mortalidade no Brasil. “Deixa um pouco de mistério sobre o livro, senão as pessoas não compram”, brinca o autor.


O reconhecimento como escritor não passava pela cabeça de um dos melhores alunos do Instituto de Tecnologia da Aeronáutica ( ITA), em São José dos Campos (SP). Na época, as atenções de Renato estavam voltadas para a tecnologia de ponta. Hoje, são inovações desenvolvidas nos Estados Unidos que o permitem se comunicar, mesmo sem falar ou usar gestos. Renato se expressa por meio de movimentos da cabeça e dos olhos. Uma piscada para responder sim, duas para dizer não. Graças ao sensor ótico adaptado ao computador, ele consegue acionar o teclado com os olhos. Ao falar da obra que está no prelo, Renato não consegue conter a emoção. O semblante sereno dá lugar aos olhos marejados.

O livro conta o processo de superação diária sobre as limitações impostas pela falta de movimento nos membros superiores e inferiores. “Demorou muito, mas saiu. Sem ajuda da Raquel e da Sandra não seria possível”, escreve, no computador, referindo-se à esposa e à escritora e integrante da Academia Feminina Mineira de Letras Raquel Vilela, responsável por parte do relato. Janelas para a alma, as íris de Renato são também seu canal de comunicação com o mundo. “Apesar da limitação, a vida segue o mais próximo da normalidade. A pessoa precisa produzir e a comunicação é uma forma de ele ficar ativo”, pontua Sandra.

Por meio do olhar, ele escolhe letra por letra para formar palavras e frases. Com rapidez, responde a perguntas, faz piadas e descreve o processo de adaptação de alguém que estava no auge da carreira quando se viu fisicamente limitado devido às sequelas do AVC. Com fino senso de humor, Renato não perdeu a capacidade de brincar. Certo dia, escreveu na tela a palavra socorro, o que fez com que o enfermeiro viesse rapidamente saber o que estava ocorrendo. Era apenas uma brincadeira de quem não perdeu a alegria, apesar das limitações. “Agora, falo por meio desse trem”, diz o paulista, que veio para Minas para trabalhar em uma multinacional do ramo de siderurgia.

Em Lagoa Santa, a moradia da família recebeu rampas e adaptações em toda a casa e no quintal, para a circulação da cadeira de rodas motorizada. O assento da cadeira e o colchão da cama são infláveis, o que é essencial para movimentar o corpo de Renato e evitar ferimentos comuns em pessoas que passam muito tempo sem se mexer. Com essas adaptações, Renato consegue manter a autonomia. Não deixou de fazer tarefas domésticas, como ir ao supermercado, ou atividades de lazer, como visitar o Mercado Central em Belo Horizonte.

 Com um perfil pessoal no Facebook, Renato comenta fotos e bate papo com amigos. Não dispensa os DVDs de bandas de rock’n’roll e blues. Como ficou um pouco estrábico, teve de reduzir a leitura de livros. Para conseguir melhora no quadro de saúde, faz sessões diárias de fisioterapia e fonoaudiologia. “De segunda a segunda, não tenho folga”, conta. Cada resultado é muito comemorado por ele e os familiares. Em breve, ele, que se alimenta por meio de sonda, volta a fazê-lo por via oral.

SINTOMAS Diante do processo de readaptação pelo qual o marido passou, Sandra resolveu criar a Associação Mineira do AVC. A entidade divulga informações sobre modos de prevenção e, sobretudo, sobre como identificar os sintomas. A rapidez nesse diagnóstico pode evitar as complicações. No caso de Renato, ao voltar de uma viagem aos Estados Unidos, ele se queixou de uma dor de cabeça forte. Na época, pensou ser uma sinusite, mas já era um sinal. Os médicos só chegaram ao diagnóstico três dias depois dos primeiros sintomas. Dor de cabeça forte, fala enrolada, vômitos intensos e paralisia de parte do corpo podem indicar um derrame.

Aos primeiros sinais, a pessoa deve ser levada imediatamente ao hospital. Quando o diagnóstico é feito de maneira precoce, as chances de sequelas diminuem. Outra campo de atuação da associação é a defesa de internação humanizada, da universalização de tratamento neurológico e da reabilitação especializada, com fisioterapia e fonoaudiologia. De acordo com a Organização Mundial de AVC, cerca de 16 milhões de pessoas sofrem derrames em todo o mundo, sendo que 6 milhões morrem em decorrência do problema.

Trechos do livro "A leveza que a vida tem e o AVC"

"Minha artéria basilar estava entupindo e eu não estava fazendo nada para evitar! Artéria basilar eu não sei o que quer dizer exatamente, só sei que é uma importante fonte de irrigação do tronco encefálico. Desnecessário dizer que além disso eu estava fazendo tudo errado: sobrepeso, não me exercitava, comia porcaria, estresse etc."

"Foi na UTI que comecei a ver fantasmas. Mais tarde, um psicólogo me disse que isso era fruto de minha imaginação. Talvez, mas que eu escutava, escutava. Eram crianças que brincavam com bolas, eu as escutava quicando no chão."

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