Blog do Galeno Observatório do Livro e da Leitura

26 de setembro de 2017

A Rocinha na rua

Junior Rezende

Não é novidade para mim e nem para você que qualquer atividade criada ou desenvolvida em favela tende a ser ignorada, desrespeitada e desvalorizada, não é? Então, até pouco tempo atrás eu achava que esse quadro estava mudando mas sinto que me enganei. Não há de fato um tratamento digno para as ações culturais e para os agentes de cultura de comunidade ainda não. Não quero ser categórico, mas começo a crer que infelizmente muito do que é proposto pelo poder público para as favelas é só plataforma política para a época de eleição. Se trazem um serviço, passado um tempo o investimento é diluído, o orçamento é cortado, não repassam a verba: o projeto fecha.

Em junho de 2011, o ex-governador Sergio Cabral e seu sucessor, o atual governador, o Pezão, estiveram na favela entregando aos moradores o C4 – Biblioteca Parque da Rocinha. Não era exatamente o que nós moradores esperávamos, não era exatamente o que os atores sociais e culturais da Rocinha, que desde antes de eu e muitos de vocês tivessem nascido, incansavelmente lutavam para que houvesse na Rocinha um local para abrigar, capacitar e desenvolver atividades culturais e educacionais. Também não era nem o que o próprio governo propunha.

Dentro do projeto do C4 Biblioteca Parque da Rocinha, o ponto alto era um anfiteatro que foi entregue inacabado, sem acústica, aparelhagem básica de som e iluminação, sem assento para os moradores (ainda não tem), estúdio de som, horta comunitária… Ih, tanta coisa que eles mesmos disseram nas muitas reuniões chatíssimas (para os representantes que falavam, falavam, e os moradores, sem abertura de palavra, ouviam, ouviam) para entender as necessidades da comunidade e os interesses do Estado para este equipamento público.

O projeto foi entregue sem estar pronto, assim, toma aí está bagaça! Não houve uma verdadeira abertura do governo para entender o que os agentes de cultura da comunidade precisavam e nos deram o que achavam que a gente precisava: um trabalho feito nas coxas, mesmo.

Ainda assim, nós moradores demos nosso jeitinho para entender e saber utilizar o presente de grego. Somos adaptáveis. Fizemos de conta que entendemos os processos burocráticos, as demoras, fizemos de conta que acreditávamos nos prazos que davam para as salas funcionarem como deveriam, para que a construção do teatro fosse concluída… Era tudo que tínhamos, era melhor que nada.

Desde a sua inauguração, digo, entrega, o C4 BPR diminuiu os horários, enxugou o número de funcionários, reduziu os serviços prestados. Mesmo assim os funcionários tentavam, e eu digo isso porque tive a experiência de ser um deles, o que podiam para atender as necessidades de todo mundo. Mas era como enxugar gelo porque a Secretaria de Cultura sempre tratou o equipamento na Rocinha como a ovelha negra da família. Tudo era mais complicado, mais demorado.

Eis que vem a solução mágica daqueles que decidem por nós a nossa sorte: a Biblioteca faz parte de uma rede de bibliotecas parque de todo o estado do Rio de Janeiro, então, já que não temos culhão pra administrar e manter, vamos meter o problema nas mãos de uma OS (que quer dizer Organização Social, que é tipo ONG Organização Não Governamental, só que recebe grana direta do governo pra tocar as atividades que o governo pretende continuar e/ou melhorar, ou digo, não se responsabilizar diretamente) e o escolhido, o Instituto de Desenvolvimento e Gestão, o IDG, foi incumbido pra dar conta.

O IDG foi imperativo, não dialogou com nossa comunidade, quis padronizar tudo, ignorando que cada biblioteca, cada equipamento tem sua cara, sua realidade, e não abriu uma troca, demitiu funcionários e não recontratou outros, a merda foi grande e eles também não estavam dando conta. A Secretaria de Cultura, fez o que sempre faz, cagou mais em cima da merda feita, não repassou o financiamento para o IDG que, sufocando, diminuiu ainda mais os horários, restringiu os serviços e eu me pergunto porque cargas d’água isso acontece sempre na Rocinha inclusive. Finjo que não sei a resposta.

A Secretaria não conhece a realidade dos territórios, acha que entende as necessidades, não dialoga, dá o que acha que deve e quando vê que fez cagada, lava as mãos.

Um espaço que deveria funcionar das 10h/20h, de terça a domingo, agora só irá funcionar de 12h30/18h30, de terça a sexta. Único local do gênero numa comunidade que, em 2011, era maior que 92% dos municípios do pais inteiro. Tremenda falta é de respeito!

Resultado disto é um punhado de projetos sociais desabrigados, o público sem poder exercer o direito de usufruir do serviço, a cultura, na Rocinha, mais uma vez sem receber um tratamento digno. Somos atores, músicos, poetas, fotógrafos, dançarinos, entre muitos outros artistas e educadores que abrigam e desenvolvem sua arte e construção de conhecimento dentro das portas capengas da Biblioteca da Rocinha… desabrigados.

Me dirijo agora ao seu Luís Fernando do Pezão, governador do Rio de Janeiro, dona Eva Doris Rosental, secretaria do estado de cultura, e senhor Pedro Sotero, diretor executivo do Instituto de Desenvolvimento e Gestão, e pergunto:

Como é que é? Vamos botar a cara no sol, queridos. Que merda é esta?

(Publicado no Brasil 247)
*
Junior Rezende, ex-morador da Rocinha, é produtor cultural, ator, educador e escritor.

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