Blog do Galeno Observatório do Livro e da Leitura

23 de setembro de 2018

Saturação: o sonho do agente!

xx

Nicole Witt

Quem leu a minha coluna Diário de bordo sabe como são lotados os dias e as noites dos agentes durante as feiras de livro. Se falamos de Frankfurt, a maior de todas elas, a saturação da agenda é máxima. Pois bem, foi em meio deste tumulto todo em que consegui abrir um espaço entre dois encontros de trabalho no sábado para falar com uma simpática jornalista da Folha de S.Paulo que tinha pedido uma entrevista. A entrevista resultou em uma matéria intitulada Literatura brasileira está saturada no exterior, avalia agente literária alemã. Nas correrias de todos, gerou-se um mal-entendido que, pela delicadeza da temática, gostaria de esclarecer aqui.

A frase “criou-se a expectativa de que o interesse pela literatura do país permanecesse grande. Mas não foi o que aconteceu” não é exatamente o que disse. Vamos lá: nos anos anteriores a 2013, quando se soube que o Brasil seria país convidado de honra na Feira de Frankfurt e também em outras feiras do livro no mundo, criou-se uma expectativa grande. Esta expectativa se traduziu primeiro em um movimento de subida de vendas de direitos, chegando ao clímax durante a realização da feira, para depois descer (atenção: pequeno momento de saturação local e temporal relativa!) e logo subir outra vez.

Para os profissionais de setor, a questão mais interessante era saber qual seria o digamos “ponto médio” entre as subidas e descidas, qual seria o nível médio resultante da presença internacional da literatura brasileira nas feiras, a meio e a longo prazo. A esperança era que o nível de publicações se mantivesse um pouco mais alto do que tinha sido antes, e para ilustrar a situação, estando na Feira de Frankfurt e sendo eu alemã, recorri ao exemplo do meu país:

Vínhamos duma situação de realmente muito pouco interesse pela literatura brasileira durante mais duma década. Antes de 2013, esta situação mudou. A maioria das editoras alemãs, nestes últimos anos, costumam participar no “hype” da mídia a favor do país convidado de honra, e Brasil não foi a exceção. Traduziram-se 70 títulos na área da ficção, um recorde! Como consequência, o português foi, pela primeira vez, mencionado nas estatísticas sobre as línguas de procedência das traduções na Alemanha. Normalmente sempre figura em primeiro lugar o inglês com aproximadamente 70%, seguido por línguas como o francês, o francês, o sueco, etc. Mas em 2013, lá estava o português nomeado, quando em outros anos só podíamos imaginá-lo na triste categoria de “outras”. Naquela altura a percentagem foi de 1,7% - momento de satisfação e alegria!

Passado o evento, chegou-se a uma situação de saturação momentânea e relativa, porque muitas editoras editaram para o evento, e não para depois, porque infelizmente vivemos num mundo muito pautado nos eventos. A boa surpresa foi que mesmo assim se publicaram alguns títulos em 2014, por exemplo segundos livros de autores brasileiros que tinham sido publicados em 2013, e isto foi muito bom, um sinal muito animador!

Agora, na nossa luta por conseguir mais visibilidade à literatura brasileira no mundo, não se deve deixar de repetir o seguinte: será de uma importância enorme a continuidade do Programa de Apoio à Tradução da Fundação Biblioteca Nacional (FBN) para manter o interesse internacional pela literatura brasileira, porque nunca devemos esquecer-nos do contexto: a maioria das traduções nos mercados mundiais vêm do inglês. Trata-se dum fenômeno global, na Europa, no Brasil, no mundo inteiro. Para comprovar, basta dar uma olhada nas listas de livros mais vendidos. O que observo é que a gente saiu do poço. Durante muito tempo, havia uma grande falta de interesse pela literatura brasileira e hoje estou convencida de que estamos em um nível melhor do que estávamos antes de 2013. Uma amostra desta circunstância é também o fato que hoje em dia há mais agentes que se dedicam ao agenciamento de autores brasileiros, o que acho um ótimo sinal.

Claro que a gente não está satisfeita, há joias da literatura brasileira não publicadas ainda em muitos países onde gostaríamos de vê-las traduzidas. Não falta o potencial. Mas a tarefa de divulgação da literatura em língua portuguesa nunca foi fácil, e enquanto vivermos em um mundo dominado pela cultura anglo-saxã, nunca será. Mas também há sinais favoráveis. Parece, por exemplo, que os norte-americanos estão abrindo um pouco as suas portas, superando o famoso índice de 1% de traduções no seu país. Assim que seguimos em frente, com a paixão e paciência de sempre, vendo que os esforços de todos nós: autores, editores, tradutores, scouts, agentes, a FBN, e outros, nestes últimos anos sim estão mostrando um modesto efeito duradouro, e isto já é um sucesso.
A literatura brasileira tem ainda um longo percurso por recorrer - num mundo que está longe de sentir a saturação dela, mas que apenas começou a descobrir a grande contribuição que pode aportar!

(PublishNews - 09/11/2015)

*

Nicole Witt é alemã e agente literária. Desde 1982, sua agência, a Literary Agency Mertin, na Alemanha, trabalha com literatura internacional, especialmente em português e espanhol. Adriana Falcão, Rodrigo Lacerda, José Eduardo Agualusa, Carlos Drummond de Andrade, Rachel de Queiroz, Graciliano Ramos e Mia Couto são alguns dos autores que ela representa.

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