Blog do Galeno Observatório do Livro e da Leitura

16 de outubro de 2018

Presidente da Câmara Mineira do Livro defende valorização da autoria

Leida Reis - Hoje em Dia - 11/04/2016

Ela preside a Câmara Mineira de Livros, é editora, escritora, contadora de histórias e trabalha com formação de mediadores de leitura em várias partes do Brasil. Apaixonada pela literatura, Rosana Mont’alverne defende políticas públicas mais eficazes de formação de professores como incentivadores da leitura e tem livros em todos os cômodos da casa. Para ela, mesmo os eventos literários focados na comercialização das obras acabam formando novos leitores. Rosana destaca os debates e a valorização da autoria na programação da Bienal do Livro Minas de 2016, no Expominas, com apoio da Câmara.

O caráter comercial das bienais de livro é recorrentemente criticado. O evento, realizado pela Fagga, em parceira com a Câmara Mineira do Livro, tenta fugir disso?

Embora o modelo das bienais seja questionado, ele tem um lado bom. No nosso país, precisamos do máximo destaque para o livro, pois 60% da população não lê nenhum livro ao longo do ano. Em Minas, há regiões, como a de Poços de Caldas e a de Juiz de Fora, em que se lê mais, enquanto em outras, a leitura é quase nula. A Bienal atrai um público muito grande e tem espaço físico suficiente para aqueles autores que, sem entrar no mérito da qualidade das obras, atraem milhares de fãs. E essa edição está com uma programação excelente que discute o livro e o autor.

Falando em qualidade, é comum livros vendidos a baixo preço que sequer trazem o nome do autor na capa, não é?

A questão da autoria é muito importante para o mercado editorial. Temos montanhas de livros chegando da China, a que chamamos de “xing ling” e que não têm o nome do autor, não veicula conteúdo interessante. O papel é bom e o visual atrai a criança. Esses livros, com histórias recicladas, estão nas livrarias, competindo com nossos livros autorais. Enfrentamos a questão do preço, pois são muito baratos. Um projeto gráfico refinado, principalmente no livro infantil que precisa ser bonito e atrativo, encarece o preço de venda. Como representante dos livreiros e editoras de Minas, vejo que essa é uma concorrência desleal para nós. Como autora e contadora de histórias me preocupo com o prejuízo para a formação do leitor.

Há um esforço maior da programação da Bienal na discussão da literatura de qualidade?

Na Bienal as pessoas têm contato direto com o autor, pegam autógrafos, os ouvem nas mesas de debate. Além do Café Literário, o evento abriga o Beagalê, um seminário para bibliotecários e professores. O Quintal de Histórias é o palco infantil que homenageia Manoel de Barros e o espaço Geek e de Quadrinhos é para onde vão os jovens. Teremos uma palestra do curador Ricardo Pereira para os bibliotecários do município de BH e ainda os lançamentos nas editoras. A própria Câmara Mineira do Livro abriu espaço para lançamento dos independentes. A ‘bibliodiversidade’ na Bienal existe para o bem e para o mal. O bom da Bienal é abraçar todo mundo. Querendo ou não, a literatura mais comercial puxa o leitor, dá a mão para ele.

Hoje vivemos um boom de eventos literários. Quais são os principais de Minas?

A Bienal abre a temporada, depois vem a Flipoços (começa dia 30 deste mês) e, em maio, o Salão do Vale do Aço. Em junho, a Festa Literária de Sabará, o Encontro Literário do Cerrado (em Uberlândia). Em agosto, a de Divinópolis. Em novembro, o Fórum das Letras e o Fliaraxá. Em setembro teremos a Primavera dos Livros na Praça da Liberdade e, em outubro, o Salão do Livro Infantil e Juvenil, com alcance latino-americano.

Além do baixo índice de leitura do brasileiro, estamos numa crise em que se corta até o básico. Livrarias fecham e o preço do livro permanece alto para a maioria.

Nessa hora é que eu vejo que os eventos literários precisam ser apoiados. É o momento em que se anda entre livros, se ouve histórias em voz alta, se discute o livro. As políticas públicas são fundamentais. O governo do Estado tem apoiado os eventos com o vale-livro para os estudantes da rede pública. Na Bienal o valor será de R$ 20, distribuído para 15 mil estudantes e 1.500 professores. Para estes, o valor é de R$ 50. A Prefeitura de Belo Horizonte também distribuirá o vale-livro. É bacana porque a criança e o adolescente aprende a escolher o livro, compartilha com os pais, troca com os colegas. As editoras aguardam também as compras previstas no edital do Catálogo de Autorias para a Diversidade. São livros para as bibliotecas do Estado. Em nível nacional, o problema é a interrupção das compras pelo Programa Nacional Biblioteca da Escola (PNBE) por causa do contingenciamento do orçamento da União. Uma editora daqui já mandou imprimir grande quantidade de livros, gastou dinheiro e não recebeu.

Governos deveriam ter políticas mais eficazes para transformar o professor em leitor, já que muitos não o são?

Não teremos a criança envolvida com o livro se o professor não for leitor. É urgente a formação do professor e do bibliotecário como mediador de leitura. O que se constatou em pesquisa é que muitos dos acervos que vão para as escolas não saem da caixa. A professora Cidinha Paiva, da UFMG, publicou um livro chamado “Literatura Fora da Caixa”, com orientações e projetos para fazer essa literatura circular entre as crianças. Claro que alguns professores fazem um belo trabalho, pesquisam, dramatizam, dão espaço para o aluno falar da leitura que ele fez da obra. Se a gente quer dar um salto de qualidade está na hora de sentar com professores de todas as disciplinas para que eles sejam mediadores de leitura. A literatura tem que estar em todas as disciplinas, tornando-as agradáveis, lúdicas. Se o aluno tem que ler tantos capítulos de química, porque não ler a história dos químicos?

Por que em Minas poucas editoras apostam na literatura de adulto?
O fato é que é muito difícil sobreviver no mercado editorial. Você não entra para ganhar dinheiro, entra pela paixão.

Como nasceu sua paixão pelos livros?

Embora meus pais não tivessem curso superior, liam muito. Meu pai era o único na rua que comprava enciclopédias. Aos 10 anos eu já era paga por vizinhos para ajudar crianças menores nos trabalhos de escola. Minha mãe amava literatura e cinema, e eu herdei essa paixão. Dona Lia lia sem parar. Lembro-me dela com “Cem Anos de Solidão” e “Madame Bovary” debaixo do braço. Depois veio o encantamento com meus irmãos mais velhos empolgados com a política e a arte. Em 64 eu tinha 4 anos e meus irmãos eram de esquerda. Naquele clima de conspiração, de resistência, eles amavam a literatura e a música como modelos de resistência.

Como vê esse embate radical de ideias hoje?

Lembro do Florestan Fernandes, que dizia “contra a ideia da força, a força das ideias”. Hoje as pessoas estão muito iradas, com posições radicais em relação à política brasileira. Quando eu estudava no Estadual Central e no Instituto de Educação, os professores discutiam política o tempo inteiro. Ganhei concurso de literatura no Colégio Estadual Central com o tema “A Mentira”, quando o general João Batista Figueiredo era o presidente. Muita gente escreveu sobre a psicologia; eu disse que a mentira vinha a cavalo e o general, todos sabem, usava cavalo.

De que forma a literatura pode nos ajudar a sair do radicalismo político?

Em qualquer instituição, família, emprego, igreja, escola, universidade, temos sempre o embate entre o controle e o imaginário. Há sempre alguém puxando o cabresto, querendo controlar. O que ninguém nunca conseguirá tirar da gente, a menos que se faça lobotomia, chama-se imaginação, o território livre do espírito humano. Quem trabalha com livro sabe o poder que as histórias têm, é um poder curativo, é a “biblioterapia”. Quantas vezes o livro vem te dar a mão? Fiz um trabalho de contação de histórias na Apac de Itaúna, com “A Hora e a Vez de Augusto Matraga”, conto de Guimarães Rosa, foi uma revelação para os detentos. Eles nunca mais esquecerão essa história.

Contar uma história é uma tradição que ainda serve de incentivo ao leitor?

Gosto de contar o livro antes, do meu jeito. Não gosto de decorar. Depois que eu conto a história, pego o livro, e lemos juntos. Eles ficam doidos, porque já contei a história. Fiz isso com meus filhos, com alunos também, mas não conto o final da história.

Então a tradição oral é tão importante quanto a escrita?

A imaginação da criança é tão sensacional que ela cria o tempo próprio para as histórias, para o jogo, a brincadeira. Ela fala assim: “Vamos brincar? Eu era a mãe, você era o pai, você era a criança”. A brincadeira é no presente e ela diz “eu era”. Chico Buarque é tão genial que usou a linguagem de criança quando compôs “Agora eu era o herói, e o meu cavalo só falava inglês”. Nem presente, nem passado nem futuro. Elas intuem. É lindo esse tempo suspenso. Se o adulto consegue entrar nesse tempo a criança se diverte muito. Muitas professoras falam que as crianças são ruidosas, dispersas, e eu digo: vocês experimentaram contar uma história? O Mia Couto, que sendo africano sabe do valor das histórias, fala que a literatura chega primeiro pela voz. Vou lembrar também o pesquisador potiguar Câmara Cascudo, para quem a tradição oral é o primeiro leite intelectual do brasileiro. Essa literatura é tão valiosa que o governo alemão financiou os Irmãos Green para colocar as histórias orais no papel porque buscava fortalecer a identidade do povo.

O livro digital ameaça o mercado do livro de papel?

Acredito que não. As editoras mineiras produzem muito pouco e-book porque as vendas são irrisórias, representando só 2% do total. A experiência sensorial é muito maior, um livro de papel não é só um texto. Talvez isso combine com o brasileiro, da gente ser mais ensolarada e preferir o papel.

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