Blog do Galeno Observatório do Livro e da Leitura

15 de agosto de 2018

Um livro digital para 700 mil leitores!

André Palme

Aqui vai um alerta de textão: como vou apresentar um case na prática, este artigo é um pouco mais comprido do que o habitual.
Nos últimos artigos, falei sobre alguns conceitos da leitura digital, do comportamento mobile e de como os conteúdos podem ser otimizados para a leitura na tela.
Então, só pra recordar: você usa seu smartphone 150 vezes por dia, em sessões de em média 2 minutos… os chamados micromomentos. Para os micromomentos, temos as micronarrativas: conteúdos para serem consumidos e concluídos nestes poucos minutos. Estes conteúdos podem ser seu produto (obra) em si, ou um texto que você utiliza como isca para atrair o leitor.
Falei também, no mesmo artigo, que segundo o Think with Google, o universo digital é a principal fonte de consumo de conteúdo para 72% das pessoas no Brasil; se pensarmos nos jovens entre 18 – 35 anos esse número sobre para 96%.
O universo digital pode e deve ser usado como fonte de busca e engajamento com leitores e potenciais leitores, seja para vender um produto digital (e-book, audiobook), seja para fazer uma venda digital de um produto físico (livro físico). Ou seja, o universo digital não são só os produtos digitais, mas um ambiente onde as pessoas buscam informações para comprar, se entreter ou saber mais sobre algo.
Vamos então, para um exemplo prático de como distribuir conteúdo através do universo digital.
O Problema: um projeto, com histórias de 25 garis que trabalham nas ruas de São Paulo, com prefácio de Walcyr Carrasco e que se transformou em um livro físico com uma tiragem limitada a mil exemplares.
A missão: potencializar a entrega destas histórias, durante a Bienal do Livro de São Paulo e 2016. Isso tudo com uma solução que suportasse o fluxo de 700 mil pessoas em 10 dias de evento.
A Solução: um projeto que envolveu uma landing page mobile, um wi-fi dentro de um latão de lixo e as histórias para ler e ouvir no smartphone, no tablet e no computador.

1. A TIRAGEM FÍSICA
Tudo bem que mil exemplares não é uma tiragem tão pequena. Mas se considerarmos os patrocinadores do projeto, os funcionários da empresa, os próprios garis que escreveram as histórias e suas famílias e outros presenteados de diversas áreas, este número se esgota bem rápido. A partir daí, o que fazer? Como entregar estas histórias para mais gente?
Vamos considerar que quiséssemos entregar estas histórias para 10% dos visitantes da Bienal: seriam 70 mil exemplares!!!!!! Uma missão (quase) impossível.

2. A LANDING PAGE
A partir deste momento, começa a entrar em cena o digital. Porque uma mesma cópia pode servir a milhares de pessoas, sem gerar um custo adicional por distribuição ou visualização.
Então foi feito o seguinte: em cada livro físico, foi impresso na quarta capa a seguinte mensagem: “baixe e compartilhe as versões digitais em: www.storybox.com.br/bienaldolivrosp” (a landing page ainda pode ser acessada)
Este foi o primeiro passo para começarmos a expandir o potencial de entrega deste livro. Todos que receberam o exemplar físico tiveram acesso ao link para ler e compartilhar as versões digitais do livro.
Esta é a landing page do livro, que segue o mesmo projeto gráfico, otimizado para a visualização e acesso mobile.
A landing page permitiu que quem recebesse o livro físico pudesse ter acesso ao conteúdo digital e compartilhasse isso em suas redes sociais, por e-mail, por whatsapp… do jeito que achasse melhor. Isto transformou os mil exemplares em grandes divulgadores do conteúdo, porque o acesso à informação não estava mais restrita a quem estivesse com o exemplar físico em mãos.

3. O CONTEÚDO DIGITAL
Como a ideia principal de nossa participação era democratizar e ampliar o acesso ao maior número de pessoas através do digital, disponibilizamos o conteúdo em dois formatos: texto e áudio. O texto foi colocado de duas maneiras: uma versão mais leve (para leitura online) e outra versão com imagens (para download e compartilhamento). Vale a pena dizer aqui que esta solução foi pensada para que qualquer leitor, com aparelhos mais simples ou mais modernos pudesse ter acesso ao conteúdo.
As histórias podiam ser lidas de maneira individual, com um link que levava direto a cada uma delas. Curtas e para serem consumidas em poucos minutos.
Para o áudio fizemos a seguinte opção: as histórias foram colocadas individualmente, para que pudessem ser ouvidas de maneira independente. Além disso, histórias de mulheres foram narradas por vozes femininas e histórias de homens narradas por vozes masculinas.
O áudio foi parte importante da estratégia por dois motivos: diversidade de oferta do conteúdo e acessibilidade. Diversidade porque a proposta aqui era entregar o conteúdo nas mais variadas formas para que o leitor escolhesse como consumir as histórias. Acessibilidade porque, dessa maneira, pudemos disponibilizar as histórias por exemplo, para deficientes visuais.

4. O WI-FI NO LATÃO DE LIXO
Ok, landing page no ar com todo o conteúdo.
Mas como fazer com que os leitores da Bienal do Livro de São Paulo tivessem acesso a ela, já que o evento não tem wi-fi grátis e nem sempre o plano de dados funciona (muita gente em uma área com poucas antenas das operadoras)?
Unimos um objeto de trabalho dos garis, o latão de lixo, a uma tecnologia que poderia dar acesso ao conteúdo a todos que estivessem com um device na mão, o wi-fi.
Disponibilizamos uma rede wi-fi local, chamada BIENALDOLIVROSP, aberta e gratuita, para acesso ao conteúdo da landing page. Ao se conectar a esta rede, a landing page automaticamente se abria e você podia escolher quais histórias ler ou ouvir.
Novamente, tudo pensado para atingir todos os níveis de aparelhos, dos mais simples aos mais modernos. Tudo ali, na palma da mão de quem estivesse no evento.
Este case uniu as principais questões que sempre trago em meus artigos sobre o universo do conteúdo digital:
- O digital como ferramenta para levar conteúdos para mais gente;
- As histórias disponibilizadas nos mais variados formatos, para dar ao leitor o direito de escolha de como consumi-lo;
- Os conteúdos seguindo a tendência de consumo de conteúdo digital: pensados para os micromomentos. Ou seja, consumidos e concluídos em poucos minutos, ou como iscas para uma leitura mais longa;
- As histórias na palma da mão dos leitores, o tempo todo;
- O digital ajudando na divulgação de um livro físico (sim, isso é possível e deveria ser mais utilizado).
A ideia aqui foi mostrar algumas das possibilidades do digital e o quanto este universo pode ser explorado como um grande difusor de conteúdo, promotor da leitura e da venda de livros (sejam eles digitais ou físicos).

(Publishnews - 03/11/2016)

((as imagens deste artigo estão neste link))


*

André Palme é sócio da Kappamakki, uma empresa que conecta histórias e pessoas no mundo digital para uma audiência mensal de um milhão de pessoas e está presente em modelos inovadores de leitura. Integra a comissão do livro digital da CBL e é co-organizador do Congresso Internacional do Livro Digital. Membro do coletivo de editores digitais AED, foi o primeiro embaixador do Business Club da Feira do Livro de Frankfurt no Brasil. Apaixonado por leitura digital e tecnologia, André torce para a bateria do celular não acabar nunca.

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