Blog do Galeno Observatório do Livro e da Leitura

25 de novembro de 2017

A geração de leitores digitais em uma Cuba 'off-line'

Jornal de Santa Catarina - 17/02/2017

Ainda sem livrarias atualizadas e com acesso restrito à internet, os jovens cubanos estão lendo o que querem, e talvez mais do que o Estado pensa - mas não em papel. Como foi possível entrar no mundo da leitura digital em um país praticamente "off-line"?

Como gerações passadas de cubanos, eles estão criando redes de intercâmbio de textos, vídeos e notícias, com uma característica: agora os armazenam e os fazem circular em HDs ou pen drives.

O Estado socialista controla a impressão e a internet, que além de limitada (só um terço da população, de 11,2 milhões de habitantes, tem acesso ao serviço) é cara (1,5 dólar por hora).

Apesar das restrições, Javier Peña lê a literatura anglo-saxã do seu gosto. Este tradutor "freelance" de 27 anos fala com orgulho dos seus milhares de títulos digitalizados e da biblioteca física de centenas de volumes que montou.

"Sempre que alguém chega à minha casa com um disco duro me diz: 'o que você tem aí para copiar para mim?' E eu pergunto a mesma coisa", diz Peña à AFP.

Peña, que em troca de literatura ou artigos em inglês oferece sua coleção digital de "comics americanos", afirma que em Cuba se impôs a "teoria anarquista da informação". "O importante é que alguém a tenha", mesmo que não pague por ela.

As redes não são novas. Até alguns anos atrás, quando um artista era censurado em Cuba, por homossexualismo ou "desvio ideológico", um só exemplar da sua obra circulava de mão em mão entre centenas de pessoas.

Bibliotecas em desuso

Neus Pechero, uma estudante de letras de 20 anos, fã de literatura americana, recorre à troca digital, embora prefira os impressos.

"Todos nós temos celulares capazes de intercambiar informações através do 'zapya'", aponta. Esta ferramenta sem conexão à internet permite a transferência sem fio de arquivos entre usuários a curta distância.

Taimí López, de 12 anos, utiliza o mesmo sistema. Até 30 crianças da sua escola, calcula, podem compartilhar um conteúdo nos intervalos entre as aulas.

Assim, de telefone em telefone, circula hoje boa parte da leitura em Cuba, um país que na década de 1960 alcançou altos níveis de escolaridade.

Estudos oficiais estimam que a metade dos cubanos lê revistas e jornais, e 20%, dois livros por ano. Segundo um documento divulgado no Parlamento, 60% dos universitários leem em formato digital, e mais da metade já não frequenta bibliotecas.

O vice-presidente do Instituto Cubano do Livro, Edel Morales, estima que no final desta década 90% dos jovens estarão lendo em telas.

Mas o país, afetado desde 1962 pelo embargo americano, ainda aposta no impresso.

Pagar pelo gratuito?

Na maior fortaleza colonial das Américas, San Carlos de La Cabaña, se celebra a Feira Internacional do Livro de Havana. Uma legião de cubanos compram livros ao custo médio de 50 centavos de dólar cada.

Para esta edição foram impressos quatro milhões de exemplares de 700 títulos, enquanto os livros digitais não chegam a 200 por ano, afirma Morales.

Em declarações à AFP, Morales se mostra empenhado em que o Estado acompanhe "o crescimento do hábito de leitura" digital.

Em um pequeno estande, Mariana Saker, filóloga de 57 anos, oferece livros digitais, além de filmes e músicas em CDs. Há 15 anos a Citmatel, a empresa estatal em que trabalha, ingressou neste mundo.

Um cliente seleciona o título que quer em um computador "off-line", e baixa o arquivo em seu suporte digital por quase o mesmo preço que um impresso. O catálogo inclui 900 produtos, incluindo livros, em sua maioria de escritores cubanos.

Quem vai pagar pelo que pode conseguir grátis? "É um desafio que sem dúvida alguma vai ser vencido" aos poucos, aponta Saker.

"Tivemos alguns exemplos" de pessoas que começaram a "desfrutar" pagar pelos arquivos que baixam.

Ao mesmo tempo em que tenta alcançar a nova geração de leitores, Cuba enfrenta os desafios de ampliar o acesso à internet, destinar recursos para o pagamento de direitos autorais e oferecer suportes digitais de leitura.

Na ilha, é quase impossível conseguir dispositivos deste tipo, e leitores como Javier e Neus não gostam de ler textos longos no celular.

(AFP)

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