Blog do Galeno Observatório do Livro e da Leitura

17 de outubro de 2017

A edição digital na era móvel: África

Octavio Kulesz

Aqui apresentamos a terceira e última parte da série sobre a edição digital na África (a parte 1 está aqui, a parte 2 pode ser baixada deste link). O artigo analisa como as editoras se apropriam das novas tecnologias assim como o surgimento do audiolivro e da autopublicação, antes de concluir sobre as oportunidades, desafios e tendências que poderiam marcar a cena da edição digital africana no futuro.
As editoras africanas na era digital
Dos casos que tratamos anteriormente, parece evidente que as novas tecnologias podem ser úteis para as editoras, que poderiam encontrar aqui uma maneira de contornar as barreiras logísticas que têm afetado, historicamente, o desenvolvimento do livro na África. Sherif Bakr – diretor da empresa Al Arabi Publishing and Distributing e diretor da Associação de Editores Egípcios – destaca os benefícios que a tecnologia digital pode oferecer em termos de distribuição de conteúdo, particularmente dentro da região árabe:
“As tiragens de impressão aqui no Egito costumam ser de apenas mil exemplares por livro e geralmente tentamos vendê-los em um prazo de dois ou três anos. Se alguém quer comprar meu livro em algum local remoto em Marrocos, não vai conseguir. Agora, com o e-book, é possível. O mundo árabe é composto por cerca de 400 milhões de pessoas. Mesmo se chegarmos a 1%, significa uma audiência de quatro milhões, ou seja, um mercado que pode ser muito lucrativo”.
A editora Nacera Khiat – responsável pelo selo argelino Sédia – coincide com este diagnóstico e defende que os editores usem os celulares para incentivar a leitura entre os usuários mais jovens:
“O digital tem uma vantagem, e é que pode viajar livremente por todo o mundo (...). Em vez de reclamar que os jovens não leem, devemos oferecer a possibilidade de lerem de outra forma, nos suportes que mais utilizam – isto é, os celulares”.
As vantagens são igualmente visíveis para os editores da África subsaariana. Simon Ngigi, diretor de Longhorn – um selo fundado há mais de 50 anos em Nairóbi, com forte presença no mercado do livro escolar da África Oriental – observa:
“Acreditamos que nos próximos anos uma parcela cada vez maior da receita virá dos livros digitais. Quando oferecemos nossos textos em formato eletrônico, não ganha apenas nossa empresa, mas também os consumidores, já que o preço dos livros digitais muitas vezes representa a metade do preço correspondente aos livros impressos, o que significa uma economia importante.”
O editor nigeriano Sulaiman Adebowale, fundador de Amalion – editora com sede em Dakar que publica livros para um público pan-africano – também considera que o digital poderia levar a uma maior margem de lucro:
“Atualmente, os principais ganhadores na venda de livros físicos são os distribuidores, que retêm uma comissão de 60% ou 65%, da qual participam as livrarias. Se somarmos a isso o custo de envio e de gerenciamento de estoques, é claro que a margem de lucro das editoras é muito pequena. Agora, no ambiente digital, todos estes custos são muito menores. “[entrevista pessoal]
No entanto, também há razões para a prudência. Além dos obstáculos relacionados com a conectividade em todo o continente, para as editoras podem aparecer outros desafios. O editor Serge Kouam – diretor do prestigioso selo de Camarões, Presses Universitaires d'Afrique – valoriza os benefícios do digital em termos de promoção dos textos, mas também é consciente dos riscos que podem surgir relacionados com a distribuição:
“Disponho da versão eletrônica de todas as obras que comercializo. Além disso, nossas práticas digitais estão muito subdesenvolvidas, por exemplo, no terreno da comunicação. No entanto, o medo da pirataria continua afetando a edição camaronesa: recebo muitas ofertas de agregadores e livrarias on-line, mas enviar os arquivos para esses atores continua a ser algo problemático. Sinceramente, prefiro manter os arquivos eu mesmo, em vez de me arriscar a um conflito com meus autores por algum eventual uso ilícito dos textos. Por enquanto, estou observando – inclusive se, tecnicamente, o digital representa um caminho possível”.
É dentro deste marco, caracterizado ao mesmo tempo por otimismo e cautela, que os selos africanos fazem suas explorações digitais. As editoras internacionais com presença local estão há um bom tempo trabalhando neste terreno, como ocorre com a Pearson África do Sul, que tem uma vasta oferta de e-books. Mas as empresas independentes avançaram nesse sentido. Além das editoras mencionadas antes – muitas das quais já vendem versões eletrônicas de seus textos –, podemos citar o caso do African Books Collective: fundado em 1985 com o objetivo de fortalecer a distribuição e promoção dos livros locais, este consórcio formado por 149 editoras de 24 países da África conformou um catálogo conjunto de 2.500 títulos, dos quais 800 são vendidos em formato digital –PDF, EPUB e MOBI.
Existem até mesmo editoras exclusivamente voltadas para os e-books, entre as quais se destaca Novas Edições Digitais Africanas (NENA, por sua sigla em francês). A iniciativa, lançada em 2006 em Dakar pelo empreendedor canadense-senegalês Marc-André Ledoux, começou a distribuir textos jurídicos em CD-ROM. Com a chegada dos tablets e dos e-readers, NENA diversificou seu catálogo e incorporou livros em formato EPUB, PDF e XHTML para o grande público. Hoje tem mais de 400 títulos de ensaios, romances e poesia, a maioria dos quais são autores africanos. Em 2014, Ledoux apresentou a Livraria Digital Africana (LNA), com o objetivo de comercializar os materiais não só da NENA, mas também de outras editoras da região. Por outro lado, a empresa oferece serviços de produção, conversão e distribuição de livros digitais. Questionado sobre as oportunidades e os obstáculos da edição digital na África, Ledoux explica:
“No momento, o grande desafio é convencer o conjunto das editoras africanas que passem para o digital. Há um potencial de vários milhões de títulos de escritores e escritoras locais. Imaginemos o dia em que todos esses títulos estiverem reunidos em um só lugar: nesse momento, os leitores interessados em temáticas relacionadas com a África necessariamente consultarão esse depósito e toda a literatura africana será realçada, em vez de ser perdida em meio aos excessos de oferta da Amazon ou da iBookstore – lojas nas quais essa literatura será sempre minoritária.”
Em 2014, a editora nigeriana Cassava Republic apresentou seu selo digital Ankara Press, dedicado à ficção romântica. Uma das principais razões que motivaram Bibi Bakare-Yusuf – responsável pelo projeto – a trabalhar com novas tecnologias é que essas ferramentas facilitam muito a distribuição, não só para chegar aos leitores do continente, mas também aos membros da diáspora africana que moram no resto do mundo. Os livros eletrônicos da Ankara Press são vendidos a menos de 3 dólares.
De Dakar, o projeto eBookAfrica oferece diversos textos em versão flip-book e em formato de áudio. A plataforma visa criar um ecossistema de conteúdo on-line – revistas digitais e materiais pedagógicos multimídia – em torno desses textos, com o objetivo de resgatar as línguas africanas e reconciliar a cultura oral com a escrita, graças às novas tecnologias.
Existe também um intenso movimento no campo das editoras de quadrinhos. O selo Leti Arts – criado pelos programadores de Gana, Eyram Tawia e Wesley Kirinya – propõe vários conteúdos baseados no folclore local, incluindo quadrinhos digitais como True Ananse (2012), que podem ser lidos em dispositivos móveis. Da Nigéria, Comic Republic criou um universo de super-heróis africanos – o mais famoso deles é Guardian Prime – cujas histórias podem ser baixadas gratuitamente, em formato PDF e CBR. A também nigeriana Youneek Studios desenvolve quadrinhos e livros transmídia, entre eles EXO, a lenda de Wale Williams – uma saga futurista ambientada na África em 2025 –, disponível para Kindle e iOS.
Por último, é preciso afirmar que a questão digital ganha espaço nas feiras do livro. O tema da 18ª Feira Internacional do Livro de Nairóbi (2015) foi “Twende Digital”, que em suaíli significa “saltemos para o digital”. Outras feiras relevantes, como a da Argélia (SILA) também incorporaram a variável tecnológica nas discussões profissionais.
Audiolivros: um formato em crescimento
Além das editoras e plataformas que distribuem e-books, há cada vez mais projetos africanos que integram audiolivros em seu catálogo. A empresa nigeriana Talking Bookz, por exemplo, alimentou um fundo de mais de 3.000 títulos – de autores africanos e internacionais – e pretende se tornar a maior loja na região.
Da mesma forma, em um continente no qual as tradições orais desempenharam historicamente um papel fundamental, surgem iniciativas de conservação e divulgação de textos locais em formato falado. Um caso interessante neste campo é Badilisha Poetry X Change: trata-se de um arquivo digital de poesia pan-africana que desde 2012 reúne as obras de mais de 350 poetas de 24 países.
Na África ainda encontramos fornecedores como AudioShelf que se dedicam à autoedição de audiolivros. Sob esse modelo, os autores podem contratar vários serviços relacionados com a criação e distribuição de suas obras em versão falada.
Autoedição e impressão sob demanda
Certamente, o negócio da autoedição cresce em todos os formatos. A plataforma nigeriana Okadabooks, por exemplo, conseguiu reunir mais de 8.000 e-books – 90% dos quais são de consulta gratuita – escritos por autores de vários países, que podem ser baixados de um portal adaptado para celulares. Na África do Sul, entre as muitas empresas que fazem parte do setor da autoedição, poderíamos mencionar o caso da MyeBook, que oferece serviços de conversão, edição e marketing a autores africanos interessados em distribuir seus textos globalmente, e Porcupine Press, que trabalha tanto com ebooks como com impressão sob demanda e que se apresenta como o principal selo de autopublicação do país.
No terreno da impressão sob demanda, é preciso notar que apesar de existirem na região vários fornecedores que produzem pequenas tiragens, a fabricação de exemplares na modalidade 1 a 1 ainda não atingiu a solidez comercial necessária para se sustentar. Este problema – somado à difícil conjuntura econômica local – resultou em agosto de 2016 no fechamento da plataforma MegaBooks e de sua controladora, MegaDigital, após mais de duas décadas de presença no mercado de livros sul-africano.
Um olhar para o futuro
Os casos e testemunhos tratados aqui parecem indicar que o ecossistema da edição digital africana possui características própria e apresenta áreas de grande dinamismo. Em primeiro lugar, os celulares – componente chave da economia digital do continente – se tornaram uma plataforma obrigatória para a distribuição de publicações de todo tipo. Da mesma forma, os esforços feitos por várias entidades sem fins lucrativos ajudaram a expandir a base de leitores. Por outro lado, muitos empreendimentos de base tecnológica acrescentaram uma forte dose de inovação ao mercado de conteúdo educacional, ao mesmo tempo em que muitas editoras comercializam seus textos em formato eletrônico para chegar a um público mais amplo, tanto local quanto internacional.
De fato, o ritmo das mudanças poderia aumentar dependendo do que acontecer no setor educacional. Vários países africanos estão investindo muito em infraestrutura tecnológica para escolas e universidades. O Quênia, por exemplo, planeja entregar 1,2 milhão de dispositivos eletrônicos para instituições públicas até o final de 2017: o conteúdo será obtido de várias fontes, incluindo as editoras locais. Ao mesmo tempo, o setor público destina consideráveis recursos para a construção de arquivos e bibliotecas on-line, em muitos casos articulados com os programas nacionais de educação, como ocorre em Angola, Egito, Nigéria, Ruanda e África do Sul. Neste contexto, o trabalho conjunto entre start-ups e editoras poderia ser bastante útil.
Assim, as oportunidades da era digital para a edição na África são inegáveis. Mas os desafios são igualmente visíveis. Embora os celulares permitem evitar um bom número de obstáculos relacionados com o acesso – particularmente a escassez de conexões de banda larga fixa –, a penetração da Internet móvel na África continua sendo baixa em comparação com outras partes do mundo. Além disso, as iniciativas filantrópicas direta ou indiretamente apoiadas pelas gigantes globais de tecnologia podem proporcionar alívio no curto prazo, mas também representam um risco para a neutralidade da web e para a autonomia do ecossistema cultural africano. Por outro lado, os projetos sem fins lucrativos realizados por entidades de promoção da leitura locais que dependem de doações – seja de conteúdo ou de dispositivos – dificilmente poderiam ser sustentáveis no tempo.
Neste contexto, para desenvolver a edição digital africana continuará a ser necessário apostar de todas as formas possíveis na construção de um mercado – local e internacional – viável. Enquanto a tarefa de melhorar o acesso e a infraestrutura de pagamentos eletrônicos vai recair principalmente sobre o setor público, os outros atores da cadeia – editores, escritores, lojas online, agregadores, organizações sem fins lucrativos, start-ups, incubadoras, entre outros – precisarão enfrentar o desafio de trabalhar em rede e formar uma indústria que seja a mais integradora possível.
Este artigo foi publicado originalmente no site da Aliança Internacional de Editores Independentes.

(Publishnews - 13/04/2017)


*

Octavio Kulesz é formado em Filosofia pela Universidade de Buenos Aires e atualmente dirige a Teseo, uma das principais editoras digitais acadêmicas da Argentina. Em 2010, criou a rede Digital Minds Network, junto com Ramy Habeeb (do Egito) e Arthur Attwell (da África do Sul), com o objetivo de estimular o surgimento de projetos eletrônicos em mercados emergentes. Em 2011, escreveu o renomado estudo La edición digital en los países en desarrollo, com apoio da Aliança Internacional de Editores Independentes e da Fundação Prince Claus. Sua coluna busca apresentar um panorama dos principais avanços da edição eletrônica nos países em desenvolvimento. Tablets latino-americanos, leitura em celulares na África, revoluções de redes sociais no mundo árabe, titãs do hardware russos, softwares de última geração na Índia e colossos digitais chineses: a edição digital no Sul mostra um dinamismo tanto acelerado quanto surpreendente.

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