Blog do Galeno Observatório do Livro e da Leitura

29 de abril de 2017

'As pessoas têm o controle de sua vida quando leem', diz professora jordaniana

Carla Bittencourt - A Tarde - 10/04/2017

Quando os filhos de Rana Dajani, 48, eram crianças, a Jordânia era um país com poucas bibliotecas, onde cada cidadão lia, em média, meia página de livro por ano, se não fosse obrigado a fazer isso na escola ou no trabalho. Foi nesse contexto que a bióloga e professora da Universidade de Hashemite, em Zarqa, decidiu que leria em voz alta não apenas para seus meninos, mas para todos os outros. O projeto era que cada bairro tivesse, ao menos, uma biblioteca. Rana fez a primeira roda de leitura em uma mesquita, com livros comprados com desconto e dinheiro de doações. Também foram doadas as fantasias e brinquedos que ela usou para contar três histórias a 25 crianças. Oito anos depois, o programa We Love Reading (Nós Amamos Ler) deixou de ser a ideia de uma pessoa para se tornar um movimento social, premiado diversas vezes e presente em 31 países, dos seus vizinhos, no Oriente Médio, aos nossos vizinhos, na Argentina. Já são 500 “bibliotecas vivas”, como a ativista define a estrutura simples em torno da qual voluntários, chamados de embaixadores, leem para crianças, incluindo as que vivem em campos de refugiados, sejam os sírios, na Jordânia, ou os sul-sudaneses, somalis e eriteus, na Etiópia. Encontramos Rana em março, no Dart Center, núcleo de pesquisa da Universidade de Colúmbia, em Nova Iorque, que estuda a relação entre jornalismo e trauma. Lá, a professora apresentou o WLR a 45 jornalistas de 26 países, em seminário que discutiu a primeira infância como base do desenvolvimento humano. Estendemos nosso encontro por uma troca de e-mails e o resultado é esta entrevista, na qual ela fala à Muito também sobre a situação de crianças sírias no Brasil, para onde pretende expandir seu projeto. Nas escolas brasileiras, meninos fugidos da guerra têm sido, equivocadamente, diagnosticados com autismo.

Em suas pesquisas, a senhora observou que, na Jordânia, as crianças não liam por prazer, mas porque recebiam essa demanda da escola ou por motivos religiosos. Como chegou a essas informações?

Eu tive acesso a estudos locais, de 2005, nos quais o número de livros lidos por prazer e não por obrigação era metade de uma página por ano por pessoa. Um dado mais recente, de 2016, do Índice Árabe de Conhecimento, mostra que a média de leitura pela mesma razão nos 22 países árabes passou a ser de nove livros por ano por pessoa. Esse índice, resultado da parceria entre o Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento e a Fundação Mohammed Bin Rashid Al Maktoum, foi obtido a partir de entrevistas com 145 mil pessoas e enfatiza a leitura como ferramenta básica na aquisição, troca e desenvolvimento do conhecimento.

Como superar o desafio de engajar crianças na leitura se os pais e outros adultos responsáveis por elas não têm esse hábito?

Nós treinamos adultos para ler em voz alta para as crianças. Cada um volta para a sua comunidade e começa esse trabalho com os meninos da vizinhança. Alguns dos adultos que treinamos são pais das crianças que participam das rodas de leitura. Isso, aliás, garante que toda a família se envolva. Todos apoiam os leitores quando eles começam a montar as próprias bibliotecas. Por isso, o impacto do We Love Reading não é só na criança ou no adulto, mas nas famílias e nas comunidades.

No que o recurso de ler em voz alta se diferencia de outras abordagens de estímulo à leitura?

Ler dessa forma é dar vida às palavras pela voz do leitor. A criança também estabelece uma conexão entre a voz do leitor e o texto, como uma fonte de prazer e diversão.

A senhora, que é cientista, decidiu implementar este projeto a partir de uma necessidade que sentiu como mãe, de ter mais bibliotecas na Jordânia, dada a ausência desses equipamentos culturais no país. Como o projeto evoluiu a partir desse ponto?

Eu percebi que ler por prazer era muito importante e descobri que, para estimular o gosto pela leitura, as pessoas precisam ler em voz alta para as suas crianças. Tenho quatro filhos, hoje já crescidos, e sempre li para eles. Mas passei a sentir responsabilidade em relação aos outros. Foi assim que comecei esse programa. Como muçulmana, sou responsável pela minha comunidade. O profeta Muhammad disse: “Todo mundo é um guardião”. Passei a ler em voz alta para todas as crianças, não só as minhas. Fiz isso por três anos. Então, um amigo me falou sobre um prêmio da Organização Synergos, para empreendedores sociais árabes. Eu me inscrevi e fui premiada. Usei esse dinheiro e reconhecimento para criar o We Love Reading.

A primeira sessão de leitura do WLR aconteceu numa mesquita, para 25 crianças, em 2006. Como foi esse dia? Que histórias foram lidas?

As crianças primeiro vieram porque os pais determinaram. Depois, elas se divertiam tanto que passaram a acordar às sete da manhã nos finais de semana só para isso. Na primeira sessão, contei a história de um menino que está em casa com a família, mas todos ocupados, ou cozinhando ou lendo jornal ou estudando. Ninguém dá atenção a ele. Então, esse menino, de seis anos, arruma a mochila para ir embora e sai andando lentamente quando a família faz uma festa-surpresa. Aí ele diz: “Outro dia eu fujo, então”. Também contei a história de duas meninas a quem a mãe dá um pedaço de pano para brincar. Elas começam a imaginar tudo o que o pano pode ser: uma tenda, um barco, um cobertor, um vestido, e assim vão criando histórias diferentes para o mesmo pedaço de tecido. Os temas das nossas sessões sempre partem do cotidiano das crianças e as histórias são contadas no idioma delas. Temos o cuidado de não escolher temas religiosos. Usamos livros da cultura local, que abordam questões como identidade e pertencimento.

We Love Reading inspira-se em iniciativas ocidentais de instalar bibliotecas em todos os bairros de uma cidade. A senhora afirma, porém, que o espaço físico é menos importante do que reunir os livros e as crianças em qualquer lugar. Que papel tem hoje a biblioteca no contexto do projeto?

Nos Estados Unidos, há uma biblioteca em cada bairro de uma cidade e os bibliotecários fazem rodas de leitura para as crianças. Em nossa parte do mundo e em muitos países em desenvolvimento, até há bibliotecas, mas não muitas. E, apesar disso, ninguém lê para as crianças. Eu fiz uma pesquisa e cheguei a esse entendimento, de que a chave para estabelecer o gosto pela leitura é simplesmente ler em voz alta, e foi o que comecei a fazer. Não se trata de ter ou não uma biblioteca, embora nossos voluntários, a quem chamamos de embaixadores, montem suas próprias bibliotecas, de forma independente. Também gosto de pensar que não foi o programa norte-americano que me inspirou, mas o meu background islâmico, que me incentivou a ser responsável e a aprender com as culturas ao meu redor como criar soluções para a minha comunidade.

A senhora dispensa formação acadêmica entre as pessoas que treina para fazer essas leituras. Quais os pré-requisitos para se engajar no projeto?

Basta ter amor pelas crianças e pelo voluntariado, saber ler um livro infantil na língua delas e viver na mesma vizinhança.

A maioria dos voluntários são mulheres, que se tornam líderes em suas comunidades, algumas delas passando a atuar como empreendedoras sociais. Foi intencional fazer esse recorte de gênero?

A maioria é mulher, mas temos alguns homens que participam, e o interesse deles está aumentando. Não foi intencional que ocorresse dessa maneira, apenas aconteceu.

Como é a experiência de realizar essas rodas de leitura em campos de refugiados?

Tem sido maravilhoso. O benefício, comparado a uma vizinhança normal, é sempre dez vezes maior. O impacto disso em crianças e adultos é fantástico. As crianças passam a ter algo útil para fazer e que, ainda por cima, é divertido. Já os adultos ganham um propósito e uma esperança. Quando a criança leva o livro para a mãe ler para ela, você está dando aos dois um meio para se comunicarem, o que vai ajudar pais e filhos a lidar com traumas.

A senhora contou que crianças de fora dos campos pediam aos pais que as levassem para lá, apenas para ouvir a contação de histórias. E que alguns meninos, que levam os livros do projeto para casa, copiam textos e ilustrações, construindo assim seus próprios livros. Que outros exemplos poderia nos trazer do envolvimento infantil com o projeto?

Um pai notou que sua filha desaparecia uma vez por semana, então, um dia, ele a seguiu e descobriu que ela estava indo para as sessões de leitura em Zaatari, campo de refugiados da Síria na Jordânia. Os empréstimos na biblioteca pública aumentaram cinco vezes depois que o programa foi introduzido no acampamento. Quando visitamos as mulheres e homens que treinamos, eles nos dizem: “Estamos lendo para nós mesmos, para as nossas crianças e para o nosso futuro”.

Em alguns desses campos, como Azraq, faltam água, luz, comida e estrutura básica de moradia. Como motivar a leitura nessa situação extrema?

A situação na Jordânia é muito dura. Mas as pessoas querem ler porque sabem que isso é o futuro para as suas crianças. Não há esperança dentro de um campo, e o WLR dá a eles uma razão para existir, para recuperar a dignidade. Quando eles estão lendo, não são mais vítimas e têm o controle de sua vida. As crianças podem sonhar e imaginar. Elas param de fazer desenhos violentos e começam a desenhar rostos sorridentes. O mesmo aconteceu na Etiópia, onde 40 adultos foram treinados e 36 bibliotecas abertas. Uma começou com duas crianças e hoje tem 300. As ONGs que atuam nos campos encerram as atividades às 16h. Os refugiados que trabalham nas bibliotecas do WLR fazem isso quando querem. Algumas vezes, meninas não vão para as atividades promovidas pelas ONGs por insegurança. Os embaixadores do WLR são refugiados e adultos, então eles sabem a hora e o lugar certos para essas meninas estarem. Se as ONGs podem deixar os campos por falta de financiamento, o WLR não para, porque é tocado por refugiados e voluntários. É algo sustentável.

Crianças sírias que estão vindo para o Brasil têm sido equivocadamente diagnosticadas como autistas em escolas daqui. Algumas chegam do campo de Zaatari, onde a senhora desenvolve o WLR. Elas vêm de um contexto de guerra, de uma cultura diferente e sem falar português. Em sua avaliação, qual o impacto disso para essas crianças?

Tudo é difícil para elas. Sorte que muitas ainda estão com os pais, que as amam e vão cuidar delas. A comunidade brasileira precisa se abrir para esses imigrantes, abraçá-los e ajudá-los a se sentir protegidos. Uma forma de fazer isso é lendo em voz alta para essas crianças. Elas então podem usar os livros como eu falei, como elementos de comunicação com os pais e cuidadores e, eventualmente, com outras crianças e membros da nova comunidade. A leitura pode começar na língua nativa delas e depois mudar para o português. É preciso sensibilizar professores e a comunidade local para os desafios que essas crianças enfrentam. Também diria aos pais que discutam com os professores as condições de seus filhos, para que nenhum diagnóstico errado seja feito novamente.

O que uma criança aprende ao ler por prazer e como isso influencia o adulto que ela vai se tornar?

O aprendizado da leitura é diversão. Para quando essas crianças crescerem, elas possam ter uma conexão inconsciente entre se sentir bem e ler. Portanto, elas sempre lerão. Quando uma pessoa lê, ela ganha habilidades e experiência das histórias e descobre como encontrar soluções para os próprios desafios.

We Love Reading já publicou dez livros infantis sobre temas como energia, água e manejo do lixo. Quem escreveu e desenhou essas histórias e como essas temáticas foram concebidas?

Foram escritores e ilustradores jordanianos. Nós desenvolvemos esses livrinhos porque queríamos mostrar que, por meio da leitura, você consegue mudar o comportamento das crianças. Depois das leituras, elas têm outra postura, ficam engajadas nessa mudança.

Como foi a sua relação com a leitura na infância?

Eu cresci com meu pai e minha mãe lendo para mim, sempre amei ler o tempo todo. É por isso que considero um crime contra a criança não permitir a ela o prazer da leitura.

Como o seu conhecimento de biologia molecular dialoga com esse projeto, de arte-educação?

A biologia molecular me ajuda a ser mais curiosa e a investigar por que as crianças não leem. Também me encoraja a realizar pesquisas. Como venho de outro campo, não trago opiniões preconcebidas ou inibições.

Hoje, o WLR está presente em 31 países, do Líbano ao México. O projeto adapta-se à realidade de cada lugar ou leva as referências do universo islâmico?

Quem implementa faz como quer, adaptando o necessário para a sua comunidade. O modelo é muito flexível. Nos EUA, ele foi adotado para unir a comunidade. No México, para preservar a língua e a cultura da população indígena.

A senhora pretende trazê-lo para o Brasil?

Sim! O WLR é um movimento para alcançar todas as crianças do mundo. Você pode fazer uma pequena mudança em sua vizinhança e o resultado ser imenso: tornar o mundo um lugar melhor para as próximas gerações.

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