Blog do Galeno Observatório do Livro e da Leitura

20 de novembro de 2017

Jane Austen, uma estrela de rock literária 200 anos após sua morte

Andrea Aguilar - El País - 15/07/2017


É possível pensar que a única “verdade universalmente reconhecida” sobre Jane Austen quase começa e termina na famosa frase do início do seu livro Orgulho e Preconceito, aquele pressuposto irrefutável de que “um homem solteiro com fortuna deve estar procurando uma esposa”. Dia 18 de julho comemora-se o bicentenário da morte da autora britânica aos 41 anos, uma escritora cuja fama póstuma e dedicados seguidores a transformaram em uma espécie de estrela de rock literária, um ícone cultural que desperta agitadas paixões. Seus leitores dedicados desenvolvem com ela uma intimidade peculiar e sentem um estranho esnobismo ou direito de propriedade que poderia ser resumido em um “não toquem na minha Jane” ou “esse bando de fãs bregas realmente não entende a obra dela”. O debate inflamado sobre a “leitura correta” das obras, sua popularização ou transformação em um produto pop e equivocadamente superficial, é algo tão clássico quanto as roupas de corte imperial que vestem suas heroínas nas recorrentes adaptações cinematográficas e televisivas de seus seis livros. Já disse Virginia Woolf que “qualquer pessoa que tiver a ousadia de escrever sobre Jane Austen é consciente de que há 25 homens idosos que vivem na cidade de Londres que se ressentem de qualquer dúvida sobre sua genialidade, como se fosse uma afronta à castidade de suas tias”.

A advertência dela não foi levada em conta. A grande quantidade de estudos e livros sobre a vida, obra, milagres, estilo, costumes, culinária e paisagens do universo de Austen foi e é imparável. A Grã-Bretanha imprimirá este ano notas de 10 libras com seu rosto; Winchester, em cuja catedral está enterrada a escritora; receberá uma grande exposição, e em espanhol aparecerão edições comemorativas de seus romances (por Alianza e Penguin Classics) e pela primeira vez a coleção completa de sua correspondência, Cartas (dÉpoca Editorial) e seus escritos de juventude, Amor e Amizade (Alba).

Mas o certo é que a brilhante, doméstica e criativa Jane logo se transformou em motivo de polêmica: citada como exemplo pelos parlamentares conservadores no século XIX em sua defesa das saudáveis tradições inglesas contra a ameaçadora modernização; apresentada como defensora das mulheres sufragistas; acusada de ser a criadora de estereótipos masculinos hiper heterossexuais. “Há outros escritores que pareçam tão vulneráveis a serem amados por tantas pessoas pelas razões erradas?”, já se lamentava Henry James em 1905.

Em Jane Austen, The Secret Radical (Jane Austen, a Radical Secreta), a acadêmica de Oxford, Helena Kelly, apresenta sua teoria sobre as razões que estão por trás da visão errada, inócua e popular da romancista, antes de reivindicar uma leitura mais profunda. Atenção ao contexto e ao puro texto, adverte Kelly no novo livro, que também foi lançado no calor do aniversário.

Nascida em dezembro de 1775 na pequena vila de Steventon em Hampshire, a sétima de oito filhos de um pastor, Jane passou cinco anos em Bath e três em Southampton, e, tirando os períodos de férias e visitas a parentes, viveu a maior parte de sua vida no condado onde nasceu. Nunca se casou. Entre o final de 1811 e 1815 publicou quatro romances (Razão e Sensibilidade, Orgulho e Preconceito, Mansfield Park e Emma); outros dois (A Abadia de Nothanger e Persuasão) saíram no final de 1817, cinco meses depois de sua morte, com um prólogo de seu irmão no qual apresentava a primeira nota biográfica. “Jane, de acordo com Henry, não se considerava uma autora, não tinha uma opinião elevada sobre seu trabalho e nunca achou que chegaria ao grande público. Depois de ceder à pressão de sua família, estava muito surpresa com o sucesso”, escreve Kelly. Talvez Henry tentava dissimular a necessidade de dinheiro e proteger sua irmã, além disso também escondeu que o primeiro manuscrito que ela vendeu nunca foi publicado.

Frente à insistência de que ela era devota e fiel seguidora dos princípios da igreja, a acadêmica repassa as tramas de seus romances nas quais os clérigos não têm vocação, e esgrime o tempo histórico em que foram escritas. Austen nasceu cinco anos depois do poeta romântico Wordsworth, um ano antes do início da guerra de independência nos EUA e tinha 13 anos quando começou a Revolução Francesa. Durante a maior parte de sua vida a Grã-Bretanha estava em guerra, era uma época de censura e vigilância por parte do Estado. Os romances de Austen – a única autora deste período que escrevia sobre seu tempo de modo realista – são tão revolucionários quanto os textos que levaram à perseguição de Thomas Paine, afirma a ensaísta, mas foram escritos com tanta arte que, a menos que o leitor esteja procurando no lugar certo, não conseguirá ver. “Jane não era um gênio que se movia por inspiração sem pensar; era uma artista que se comparava a um pintor de miniaturas; em seu trabalho cada pincelada, cada palavra, cada nome de cada personagem, cada verso citado é importante”, escreve Kelly, antes de mergulhar em como nos romances, aparentemente de costumes, há espaço para tratar a escravidão, os abusos sexuais, as teorias evolutivas e os direitos das mulheres. Os dramas leves em salões fabulosos escondem muito mais do que parece.

Talvez a afirmação mais extrema de Kelly seja que “os romances de Jane não são românticos”, algo que iria enfurecer milhões de fãs. Elas e eles são os Janeites, termo inventado por George Saintsbury em 1894 e que E.M. Foster confessou ser (e portanto ser “um pouco idiota”). A norte-americana Deborah Yaffe aborda este fenômeno Among the Janeites: A Journey Through The World of Jane Austen Fandom (Entre os Janeites: Uma viagem pelo mundo dos fãs de Jane Austen). “Houve um tempo em que se declarar fã de Austen significava que tinha um gosto refinado, a habilidade de desfrutar de uma ironia mordaz, e da caracterização sutil. Hoje provavelmente significa britânicos bonitos em calças de equitação”, escreve a jornalista, cuja investigação a levou a fã-clubes, a bailes de época ou a uma vila onde uma mulher superou uma ruptura conjugal escrevendo sequências para os romances de Jane.

Em The Making of Jane Austen (A Criação de Jane Austen), a professora da Universidade de Arizona, Devoney Looser, se refere às irmãs Hill – a escritora Constance e a ilustradora Ellen – como duas ilustres e visionárias Janeites que abriram caminho. O livro delas Jane Austen: her homes and friends, publicado em 1902, narrava um caminho de peregrinação através dos cenários da vida e obra de Austen. Embora no final da década de 1860 um sobrinho de Jane, filho de seu irmão mais velho James, começou a reunir material da família e escreveu Memórias de Jane Austen, – aí apareceu o apelido tia Jane, e Austen se transformou em uma espécie de tia universal anglo-saxã –, foram as Hill que delimitaram o caminho da obsessão compulsiva por se aproximar da escritora de Orgulho e Preconceito. “A invenção de Jane Austen foi e continua sendo uma extravagância bizarra, sem precedentes social, nem literária ou histórica”, diz Looser.

A verdade é que quatro anos após sua morte, Jane Austen já era colocada na altura de Shakespeare por Richard Whateley, arcebispo de Dublin. “Seu talento para a observação”, causou e causa sensação. Também o extraordinário uso do diálogo. Segundo o crítico James Wood do The New Yorker, ela é uma grande mestre e pioneira do discurso indireto livre. Mas é na veia teatral que Paula Byrne aprofunda na edição ampliada de The Genius of Jane Austen (A genialidade de Jane Austen) que acaba de sair. Encontra na paixão de Austen pelo teatro a chave para compreender sua obra. Ao longo de toda sua vida Jane participou em produções e montagens privadas de teatro, e ia ver obras com frequência. “A visão popular que temos dela é que era uma escritora só interessada em romances e casamentos. É claro que o casamento é o ponto e final tradicional das comédias, mas o que realmente interessa a Austen são os mal-entendidos e encontros incongruentes que acontecem pelo caminho, não o final feliz”, escreve.

As interpretações, obsessões e paixões pelo mundo de Austen parecem nunca acabar. Bom motivo para comemorar. Pois como adverte Emma: “Raramente, muito raramente a verdade completa faz parte de um intercâmbio; raramente algo não termina um pouco confuso ou disfarçado”.

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