Blog do Galeno Observatório do Livro e da Leitura

17 de outubro de 2017

Estou cansada de falar isso, mas quero registrar!

Camila Cabete

Nas últimas entrevistas que falei sobre livro digital, o futuro do mercado, a crise nas livrarias e a temida concorrência, tenho me colocado numa posição nada brilhante, a meu ver, nada complexa e muito menos competitiva.
Para começar, eu acho a competição o câncer do mundo. Qualquer uma, sim, inclusive nos esportes. Como praticante antiga (e bota antiga nisso) de judô, eu costumava competir obrigada, para manter as aulas que eram de graça na minha escola. E era um suplício. Nunca vi qualquer sentido naquilo. Depois eu cresci, dentro de um sistema extremamente competitivo na escola, faculdade, trabalho e nas relações.
Eu sei, você que me conheceu há muitos anos atrás, pode estar se perguntando, "mas ela era competitiva pra c%$#@". Fui e me arrependo enormemente. Competição não vale a pena, é destrutivo e nem pra joguinhos e esportes serve para mim. No trabalho, quando parei de competir, eu só aprendi. Quando eu resolvi que queria trabalhar somente com pessoas mais inteligentes e melhores do que eu, eu só ganhei, não só profissionalmente, mas também amigos para a vida toda. Acredito numa sociedade colaborativa. Você pode achar tudo isso que estou escrevendo um absurdo, hippie, mas mesmo assim quero deixar aqui registrado, que agora em 2017, penso desta forma.
Mas onde na minha coluna isso entraria? Não era para estar falando do digital, mercado blábláblá? Ora, isso tem tudo a ver com a minha forma de levar a minha vida. O terror e medo que uma empresa que não falarei qual é, mas todo mundo sabe, provoca é uma grande balela. Veja bem, a gente já sabe o que pode acontecer num mercado de competição, não é mesmo? Então, em vez de cometermos os mesmos erros, por que não mudar a tática? Partir para planos inclusivos e colaborativos?
Não sou a cabeça estratégica de empresa alguma. Como todo mundo sabe, sou chão de fábrica, e acho que, justamente por isso, me dou a liberdade de filosofar neste aspecto.
Minha visão de livreira digital é que, se alguma livraria digital vender muito, a gente vai acabar dividindo este mercado... é só fazer a lição de casa... Em vez de boicotar o coleguinha e se borrar de medo, fazer bem o seu trabalho sempre vai alcançar aquele cliente que é o seu perfil. Falo isso de um lugar confortável, pois as editoras assinaram um contrato que protegem o preço do livro digital. Mas por que não olhar o mundo fora do círculo vicioso da competitividade?
Não se engane. Esta minha visão não é nada Pollyanna... é a visão de quem deixou de acreditar em quase tudo o que temos atualmente. Na verdade, é uma visão bem deprimida da realidade. Bem cansada de discutir o fim do livro, quando na verdade devemos ter mais leitores, em qualquer formato!

(Publishnews - 16/08/2017)

*

Camila Cabete tem formação clássica em História e foi responsável pelo setor editorial de uma editora técnica, a Ciência Moderna, por alguns anos. Entrou de cabeça no mundo digital ao se tornar responsável pelos setores editorial e comercial da primeira livraria digital do Brasil, a Gato Sabido, além de ser a responsável pelo pós-venda e suporte às editoras e livrarias da Xeriph, a primeira distribuidora de conteúdo digital do Brasil. Foi uma das fundadoras da Caki Books, editora cross-mídia que publica livros em todos os formatos possíveis e imagináveis. Hoje é a Brazil Senior Publisher Relations Manager da Kobo Inc. e possui uma start-up: a Zo Editorial (@ZoEditorial), que se especializa em consultoria para autores e editoras, sempre com foco no digital. Camila vive em um paraíso chamado Camboinhas, com seus gatos pretos Lilica e Bilbo.

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