Blog do Galeno Observatório do Livro e da Leitura

23 de novembro de 2017

Livros para nichos

Paulo Tedesco

Anunciar tresloucadamente no Facebook, torrar a paciência dos amigos nas redes sociais e aparecer até no boteco da esquina com o livro embaixo do braço, não faz ninguém ficar conhecido, tampouco melhorar a visibilidade da obra.
Para início de assunto, não existe somente Facebook, e esse ainda é tímido nos números de retorno de vendas de livros, muito tímido. Também existem, antes dos jornais e redes sociais, os interesses de grupo, ou os nichos, e são nesses que devemos focar o início de uma carreira. Aliás, para qualquer início de carreira, autoral e editorial, o nicho é fundamental.
Um exemplo caseiro é de que o primeiro leitor a comprar nosso primeiro livro, usualmente, é aquele que nos cerca, como amigos, vizinhos e familiares. Esse grupo, por si, se constitui num nicho. Ainda que talvez não vá seguir comprando sempre seus livros, é um modelo que deve ser observado. Desenvolver outros grupos de interesse e dialogar com eles, num segundo momento, e a partir de outros laços, é sim a melhor forma de se fazer crescer, não só um público leitor, mas também testar os conteúdos que são produzidos ao longo do tempo.
Há os grupos dos tempos da faculdade e os grupos do futebol dos domingos à tarde, os amigos da cerveja e do videogame, do clube que frequentam os filhos e de suas escolas, e há aqueles que aprendemos a nos relacionar digitalmente e que têm afinidades de gostos e interesses. Pois é para esses que podemos iniciar e tentar fazer crescer a presença de nossos livros.
Atirar para todo o lado, para ficarmos num jargão muito conhecido, com as facilidades da internet, nunca foi tão fácil, mas concentrar o fogo numa única direção e avançar passo a passo, trincheira a trincheira, é um aprendizado que precisa acontecer na medida em que também se aperfeiçoa o que se escreve e como se publica. E aí está a riqueza de tudo, o editor ou autopublicador que aprende como e de que forma seu leitor se interessa por um livro, tem as portas do céu editorial escancaradas.
E sempre é bom deixar claro, que uma ação buscando o nicho do seu livro, não é nem deve ser uma ação dispendiosa. Ela deve ser antes de tudo inteligente. E nisso inclui listar as pessoas que o autor ou editor acredita que deveriam, e poderiam, estar na atividade de lançamento. E caso não possam comparecer, encontrar o melhor caminho para uma pré-venda, com envio da obra autografada a posteriori.
Quando se fala em nada dispendioso, não quer dizer cometer o absurdo em se subir uma versão digital na Amazon pelo KDP ou disponibilizar um PDF e liberar para a leitura, para depois “ver” a resposta dos leitores. Isso, definitivamente, não é inteligente, é uma atitude que afasta não só o bom e mais crítico leitor, que poderia não só comprar como ajudar com uma opinião para seguir a carreira, como demonstra a insegurança do autor ou editor no seu livro. Em outras palavras, quem perderia seu tempo lendo algo que nem o autor confia? Quer uma receita para evitar esse beco? Aposte no nicho.

(Publishnews - 09/11/2017)

*

Paulo Tedesco é escritor e consultor em projetos editoriais. É autor dos livros Quem tem medo do Tio Sam? Fumprocultura de Caxias do Sul, 2004); Contos da mais-valia & outras taxas (Dublinense, 2010) e Livros: um guia para autores (Buqui, 2015). Desenvolveu e ministra o curso de Processos Editorais na PUCRS e coordena o www.consultoreditorial.com.br atendendo autores e editores. Pode ser acompanhado pelo seu site, pelo Facebook ou pelo Twitter.

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