Blog do Galeno Observatório do Livro e da Leitura

23 de novembro de 2017

Livros, escrita, leitura

Carlos Alves

Palavras, imagens, ideias e sentimentos, desejos, sonhos e pesadelos, imprecações que iluminam e aquecem os homens. Viver tanto tempo com tamanha sabedoria envergonhada, dói só de pensar. Que hei de eu fazer, a timidez envenena-me, confesso que não sou de ler romances, literatura infantil ou mesmo ficção científica. Foi da janela da biblioteca que me habituei a admirar muitos escritores, Alexandre O’Neill, Fernando Pessoa, passando por Almeida Garrett e até o cronista Fernão Lopes. Entranhou-se-me na alma tamanho gosto pela leitura e pela escrita que guardo belas fornadas de sabedoria, intrincadas nos novelos da realidade autómata. Muitas volumosas, algumas fascinantes e atrevidas e até aquelas provocadoras que nos espremem porque são autoritárias, mas fica para outra altura.

Sinceramente, não sei se hoje ainda é um bom tempo para ser aprendiz de matérias, inquieta-me saber que existe tudo e não existe nada. Que coisa bizantina! Descobrir a inquietude da idade, da avaliação vocacional, do ter tudo e não ter nada. Aprender, realmente, é bom, mas não é para todos. Que a exclusividade apenas seja intimista nos recônditos do amor pela leitura e pela escrita. Que o germe narrativo nos insemine artificialmente apropriando-se da nossa envergonhada empatia e num ato mimético de astúcia nos torne seres de corpo e alma.

Realmente, mergulhar numa estante de uma biblioteca é picar a curiosidade, quase sagrada, de despertar para a paixão. Um atrevimento de heroísmo e mistério que nos faz vibrar como uma libido. Disseminar cultura deve ser um ato de pureza extrema, de significado candente que aveze impunemente todos aqueles que querem livremente amar a liberdade artística.

Como eu gostaria de ser um homem de letras, mas não me deixaram, ou eu não quis, ou não soube retirar de mim todos os caprichos extravagantes que em mim colocaram. A biblioteca imponente, cabotina para o rio, é um silêncio de mistério e túmulo, habitada por gente silenciosa que se devora a si própria, ligada à sua solidão funesta. Longe dos olhares ignóbeis, isolada no seu desespero, perdida nas suas esperanças. Foi para me encontrar comigo mesmo que para aqui vim.

O espaço é grande, com muitas janelas viradas para o nascente, mas também para o poente. Tenho medo muitas vezes dos estalidos soturnos que emergem da madeira, dos sofás, das cadeiras, das estantes que me habituei a contemplar com ousadia e mestria. Que segredos convivem ali que querem afastar a subtileza da força que há em mim. Não me encontrarão. Procurarei convívios maiores que venham embrulhados em papel de cetim almofadado com lâmpadas de paládio.

As jangadas lá ao fundo, seminuas, parecem gaivotas a planar, ofegantes pelo sustento, insensatas aos desafios do amor, de cor madura e sombria adivinham no horizonte a luz que se há de levantar num exemplo de grandeza e destruirá a ignorância escravizante.

Imagino que escrevo, dançando sobre as águas cristalinas, mesmo misturando névoa e fumo, olho lá para o fundo e vejo imagens de pássaros espantados, com medo do tiroteio que recrudesce, parecendo rosas a desfolhar-se. Escrevo, não livros, mas o livro que nos vai salvar, palmo a palmo, das pessoas, das coisas, dos lugares. Não é o tempo que muda.

O Sol existe, o ar é quente e dilacerante, convidativo a um sono profundo. Tudo está mudo e silencioso, a alma penada e pardacenta que pressinto em mim, forceja por transpor a paliçada que ergui e compreender a angústia, o abafamento, o temor, que esmaga o que em mim há de melhor.

Se ao menos pudesse chorar!

Sonho, não sei porquê!…
Sonho, talvez para refletir
Contra o medo, o vazio
Da minha vida enganada.
E a escrita
Que anda em mim,
Depois de sofrer,
O coração
Que entretém a razão,
E a dor que me alimenta
Dá luz à minha vida,
Para amar, o mar, o rio,
Para ler, sorrindo.

E mais nada.
Se ao menos pudesse chorar!

(mediotejo.net - 13/12/2017)

*

Carlos Alves estudou conservação e restauro e ciências sociais. É membro da Associação Portuguesa de Escritores (APE). Trabalha na área de informática. Participou em várias Antologias Poéticas e escreveu o livro “Diálogos da consciência” que serviu para se encontrar consigo próprio numa fase difícil da sua vida.

Mais Colunistas

Todas as notícias sobre "Colunistas"

Receba por e-mail


Cadastre-se!

Livrômetro

Relógio da leitura no Brasil

704.160.000

Livros lidos em 326 dias de 2017 no país