Blog do Galeno Observatório do Livro e da Leitura

15 de dezembro de 2017

A utopia das bibliotecas ideais

Jordi Llovet

Perguntar hoje sobre uma “biblioteca ideal” é quase sempre uma utopia, além de um anacronismo: este é o dano causado à produção literária pelo marketing e a falta de um conhecimento consolidado por parte do leitor comum em matéria de literatura.

É possível que na Grécia do século V tenha existido algo assim como uma “biblioteca ideal”, como atesta a coleção, perdida em boa parte, mas documentada, da biblioteca de Alexandria. Salvo em casos de perda irremissível de muitas obras da antiguidade, aquela biblioteca helenística deve ter abrigado o que a tradição chegou a considerar a grande literatura em língua grega. Aconteceu o mesmo em Roma, cujos “rolos” de escritos, mesmo quando fossem de qualidade literária menos homogênea que a grega, demonstrariam que os retores, os gramáticos e os filósofos tinham clareza sobre o que poderia ser considerado ideal –de acordo com parâmetros religiosos, estéticos, políticos e didáticos – e o que deveria ser considerado non classicus, ou seja, de pouca categoria.

Também na Idade Média estiveram em vigor vários critérios, além do concebido por Aquino, tão aristotélico — ad pulchritudinem tria requirintur: integritas, consonantia, claritas —, para considerar o que era bom, ou o ideal, e o que era secundário, graças à autoridade da complexa rede de valores própria dos longos séculos do Baixo Império Romano, e depois neolatinos, com base primeiro na teologia cristã e depois no não menos poderoso código –a partir do século XII– da sociedade de cavalaria e feudal. A produção de literatura era então tão escassa, e se encontrava tão calcada em modelos que, direta ou indiretamente, procediam do dogma cristão, que era pouco concebível a criação de poesia, teatro ou épica contrários a uma ideologia e mitos que, como a realeza, se achavam por força impregnados de símbolos e argumentos predeterminados e inescapáveis. As bibliotecas medievais –deixando de lado os clássicos conservados pelas ordens monásticas e as casas nobres– foram quase sempre representações de um mundo simbólico no qual tinham um papel muito pouco significativo as amostras “heréticas”, pagãs ou não canônicas de expressão literária.

Somente a partir do humanismo, ou de fenômenos como a invenção da imprensa, a redescoberta da grandeza das literaturas grega e latina, a consolidação das línguas vulgares, o trabalho dos tradutores e o contato frequente entre homens de letras de países muito diferentes, só então, e de um modo progressivo, a literatura proliferou de maneira extraordinária; e os marcos conceituais, ou os “campos” do literário se tornaram tão distintos que surgiu pela primeira vez, em nossa civilização escrita, uma enorme disparidade de critérios, de gêneros literários, de assuntos e de públicos leitores ou ouvintes do que começou a constituir, com muita importância e cada vez maior autonomia, o âmbito universal do literário.

A partir dos primeiros séculos modernos o panorama literário apresentou tal variedade de formas, de recursos e de regulação estética que já então poderia ter começado a disputa –tão poderosa durante o século XVIII– sobre o clássico e o moderno, o bom e o ruim, o ideal e o reprovável. Cada vez mais, escrever se tornou um trabalho independente de nossa herança clássica, e os livros, quando já eram propriamente os códices acessíveis que continuamos usando, atenderam a critérios despojados de todo dogmatismo, propensos a satisfazer diferentes gostos, amigos da novidade e da singularidade. Não resta dúvida de que os clássicos greco-latinos, e a própria Bíblia, continuaram aquilatando uma grande parte das literaturas modernas e contemporâneas –veja-se Moby Dick, de Melville, por exemplo, e até mesmo Ulysses, de Joyce—, mas esta influência, no âmbito de produções inteiramente livres, passou a se tornar somente uma referência de autoridade, um vestígio reconhecido do acervo antigo.

O panorama mudou ainda mais quando, na época posterior ao Iluminismo, as literaturas experimentaram uma exibição de ousadia fabulosa –caso das literaturas do Romantismo–, os índices de alfabetização se multiplicaram de modo exponencial e a leitura se tornou um hábito cada vez mais difundido, mais “democrático” e menos sujeito a qualquer forma de mitologia coletiva ou de dogmatismo teológico. Se ainda nos séculos renascentistas ou no Grand Siècle francês se pôde falar de uma “biblioteca ideal” ou do que podia ser idealmente a “boa literatura”, parece claro que, entre o século XIX e nossos dias, a literatura extravasou por completo as margens da tradição do “canônico”, de modo que atualmente não há quase nenhuma instância que possa arrogar-se o direito de estabelecer a lista do que chamaríamos “biblioteca ideal”.

Harold Bloom apresentou uma, muito famosa, em seu livro O Cânone Ocidental, no qual, sem dissimulação alguma, privilegiava a literatura inglesa, e Shakespeare em especial, com a mais absoluta tranquilidade. Uma tarefa assim é sempre inútil, já que existem, em nosso continente, muitos autores e livros hoje pouco lidos, mas de grande categoria, que durante um tempo ascenderam ao cânone literário ou caíram dele por razões que costumam ser circunstanciais, ideológicas ou partidárias. Basta ver a lista dos autores premiados com o Nobel de Literatura para se dar conta de que muitos deles subiram ao Parnaso do cânone literário –como aconteceu com o parnaso cervantino– para cair dele ao cabo de poucos decênios, ou até anos: veja-se o caso de nossos Echegaray e Benavente, o os casos de R.C Eucken (Alemanha), W. Reymond (Polônia) e E.A. Karlfeldt (Suécia).

A 11ª primeira edição da Enciclopédia Britânica (1911, com dois volumes complementares de 1920), na opinião de Borges a melhor edição de todas as que foram impressas dessa enciclopédia exemplar, mal sabia nessa data quem eram Flaubert, Melville ou Hölderlin, mas dedicava a Alfred Lord Tennyson, um poeta de autoridade muito relativa, doze colunas.

Bastam esses exemplos para compreender que as listas de uma “biblioteca ideal” pecam sempre por alguma arbitrariedade e costumam ter um valor de época, reconfigurado com o passar dos anos graças ao número de edições e de leitores que um livro pode chegar a ter, pela entronização de determinados autores valorizados pela academia ou de grupos fanáticos, ou pelo reconhecimento tardio de certos valores que passaram séculos no desvão do esquecimento.

A academia, e com ela os programas de ensino da literatura em escolas e universidades, seria há muito tempo a única garantia de conservação de um critério estético em relação ao mercado e à difusão de produtos literários. Com a autoridade dessas instâncias cada vez mais invisível e ineficaz, resta supor que cada leitor possua hoje sua biblioteca de excelências. Paul Valéry já tinha essa visão, em um verbete de seus Cahiers, sob a epígrafe “Obras-primas”: “Não é nunca o autor quem faz uma obra-prima. Deve-se a obra-prima aos leitores, à qualidade do leitor. Leitor dedicado, com fineza, com parcimônia, com o tempo e uma ingenuidade armada [...]. Só ele pode conseguir a obra-prima, exigir a particularidade, o cuidado, os efeitos inesgotáveis, o rigor, a elegância, a permanência, a releitura de um livro”. Valéry se referia a leitores muito capazes, como ele mesmo, mas é possível que, neste momento, nem sequer existam esses finos leitores em termos gerais. Por conseguinte, talvez devêssemos supor que, para o leitor comum de nossos dias, não exista melhor biblioteca ideal do que aquela que ele leu com prazer e que, no melhor dos casos, em um gesto novamente beneditino, conservará em sua biblioteca até a morte.

(El País - 19/11/2017)

*

Jordi Llovet é catedrático de Literatura Comparada na Universidade de Barcelona,

Mais Colunistas

Todas as notícias sobre "Colunistas"

Receba por e-mail


Cadastre-se!

Livrômetro

Relógio da leitura no Brasil

751.680.000

Livros lidos em 348 dias de 2017 no país