Blog do Galeno Observatório do Livro e da Leitura

20 de fevereiro de 2018

Estudo mostra que programa que incentiva pais a lerem para filhos pequenos tem impactos positivos na cognição e relações afetivas

Antônio Gois

Estimular a leitura para crianças pequenas é uma das atividades mais simples e eficazes para o desenvolvimento infantil. Há pouca ou nenhuma controvérsia em relação a esta afirmação, que é comprovada por um número significativo de estudos científicos. Porém, o desafio na formulação de políticas públicas é como incentivar pais ou cuidadores a lerem com qualidade para os filhos, especialmente em famílias de menor renda, escolaridade e hábito de leitura.

Um estudo publicado agora na edição de dezembro da revista Pediatrics - uma das mais prestigiosas publicações acadêmicas do setor, editada pela Academia Americana de Pediatria – mostra resultados promissores de um programa com beneficiários do Bolsa Família, desenvolvido no município de Boa Vista (RR).

Os pesquisadores - liderados por Adriana Weisleder, da Escola de Medicina da Universidade de Nova York - acompanharam a evolução de crianças de 2 a 4 anos de idade cujos pais participaram de um programa de incentivo à leitura promovido pela prefeitura de Boa Vista e pelo Instituto Alfa e Beto (envolvido também no estudo). Mais do que simplesmente distribuir livros com recomendação aos pais para lerem aos filhos, a iniciativa previa encontros mensais em creches (chamadas “Casas Mãe”) com as famílias para ensinar e debater melhores estratégias de leitura em voz alta. O objetivo era incentivar uma leitura mais interativa, para que crianças e adultos se engajassem em conversas sobre as histórias.

Os resultados de crianças de famílias beneficiadas pelo programa foram comparados com os de outras, de mesmo nível socioeconômico. Após dois anos, aquelas que participaram da intervenção registraram ganhos significativos em vocabulário e desenvolvimento cognitivo, medido em testes de QI.

Também foi percebido outro efeito positivo, consistente com resultados de pesquisas feitas a partir de uma intervenção semelhante nos Estados Unidos: houve melhoria nas interações de crianças e adultos, sendo um dos efeitos mais notáveis o menor uso de castigos físicos pelos pais. Para determinar as causas disso seriam necessários outros estudos, mas uma das hipóteses levantadas pelos autores é que este tempo dedicado à leitura em conjunto pode ter estimulado o diálogo entre pais e filhos, melhorando o comportamento das crianças e diminuindo situações de estresse.

Apesar dos resultados promissores, os autores afirmam no estudo que é necessário continuar avaliando os efeitos do programa para melhor entender sua eficácia e efeitos no longo prazo. É comum em vários programas na primeira infância que ganhos iniciais medidos em testes de QI se dissipem ao longo da trajetória escolar da criança, especialmente se ela for de baixa renda e não tiver acesso a escolas de qualidade. Por outro lado, resultados positivos não identificados imediatamente podem aparecer depois, como, por exemplo, o impacto no desenvolvimento socioemocional futuro. E, principalmente, o fato de uma intervenção ter funcionado em pequena ou média escala não é garantia de que os resultados serão os mesmos se for ampliada para um público mais amplo.

Tais limitações, comuns a iniciativas e pesquisas do gênero, não invalidam os resultados promissores. Promover a melhoria das relações entre pais e filhos desde a primeira infância é comprovadamente uma das estratégias mais inteligentes e eficazes de políticas públicas. O desafio é saber como fazer isso em larga escala, com eficiência e qualidade.

O Globo - 08/01/2018

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Antônio Gois é colunista do GLOBO e comentarista do Canal Futura de educação, tema que cobre desde 1996.

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