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18 de outubro de 2018

Ex-preso e sem um braço, homem se dedica aos estudos e passa em universidade

G1 18/03/2018

Ex-preso por tráfico de drogas e sem um dos braços. Para José Valverde, de 44 anos e morador de Campina do Monte Alegre (SP), essas condições poderiam significar impedimento para que assim que saísse da penitenciária, em 2017, conseguisse retornar ao mercado de trabalho e mudar sua história de vida. Porém, ele conta que encontrou nos estudos a saída para que conseguisse dar a volta por cima e evitar o preconceito.

José afirmou que terminou o ensino médio ainda na prisão, em Junqueirópolis, prestou o Exame Nacional do Ensino Médio e este ano conseguiu passar no vestibular da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar) no curso de Ciências Sociais. Para ele, foi um marco.

“Soube que precisava de uma mudança. Em uma saída temporária, em 2009, vi que estava destruindo minha família. Como filho mais velho, não era esse o exemplo que queria passar aos meus irmãos e sobrinhos. Desde então, eu decidi retomar os estudos e começar minha vida do zero. E deu certo”, contou.

José conta que decidiu se dedicar aos estudos e prestar o Enem ainda na prisão em 2014, 2015 e 2016. Mas em nenhuma das tentativas conseguiu uma vaga em alguma universidade. Mesmo assim não desistiu. “Contei a eles [agentes penitenciários] minha vontade e comecei a estudar e terminei o ensino médio. Não passei no vestibular enquanto estava preso, mas não desisti. Eu costumo dizer que Deus me deu uma oportunidade de começar de novo, me deu uma nova vida”, diz.

Após cumprir 13 anos por tráfico de drogas e ter a liberdade em fevereiro de 2017, o ex-presidiário procurou cursos preparatórios para prestar novamente o Enem. “Assim que saí da cadeia eu procurei o Centro de Referência de Assistência Social (CRAS) porque não estava conseguindo pegar meu histórico escolar na penitenciária. Através deles eu conheci um curso gratuito de preparação ao Enem. Fiz o curso e graças a Deus consegui passar pelo Enem”, conta.

 

De acordo com André Pereira da Silva, coordenador do projeto de extensão da UFSCar que oferece o ‘Cursinho Popular Carolina Maria de Jesus’, José demonstrava interesse desde o começo. “Eu o acompanhei desde o início e ele sempre foi sério, centrado e entregava sempre os trabalhos em dia. Ele até fazia redações por conta própria e pedia para os professores revisarem”, explica.

E foi o esforço na redação foi o que garantiu ao ex-detento a vaga no Enem, já que sua nota na redação foi 620. “Apesar de abandonar a escola ainda jovem, sempre tive o hábito de ler e sempre gostei de assuntos que envolvessem a sociedade, por isso que escolhi Ciências Sociais”, ressalta José.

O ex-presidiário relata que começou a enfrentar dificuldades ainda na infância, quando começou a trabalhar aos 12 anos. Porém, foi nessa idade que perdeu um dos braços.

“Eu nasci em uma família muito pobre. Então ainda pequeno comecei a trabalhar em uma serraria, junto com meu pai. Naquela época era comum começar a trabalhar aos 12 anos. Eu operava uma máquina que transportava a madeira de um lugar para outra para serrar, mas um dia não vi que a máquina já estava ligada e no que encostei minha mão no cabo de aço que segurava a madeira, ele enroscou no meu braço e o arrancou”, lembra.

 

Segundo José, perder um dos braços foi uma das piores coisas que aconteceu na vida e que, apesar de aprender a viver com essa deficiência, jamais vai se acostumar. “Eu que buscava minha independência, de repente me vi dependente de todos. Então parei de estudar, não tinha ânimo para fazer nada. Aos poucos fui apreendendo a conviver com essa deficiência, mas não foi fácil me adaptar e nem conseguir outro emprego”, explica.

Então, jovem e desempregado, José diz que cometeu seu primeiro crime aos 21 anos e não parou mais até ser preso em 2005 por tráfico de drogas. “Como não conseguia emprego, entrei no mundo tráfico, sendo iludido pelo dinheiro fácil. Nessa época não pensava no que estava fazendo com minha vida, só percebi isso quando vi que estava fazendo com minha família. Foi então que decidi mudar”, conta emocionado.

Agora, ele pretende ajudar pessoas que, como ele, não sabem qual caminho seguir. “Quero ajudar os outros dando meu exemplo de vida. Muitas vezes não pensamos no quanto algumas atitudes podem mudar nosso futuro. Uma das coisas que aprendi com tudo que passei isso é que não chegamos a lugar nenhum sozinho e tenho muito o que a agradecer a Deus e a todos que confiaram em mim”, conclui.

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