Blog do Galeno Observatório do Livro e da Leitura

18 de outubro de 2018

Daniel Munduruku: "Nada fala mais alto do que a pedagogia do exemplo"

Galeno Amorim

Mais conhecido entre seus leitores, professores e bibliotecários como um competente autor de livros, principalmente para crianças e jovens, o escritor Daniel Munduruku, Doutor em Educação, é um analista de primeira grandeza quando o tema é leitura, dentro ou fora da sala de aula. A entrevista exclusiva que deu ao blog é, ao mesmo tempo, doce e inquietante. Não dá para não ler!

 

1. Qual o pulo do gato para formar professores que gostem de ler?

R) ?Creio que uma das possibilidades na formação de professores leitores é motivá-los a descobrirem em si uma autoestima que anda muito ausente da profissão. Os professores precisam se saber importantes no processo da formação de mentes equilibradas e criativas e, para isso, é preciso estar o tempo todo em conexão com os novos processos porque passam as crianças e os jovens. Se os educadores se sentirem realmente comprometidos com a mudança saberão buscar na leitura os elementos necessários para que se voltem para si mesmos e consigam mediar os saberes dos alunos que estão sob suas responsabilidades. Portanto, o primeiro passo é que haja uma autovalorização do magistério.?

 

2. O que não pode faltar na formação literária do professor-leitor?

R) ?Ninguém se torna leitor por osmose. A prática leitora nasce do desejo de aprender e do empenho individual de cada pessoa. Para que isso aconteça é preciso lembrar ao professor que não há descobertas sem empenho, sem sofrimento, sem esforço. Quem forma educadores deve ter bem claro que é preciso construir ritos de passagem que permitam os formandos a criarem em si os significados originários de sua formação, de seu processo de aprendizagem e da tarefa que lhes cabe enquanto educadores. A máxima: "educar é coisa do coração" deve estar muito presente na formação literária do professor-leitor. Sem isso, a tendência é olhar para o ato de educar como uma profissão material. Ela é muito mais que isso, pois passa pela construção do imaginário e a imaginação só existe em que lê, ouve e crê na potencialidade humana.? 

 

3. E aqueles que já estão na sala de aula e ainda não são leitores?

R) ?Estes vivem um vazio difícil de ser preenchido. São apenas profissionais que cumprem uma função dentre os muros da escolas. É preciso despertar neles sua verdadeira missão: ser água corrente. O educador precisa ter consciência da necessidade de estar sempre em movimento para que as crianças vejam nele um refúgio seguro onde possam se divertir, banhar, se entregar? ?. Um rio parado é um rio podre. Nesse não há nenhuma alegria, não há festa. Cabe motivá-los para se sintam rios correntes para que as crianças encontrem neles a vida necessária para que cresçam? equilibradas e felizes.

 

4. Como a leitura literária pode contribuir para formarmos professores que tratem, na sala de aula, questões como preconceitos, pluralidade, respeito e ética de maneiras mais adequadas, e não apesar reproduzir o senso comum?

?R) Costumo achar que um bom professor é aquele que consegue influenciar sem impor. Para tanto, é necessário que este educador consiga fazer uma leitura crítica da realidade capaz de reverberar na sua própria vida. Não há melhor método didático-pedagógico que o exemplo. Educar exige que o educador consiga a confiança dos alunos. Não há forma melhor de se fazer isso do que o exemplo. Aí entra a pergunta inquietante: que tipo de leitura nos professores fazem? Que tipo de livros leem?? ?O que levam para a sala de aula como indicação de leitura? Serão leituras literárias ou moralistas? Serão leituras libertárias ou autoajuda? Serão dicas instigantes ou alienantes? Neste sentido, toda e qualquer tentativa de educar para a cidadania terá maior ou menor densidade a partir das respostas a estas questões. Preconceito é atitude, não teoria; a compreensão da diversidade passa pela autoestima que é alimentada pela valorização da própria identidade brasileira; ética é comportamento que se aprende na família. Portanto, a educador-leitor é também um influenciador de atitudes. Normalmente, é também alguém que faz uma profissão de fé na humanidade das crianças e jovens. Qual humano queremos formar? Isso é respondido pelo tipo de leitura literária que fazemos, sem dúvida nenhuma?

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