Blog do Galeno Observatório do Livro e da Leitura

21 de julho de 2018

O livro resistirá?

Antônio Bagão Félix - 22/06/2018

A Feira do Livro de Lisboa – a 88.ª – foi um êxito, desde logo pelo número de pavilhões, editoras e visitantes. Feira do Livro, como outras no país, e não Feira dos livros. Porque é uma festa do livro e da sua importância linguística, cultural, educativa, social e relacional.

Jean Guitton disse sobre o livro que “se tivesse sido inventado depois do computador teria sido uma grande invenção". Até por variadas e curiosas razões, tais como um maior e acessível campo de visualização, a sua completa disponibilidade, o não consumo de energia pela sua leitura, e até o seu cheiro de maior ou menor vetustez.

O intelectual e polímata George Steiner escreveu, há uma década, um pequeno livro com o belíssimo título O silêncio dos livros. Uma obra onde alerta para a ameaça que paira sobre a escrita e o livro, no actual contexto tecnológico e informacional, em que a tirania da tele e virtual presença se tornou um novo “cárcere”. Por isso, ele conclui que “nunca os verdadeiros livros foram tão silenciosos”.

O livro é docemente patrimonial, intimista dentro de nós. Pertence-nos na posse da sua leitura, na visita da sua releitura, na memória do seu sossego. Por isso, sabemos sempre onde encontrar a frase ou o excerto do livro que já lemos, como quem sabe a gaveta do vestuário.

De um modo alegórico, poder-se-á dizer que o livro exprime alguma forma de supremacia do espírito sobre a matéria. O livro é um antídoto contra as agora novas formas de ilusão e de alucinação com que se faz negócio, se abrem auto-estradas de ruído e se proclamam ilusórias comunidades ditas esclarecidas.

De novo, cito O silêncio dos livros: “A educação moderna cada vez se assemelha mais a uma amnésia institucionalizada. Deixa o espírito da criança vazio do peso das referências vividas. Substitui até o saber de cor que é também um saber do (cor)ação, pelo caleidoscópio transitório dos saberes efémeros. Reduz o tempo ao instante e vai instilando em nós uma amálgama de heterogeneidade e de preguiça.

Nada tenho contra – bem pelo contrário – as novas formas de transmissão de saberes, vivências, tempos. E se a Internet veio substituir a ardósia das escolas e o e-mail o personalismo das conversas e dos estados de alma, a importância substantiva do livro não diminuiu na rota de uma maior mundividência.

Mais Colunistas

Todas as notícias sobre "Colunistas"

Receba por e-mail


Cadastre-se!

Livrômetro

Relógio da leitura no Brasil

434.160.000

Livros lidos em 201 dias de 2018 no país

Publicidade