Blog do Galeno Observatório do Livro e da Leitura

21 de julho de 2018

Uma criança é um livro sendo escrito

Gilberto G. Pereira - 17/06/2018

A literatura infantil deve levar em conta o universo em expansão de seu leitor, que faz uso da criatividade para existir no mundo, nutrindo-se de ritmo, espaço e tempo, enquanto se constrói

Quem quer escrever para criança precisa consultar a criança dentro de si. Esse tipo de escrita, em Goiás, vem crescendo de uns 15 anos para cá, porque houve maior interesse das escolas pela produção local

O que é uma criança? É muito mais que um prefácio de adulto. A criança é um livro sendo escrito, um livro que já traz consigo os próprios procedimentos criativos, de ritmo, figuras de linguagem, tensão dramática, riso e luz, espaço e tempo. Uma criança são muitos personagens que se olham e agem. É um livro que qualquer autor precisa ler para depois escrever o seu, olhando para dentro e ao redor de si mesmo.

Até quando se quer escrever numa linguagem distanciada de adulto, é preciso consultar a criança dentro de nós, ligar a máquina do tempo e buscar o ser primoroso da criação, dizem alguns escritores. É imperioso consultar a esplêndida e régia riqueza, “esse tesouro de recordações”, diz Rainer Maria Rilke. Tem-se de recorrer à infância, aconselha Milton Hatoum, porque a criança guarda a chave da emoção pura, a emoção verdadeira, aquela que deve ser pescada no rio de sentidos do adulto.

A criança se interessa por tudo, desde que os códigos estejam alinhados a sua alta capacidade voltaica de assimilação, porque uma criança é tudo, são cinco sentidos determinados a construir um mundo, tentáculos da percepção pescando significados, criando, desfazendo, recriando, malabares de imaginação, filósofos do lúdico.

Não é à toa que a criança é comparada ao filósofo. É porque mantém a alma acesa diante do mundo, absorvendo-o e se espantando com o que o mundo oferece. Toda a obra de Monteiro Lobato se apoia nessa premissa. Tudo que os personagens fazem é se aventurarem, admirantes e atuantes, pelas correntes de fenômenos, de invenções, de criações maravilhosas, da mitologia grega ao folclore brasileiro, discutindo questões fundamentais como poder, amizade, amor, inveja, medo, opressão, liberdade, vida e morte.

Não é à toa que entre os personagens mais fascinantes de Lobato estão dois bonecos, um dotado de saber erudito, carregado de leituras, e outra que é pura sagacidade intuitiva, capaz de roubar o fogo dos deuses para insuflar na alma humana, só por diversão e desafio. Os dois, Visconde de Sabugosa e Emília, não deixam de ser dois filósofos, cada um a seu modo, um do lado de Apolo, outro do lado de Dioniso.

Ambos não só se espantam com o mundo e o questionam, como nos fazem espantarmo-nos também, e por isso nos encantam. Por isso as crianças são fascinadas por eles, porque são seus iguais.
O escritor norueguês Jostein Gaar­­den, esse viking conquistador de imaginários, disseminador de sonhos, escreveu um livro intitulado “O Mundo de Sofia”, em que um misterioso professor de filosofia diz à adolescente Sofia que assim como as crianças o filósofo “jamais se acostuma com o mundo”, porque o mundo é “algo novo, que causa estranhamento”, e ambos se entregam a ele com a alma aberta.

As crianças se encantam com o mundo é assim, como filósofos espontâneos. Como quando uma certa Penélope, uma menina que conheço muito bem, observou o balão e disse “o balão estoura porque se assusta”, e entre o espanto e a intriga também perguntou “a tartaruga tem bochecha?”.

Não é à toa que Marcelo, personagem de Ruth Rocha, fica espantado com o mundo e seu funcionamento, e por isso questiona a chuva, o mar, os animais, as palavras e as coisas, as atribuições de sentidos, porque naquele momento ele mesmo quer construir o seu próprio universo semântico, enquanto vai entendendo a complexidade das convenções humanas.

Elaborações

Compreender a qualidade plural do mundo interior de uma criança é uma aula. Uma criança é capaz de qualquer coisa, como o menino do livro de Cláudia Machado, “A Invenção de João”, que foi inventando os artifícios da existência até que aprendeu a gostar da vida.

Quando uma criança sonha, a cidade se alegra, como no livro “O Movimento das Cores”, de Yêda Marquez, em que dois irmãos, no meio de uma noite chuvosa, veem latas de tintas caírem no chão e o líquido escorrer pelas ruas de Goiânia. Eles correm atrás e observam uma cidade cinza, que deve ser pintada, e na aventura descobrem os pintores goianienses.

Ao mesmo tempo que é elaboradora de mundos, a criança também é uma esponja que suga com facilidade os mundos já criados, elaborados ou remodelados pelos adultos, pelos valores sociais, pelas relações intersubjetivas.

Neste sentido, os preconceitos são dispositivos que entram na alma e se instalam, e a literatura pode ajudar a criança a combatê-los e a descobrir novas maneiras de elaboração do mundo ou de se relacionar com o que já existe, como a garotinha, personagem de Valéria Belém no livro “O Cabelo de Lelê”, que descobriu no seu cabelo os fios que tecem sua própria identidade e a riqueza que é a cultura de seus ancestrais.

Herança

A história da literatura infantil no Bra­sil chega ao seu centenário agora nas primeiras décadas do século 21. Segundo Laura Sandroni, no livro “30 Anos de Literatura para Crian­ças e Jovens”, organizado por Eliza­beth D’Angelo Serra (Mercado de Letras, 1998), nas duas décadas iniciais do século 20 surgiram os livros pioneiros para crianças de autores brasileiros, como “Através do Brasil”, de Manoel Bonfim e Olavo Bilac, e “Contos Pátrios”, de Bilac.

Mas nessa época, a maioria da publicação para esse público ainda era traduzida. Foi José Bento Monteiro Lobato que mudou as feições da literatura infanto-juvenil para sempre no país do Jeca Tatu.

Ao avaliar a qualidade dos livros traduzidos, Lobato teria dito em carta a um amigo: “Pobres crianças brasileiras! Que traduções galegais! Temos de refazer tudo isso – abrasileirar a linguagem.” Obvia­mente, ele fez mais do que isso, ao publicar “A Menina do Narizinho Arrebitado”, em 1921, dando início à verdadeira tradição da literatura para crianças e jovens no Brasil, deixando uma herança que até hoje forma escritores, como todas as autoras goianienses entrevistadas pelo Jornal Opção para a reportagem a seguir (páginas B2 e B3).

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