Blog do Galeno Observatório do Livro e da Leitura

26 de setembro de 2018

Da biblioteca à parada de ônibus: A paixão de Sônia Zanchetta pela leitura

RYOT Studio, CUBOCC - 22/08/2018

Ela já foi dona de livraria, fundou biblioteca comunitária, transformou uma parada de ônibus em ponto de troca e organiza a Feira do Livro de Porto Alegre há 22 anos.

Sônia Zanchetta é a 168ª entrevistada do projeto "Todo Dia Delas", um projeto editorial do HuffPost Brasil.

Há mais de duas décadas, Sônia Zanchetta se dedica a formar leitores. Seu trabalho e suas horas de lazer são dedicados a reunir, organizar e sobretudo fazer com que livros circulem, saiam das prateleiras. Em horário comercial, ela é responsável pela organização da área infantil da Feira do Livro de Porto Alegre (uma das mais tradicionais do País, a Feira é realizada anualmente desde 1955, na Praça da Alfândega, bem no centro da cidade, e neste ano, ocorre de 1 a 18 de novembro).x

Quando chega em casa, em Cachoeirinha, na região metropolitana, dedica-se à biblioteca comunitária que ajudou a fundar, o Ponto de Leitura Sol e Lua, e também à manutenção da Parada da Leitura, um ponto de ônibus no centro da cidade que ela mantém abastecido de livros, revistas e até DVDs.

O livro tem que circular. Não faltam livros, o problema é que eles não circulam.

 

CAROLINE BICOCCHI/ESPECIAL PARA O HUFFPOST BRASILA 64ª Feira do Livro de Porto Alegre acontece no próximo mês de novembro.

 

Leitora voraz desde criança, Sônia começou a se dedicar profissionalmente aos livros quando voltou para Porto Alegre depois de viver por vários anos fora do Brasil - formada em jornalismo, a jovem de 28 anos foi selecionada pelo Ministério das Relações exteriores para um estágio na embaixada brasileira em Quito, no Equador; lá, casou-se com um equatoriano e ficou por 17 anos. "Voltei divorciada e com três filhos. Fui para Cachoeirinha, onde meu pai tinha uma casa e eu não precisava pagar aluguel". 

Logo que se instalou na cidade, Sônia tornou-se uma referência: é para ela que comunidade, organizações, escolas e empresas, mandam os livros de que não precisam mais. "Eu tinha muitos livros, e montei uma biblioteca na garagem. A porta era de vidro, os vizinhos viam e me pediam emprestado. Depois, começaram a doar também".

Então, ela abriu um café-livraria, o Leituras e Gostosuras, e ganhava tantos livros que podia distribuir. Levava para escolas, empresas, e até ajudou a criar uma sala de leitura na secretaria da Educação. Os livros que arrecadou também permitiram à associação de moradores das vilas Carlos Wilkens, Márcia e Regina abrir uma biblioteca, mas a iniciativa durou pouco mais de um ano.

Quando casou, minha mãe levou no enxoval o Thesouro da Juventude e a coleção completa de Monteiro Lobato.

 

CAROLINE BICOCCHI/ESPECIAL PARA O HUFFPOST BRASILÉ para ela que comunidade, organizações, escolas e empresas, mandam os livros de que não precisam mais.

 

Em 2012, depois de fechar o café, Sônia resolveu abraçar e reabrir a biblioteca comunitária. "Pedi a chave, reuni sete mulheres e passamos os finais de semana limpando". Até a praça em frente à biblioteca, a Telmo Silveira Dornelles, que tinha virado ponto de tráfico, foi reformada. Sônia conseguiu materiais doados, e a prefeitura colocou a mão de obra - hoje, tem morador se queixando do movimento excessivo de gente que vai para a praça aproveitar o wi-fi da biblioteca liberado.

Desde então, Sônia é a coordenadora do Ponto de Leitura Sol e Lua. É lá que passa todas as tardes de sábado e domingo, recebendo gente como o menino Igor, de 15 anos, que numa tarde de sábado procurava um caminho para "sair da miséria". "Ele falava muito em superação. Sugeri que levasse uma biografia, pois são sempre inspiradoras. Ele quis a do Getúlio Vargas. Queria saber por que ele foi importante".

Entre 2011 e 2014, ela organizou o Piquenique da Leitura. Todos os domingos, estendia uma toalha de 15m x 2,5m em um parque da cidade e espalhava os livros. "A proposta era trocar, mas quem chegasse sem nada podia levar um livro também. O livro tem que circular". O toalhão foi dividido em dois, e o Piquenique migrou para as escolas da cidade, a pedido dos professores.

Estes dias uma menina chegou com o livro todo estropiado, perguntando quanto tinha de me pagar. Tinha chovido dentro da casa dela e molhado o livro.

 

CAROLINE BICOCCHI/ESPECIAL PARA O HUFFPOST BRASILUm livro parado em uma prateleira é só mais uma história. Sônia faz com que eles ganhem vida.

 

O projeto mais recente é a parada de ônibus que também é biblioteca. Sônia escolheu um ponto próximo à sua casa, na Avenida Flores da Cunha, onde alunos de quatro escolas diferentes desembarcam; pediu permissão à prefeitura, que cedeu a ela o direito de reformar o espaço; fez um acordo com a loja que fica em frente, que cedeu as tintas para decorar a parada com as cores da rede, e ainda colocaram iluminação; mandou fazer a estante e voilá: em dezembro de 2017, inaugurou a Parada da Leitura. Todos os dias, ao sair de casa, passa por ali para deixar novos exemplares nas prateleiras. "As pessoas diziam que, em Cachoeirinha, nada funciona, não ia dar certo. Pois tem gente que troca os livros, gente que doa, que leva e traz de volta".

Nem tudo, é claro, são flores. O primeiro adesivo identificando a Parada foi arrancado, o banner que o substituiu rasgou, o adesivo novo durou um dia. "Agora, vamos grafitar. Não podemos é desistir". Sônia também combate o uso desvirtuado do espaço: "As lojas e igrejas colocavam pilhas de panfletos na estante. Eu recolhia e devolvia, explicando que a Quitanda não é para isso. Os comerciantes entenderam, as igrejas ainda não".

Tudo isso, Sônia realizou em paralelo ao trabalho na Câmara Riograndense do Livro (CRL), onde está desde 1997. Recém-chegada do Equador, foi apresentada ao presidente da Câmara em um evento. "No dia seguinte, vim para cá e não saí mais". Sônia foi responsável por trazer autores como o peruano Mario Vargas Llosa e a mexicana Laura Esquivel para Porto Alegre, antes de assumir a área infanto-juvenil do evento.

Os professores que trazem seus alunos à Feira têm de promover a leitura dos autores.

 

CAROLINE BICOCCHI/ESPECIAL PARA O HUFFPOST BRASILSônia ganhava tantos livros que chegou até a ajudar na criação de uma sala de leitura na secretaria da Educação da cidade.

Hoje, trabalha com escolas e professores, que em novembro levam seus alunos à Praça da Alfândega para encontros com os autores, contação de histórias e sessões de autógrafos. Até as atividades da Bebeteca, para crianças de até seis anos, são levadas muito a sério. "Quando eu cheguei na Feira, a única atividade para crianças eram teatrinhos. Os professores que trazem seus alunos têm de se comprometer a promover a leitura dos autores. Tem de ser agradável, mas deixar alguma marca, não ser só lúdico". Em 2018, vai ter até autor estrangeiro na área infantil.

Este ano é de cortes no orçamento da Feira. A verba para convidar autores de outras localidades é escassa, mas Sônia orgulha-se ao contar que muitos deles virão por conta própria, por fazer questão de estar na Praça da Alfândega. "Apesar das dificuldades, a gente sempre termina com o coração quentinho".

Na mesa ao lado, a colega Ana Paula Cecato concorda. Professora da rede pública, ela conheceu Sônia frequentando o café Leituras e Gostosuras. Começou a trabalhar na organização da Feira e deixou para trás um antigo sonho. "Eu queria ser professora de inglês, mas tinha uma livraria no meio do caminho...", diz a discípula e admiradora, responsável por sugerir este perfil ao HuffPost Brasil.

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