Blog do Galeno Observatório do Livro e da Leitura

16 de outubro de 2018

Jeanette Rozsas: "Professor, leia tudo que lhe cair nas mãos!"

Galeno Amorim

Dirigente da União Brasileira de Escritores (UBE) por vários mandatos, a escritora paulista Jeanette Rozsas tem uma queda pelos romances biografados, um gênero em que manda muito bem, obrigado. Dona de um texto fluente e envolvente, ela dá sua receita para formar o professor-leitor: leiam os clássicos, sejam eles estrangeiros ou nacionais e... obras sobreTeoria Literária. Mas sua dica principal é: "leiam tudo quanto lhes cair nas mãos!".

1. Qual o segredo para harmonizar a vida pacata de Kafka, que morrreu praticamente anônimo, com a do escritor imaginativo e brilhante?


R) Na realidade, Kafka nunca teve vida pacata. Seu mundo interior era sempre invadido por pensamentos mórbidos e sua visão de mundo terrivelmente sombria. A vida exterior não representava nada para ele. Tudo se passava dentro da mente e da alma. Some-se a isso um profundo sentimento de inferioridade, total insegurança em tudo quanto fazia, aí incluindo-se sua produção literária. O desentendimento constante com o pai só veio agravar todos os traços depressivos: o pai queria torná-lo um comerciante e, depois, um industrial. Mas Kafka carregava consigo a marca do corvo, a vida interior avassalada por fantasias que geraram contos e romances, tornando-o um dos maiores escritores da literatura ocidental e que inovou a literatura do século XX. Kafka morreu praticamente anônimo primeiro por resistir a entregar a editores suas obras, que não achava suficientemente boas. Segundo, porque a aceitação por parte da crítica da época e do público não lhe era favorável. Apenas seu grande amigo Max Brod vislumbrou, desde logo, a genialidade do escritor, incentivando as primeiras publicações e, após a morte do Gênio de Praga, dedicando-se a publicar toda a sua obra.

3. Por que ainda se escreve e se publica tão pouco de biografias romanceadas no Brasil?

R) Na verdade, cunhei um nome não muito bem aceito por um ou outro crítico: romance biográfico, que acho mais apropriado ao trabalho que faço. Talvez melhor seja mesmo biografia romanceada, mas quis enfatizar que o conteúdo é um romance, ainda que absolutamente fiel às obras consultadas. É um tipo de literatura que exige muito do autor: leitura de inúmeros textos de referência, adaptação à forma de romance, com a contextualização histórica, geográfica e política, além da elaboração de diálogos “pinçados” das obras, cartas, e diários do biografado. É um gênero extremamente trabalhoso e caro. Levo cerca de 3 a 4 anos para pôr um ponto final no romance e compro às minhas expensas as melhores biografias, nacionais e estrangeiras que posso encontrar. Acho que é essa a razão de ser um nicho pouco explorado.


3. Você é sempre muita ativa e eclética, seja relação às formas mais tradicionais da produção literária ou às novas. Para onde as novas mídias vão levar os leitores, considerando que os leitores que hoje têm menos de 18 anos jamais conviveram em um mundo sem internet?

R) Nós, autores, temos de nos adaptar às novidades que surgem dia a dia. Já fiz romance em audiolivro, coloquei em podcast, tenho todas as minhas obras no formato eBook. Mas acho que o livro há de perdurar enquanto as escolas e os pais mostrarem esse caminho para os filhos. Hoje mesmo voltei da Festa do Livro do meu neto, uma cerimônia na qual as crianças são consideradas letradas e alfabetizadas e recebem simbolicamente o seu “primeiro livro”.


4. O que não pode faltar na estante para ser bons professores-leitores?

R) Sem sombra de dúvida, os clássicos, nacionais e estrangeiros. Também livros sobreTeoria Literária. E acompanhar a produção atual, buscar informações nas páginas especializadas, hoje tão facilitada graças à internet. Recomendo, ainda, aos professores, que leiam tudo quanto lhes cair nas mãos. Se não for bom, deixar de lado sem culpa e já passar para nova leitura. Incentivar os alunos por meio de rodas de leitura em classe, convidar autores para falarem sobre o processo criativo de suas obras, formação de bibliotecas em classe, e inúmeras outras ideias que animem os estudantes a embarcar no mundo fascinante da leitura.

Mais Entrevistas

Todas as notícias sobre "Entrevistas"

Receba por e-mail


Cadastre-se!

Livrômetro

Relógio da leitura no Brasil

622.080.000

Livros lidos em 288 dias de 2018 no país

Publicidade