Blog do Galeno Observatório do Livro e da Leitura

17 de outubro de 2017

A primeira ressureição de Rubem Alves

Galeno Amorim

As três boas horas que passei, hoje, entre cinquenta presos-leitores da Penitenciária Masculina de Ribeirão Preto, me deram alegria e alento redobrados. Em primeiro lugar, porque compartilhar histórias e uma prosa alongada sobre o papel dos livros na vida das pessoas com gente interessada no assunto não tem preço. Não é pouca coisa.

Depois, porque poder testemunhar a ressureição de uma biblioteca, literalmente das cinzas, e que já alcança, em tão pouco tempo, resultados pra bibliotecário nenhum botar defeito, também não é pra qualquer um.

O caso é que pude ver, com os próprios olhos (que ainda hão de ler muitos livros nesta vida), nesta quinta-feira de sol a pino, uma e outra coisa. E, no final, ainda filar uma bóia por lá, junto a pessoas queridas.

Desta vez resolvi deixar um pouco de lado minha velha e surrada ladainha sobre como livros mudam e transformam, para melhor, a vida de pessoas. Mesmo porque muitos deles, antes mesmo que eu repetisse minha cantilena, já me ensinavam, de modo prático e reto, como é que isso se dá, pra valer, na prática.

Muitos ali haviam acabado de ler "Carrasco de Goleiros", uma biografia que cobre os primeiros anos da vida do Ronaldo Fenômeno (na época, ainda Ronaldinho, um menino rumo ao prometido estrelato mundial). A obra foi escrita a seis mãos (belas mãos, diga-se de passagem, essas do escritor Luiz Puntel e dos jornalistas, também autores, Luiz Carlos Ramos e Brás Henrique), e publicada por mim, antes da virada do último milênio.

O livro fez muito sucesso entre os jovens na última década do século passado. E faz até hoje, entre os participantes dos vinte clubes de leitura que o Instituto Palavra Mágica, que eu criei e mantenho, leva, junto com a Funap, aos presídios paulistas. Uma hora dessas eu conto algumas dessas histórias.

Mas o fato é que a alegria maior ainda estava por vir.

Nesse presídio, eu inaugurei, nos primeiros anos da década de 2.000, quando era secretário de Cultura de Ribeirão Preto, uma das 80 bibliotecas (sim, isto mesmo: 80 bibliotecas) que abri, em pouco mais de três anos, na cidade. Era uma biblioteca modelar e eu sempre a citava como exemplo por duas razões: primeiro porque, em apenas quatro meses, a quantidade inaugural de livros mais que dobrou, graças às doações dos visitantes que se encantavam, nas visitas, de ouvir dos entes queridos e amigos presos que só faziam ler e falar de livros e personagens.

As doações não tardaram, rápidas e certeiras, e o acervo foi lá pras alturas.

Contudo, o que dava mesmo água na boca e fazia encher de outras águas, estas salgadas, os olhos de quem quer que tomasse conhecimento do que se passava por ali, era seus indicadores de leitura (na ocasião, graças a essa e a outras políticas, o índice de leitura na cidade multiplicou-se por 6, e muito se devia ao número de livros emprestados, especificamente, naquela biblioteca, não por acaso batizada de Rubem Alves).

Pois bem: numa rebelião, em 2006, esses livros viraram pó.

Mas a história que traziam esses livros e a história da própria biblioteca, não. Algo permaneceu em seu DNA.

Custou, mas, enfim, a boa e aguerrida bibliotequinha da cadeia se reergueu. Agora, está de pé. Já contabiliza 2.500 livros, que crescem feito foguete. Estão, hermeticamente, enfileirados e organizados, de tal forma que encheriam de orgulho qualquer bibliotecário. Quem faz isso, com zelo de quem carrega o andor, é um dos presos, também incubido de fazer os livros voarem pelos quatro pavilhões. E como o faz!

Assim do nada (eita expressão que, definitivamente, não cabe aqui, nestas linhas...), os presos voltaram a ler. E os livros já não param nas estantes. Nos oito meses do ano, um entre cada 4 reclusos leu ao menos um livro. Mais: cada leitor do lugar (há 2.000 homens cumprindo pena por lá) lê, em média, 3 livros por mês (ou 36 por ano, várias vezes mais do que a média nacional, de míseros 4,97 livros lidos pelos brasileiros acima de 5 anos a cada 12 meses, incluídos aí os escolares).

Rubem Alves, lá de onde está, sorri. É um sorriso de criança.

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